Algumas anotações que fiz durante a leitura:
- A lógica do dildo
O dildo traz muitas questões, como a possibilidade de construção e reconstrução do sexo. Quando o autor disserta sobre a disponibilidade do corpo ou de partes dele ao consumo, isso me faz pensar em como a pornografia centra a visão a partir do olhar masculino. No entanto, não faltam exemplos de outras formas pelas quais o corpo feminino esteve à venda, enquanto o masculino parece tentar provar que é inconsumível ou irreplicável. Pode-se dizer que o dildo questiona essa lógica, mas não só. Ao invés de copiar o pênis, o dildo reconstrói e ultrapassa os limites do extracorporal.
- Aprendendo sobre o dildo
O dildo questiona a lógica da diferença sexual a partir de um órgão e ameaça o pênis como centro dessa lógica. O sexo não é anterior ao gênero; ele é produzido performativamente. O dildo não é uma simples imitação do pênis, mas uma prótese que revela a dimensão técnico-material da sexualidade, desestabilizando a ideia de um órgão sexual originário.
“se o dildo suscita a reprovação na comunidade lésbica e nas representações em geral é porque esse incômodo brinquedo nos faz compreender que os verdadeiros pênis não passam de dildos”
- Breve genealogia do orgasmo
Estas quatro grandes tecnologias da sexualidade são, segundo Foucault: a histerização do corpo da mulher, a pedagogização do sexo da criança, a socialização das condutas procriadoras e a psiquiatrização do prazer perverso.
As tecnologias sexuais também aparecem na construção da sexualidade como um processo de ressignificação e reapropriação de tentativas de controle. Essa tentativa de controle surgia conforme era preciso estabelecer os órgãos sexuais como único centro de produção sexual. A energia do proletário deveria ser direcionada à força física do trabalho ou ao trabalho de reprodução. As tecnologias poderiam ameaçar essa lógica de controle capitalista sobre o trabalho e a reprodução de novos trabalhadores.
O prazer sexual feminino nasce de tecnologias de controle e restrição da sexualidade. Esse processo integra a máquina como produtora de prazer e desloca o sujeito do prazer. A mão e o dildo abrem linhas de fuga onde a produção do prazer era controlada por dispositivos a serviço do biopoder.
- A industrialização dos sexos
A reatribuição do sexo em bebês intersexuais são modos de realinhar a ordem heteronormativa do corpo. A produção do sexo não é um mecanismo natural, mas sim a junção de diversas tecnologias que garantem a genderização. Essa produção, antes determinada pela possibilidade de reprodução, passa a ser vista como a produção do pênis como significante sexual — dois modelos de produção sexual.
Tecnologias do sexo
Mulher = natureza
Homem = tecnologia
Porém:
Mulher = alteração da carne
Homem = carne
Ao menos historicamente, a mulher é vista como mais próxima da natureza e restrita às suas funções “naturais” e “biológicas”, enquanto o trabalho do homem é visto como modificador da natureza e mais próximo da tecnologia. Ironicamente, a feminilidade não é mais do que um simulacro de si mesma. A masculinidade se torna associada à carne, e a feminilidade como alteração dessa carne (ex: procedimentos estéticos).
As teorias aristotélicas de procriação são um exemplo interessante: acreditava-se que o sêmen continha o feto já formado, bastando ser depositado no corpo da mãe. Aqui, entende-se a mulher como corpo passivo e o homem como corpo ativo na procriação — o homem como agricultor e a mulher como terra.
No entanto, é preciso repensar tecnologia: ela não pode ser entendida apenas como alteração da natureza, mas como construção da própria natureza.
- Próteses de gênero
Próteses surgem com o objetivo de reconstruir o corpo do soldado e do operário. A construção e desconstrução do corpo realocam a diferença entre corpo e máquina.
“O que estou sugerindo aqui é que o sexo e o gênero deveriam ser considerados como formas de incorporação prostética que se fazem passar por naturais, mas que, em que pese sua resistência anatômico-política, estão sujeitos a processos constantes de transformação e mudança.”
“Se os discursos das ciências naturais e das ciências humanas continuam carregados de retóricas dualistas cartesianas de corpo/espírito e natureza/tecnologia, enquanto os sistemas biológicos e de comunicação provaram funcionar com lógicas que escapam a tal metafísica da matéria, é porque esses binarismos reforçam a estigmatização política de determinados grupos (as mulheres, os não brancos, as pessoas queer, os incapacitados, os doentes...) e permitem que eles sejam sistematicamente impedidos de acessar as tecnologias textuais, discursivas e corporais que os produzem e os objetivam. Afinal, o movimento mais sofisticado da tecnologia consiste em se apresentar exatamente como ‘natureza’.”