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    Filho da mãe -

    Hugo Gonçalves

    Companhia das Letras Portugal
    2019
    240 páginas
    8h 0m
    ISBN-13: 9789896657727
    Português
    3.9
    41 avaliações
    Leram54Lendo6Querem118Relendo0Abandonos5Resenhas7
    Favoritos0Desejados118Avaliaram41

    Um texto autobiográfico, tão comovente quanto surpreendente, sobre o que é crescer sem mãe. Lê-se como um romance mas é feito de vida. Perto de fazer quarenta anos, Hugo Gonçalves recebeu o testamento do avô materno dentro de um saco de plástico. Iniciava-se nesse dia uma viagem, geográfica e pela memória, adiada há décadas. O primeiro e principal destino: a tarde em que recebeu a notícia da morte da mãe, a 13 de Março de 1985, quando regressava da escola primária. Durante mais de um ano, o escritor procurou pessoas e lugares, resgatando aquilo que o tempo e a fuga o tinham feito esquecer ou o que nem sequer sabia sobre a mãe. Das férias algarvias da sua infância aos desgovernados anos de Nova Iorque, foi em busca dos estilhaços do luto a cada paragem: as cassetes com a voz da mãe, os corredores do hospital, o colégio de padres, uma cicatriz na perna, o escape do amor romântico, do sexo e das drogas ou uma roadtrip com o pai e o irmão. Esta é uma investigação pessoal, feita através do ofício da escrita, sobre os efeitos da perda na identidade e no caráter. É um relato biográfico —tão íntimo quanto universal —sobre o afeto, as origens, a família e as dores de crescimento, quando já passámos o arco da existência em que deixamos de fantasiar apenas com o futuro e precisamos de enfrentar o passado. É também, inevitavelmente, uma homenagem à figura da mãe, ineludível presença ou ausência nas nossas vidas. Sem saber o que iria encontrar na viagem, o autor percebeu, pelo menos, uma coisa: quem quer escrever sobre a morte acaba a escrever sobre a vida. «O luto em três atos, capítulo no meio deste texto que rasga os géneros, é das coisas mais dilacerantes e belas algum dia escritas para qualquer um que tenha perdido alguém. Da dureza da idade adulta às recordações mais distantes, atravessando os trinta e três anos desde a morte da sua mãe, Gonçalves constrói, sobre a sua história verdadeira, uma fábula acerca do sentido do amor e da perda, levando-nos a crer e querer o miúdo que, a meio da noite, se põe a rezar para fazer recuar o tempo.» — João Tordo

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    Tamires de Carvalho24/10/2021Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Mãe, de Hugo Gonçalves

    Ninguém me contou diretamente mas, naquela manhã, quando eu ouvi os gritos depois de o telefone tocar, soube que a minha mãe havia partido. Lembro que saí correndo descalça. Na época, cheguei a pensar que saí correndo para dar a notícia ao meu pai. Mas na verdade foi um disparo, uma reação automática. Eu queria sentir o meu coração apanhando. Queria parar a vertigem. Queria ficar sozinha. Parei na porta de casa e fiquei uns minutos ali, olhando o portão. Se eu pudesse, teria continuado a correr. Iria para qualquer lugar, desde que pudesse ser longe o suficiente daquela realidade. Eu sabia: minha vida jamais seria a mesma. Nunca mais. Acho que eu nunca tinha pensado com tantos detalhes no momento em que eu soube da morte da minha mãe até ler o relato do instante crucial vivido pelo escritor e jornalista Hugo Gonçalves em seu livro Mãe, da Companhia das Letras (2021). “Com a exceção do nome da mãe, todos os outros foram alterados. Mas este é um relato verdadeiro, ainda que, na tentativa de fazer sentido, a nossa memória seja tantas vezes imaginação.” Mãe é um romance autobiográfico profundo e belo. No início pensei que as páginas transbordariam “apenas” luto, mas empreendemos aqui uma viagem não só ao passado do autor, mas também a lugares e outros temas que atravessam a família dele. Hugo Gonçalves fez uma narrativa muito honesta, que cativa sem pedir piedade. Um fato curioso é que o livro já havia sido publicado pela Companhia das Letras com o título Filho da mãe (2019). E por pensar que as páginas transbordariam “apenas” luto, quase não leio este livro. É interessante essa coisa do luto, o incômodo que esse tema gera. Talvez seja assim porque geralmente a gente engole a perda ao invés de vivê-la. Porque a vida segue, e as pessoas têm pressa. Você precisa estar bem para não incomodar. Hoje você tira uma folga ou mata aula na escola. Amanhã a vida tem que continuar. E você, parar de chorar. No começo fui lendo e traçando paralelos com a minha vida, foi inevitável: a mãe dele chamava-se Rosa Maria. A minha, Lilia Rosa. A dele partiu em 13 de março de 1985. A minha, em 18 de junho de 2006. Ele era um menino cursando a escola primária. Eu, uma jovem de 16 anos. Ele de Portugal, eu, daqui do Brasil. Ele empreendeu essa viagem de volta ao passado algumas décadas após a morte da mãe. Eu, fazendo terapia 15 anos depois (…) “O que faz, afinal, um filho pela sua mãe? (…) Estar aqui é reconhecer o que não tem conserto. Os cemitérios só servem para nos recordar que os mortos estão mortos e a falta que nos fazem. (…) Quando penso na nossa ausência, nos milhares de dias em que ninguém esteve aqui, falando com a fotografia na campa, mudando as flores e limpando a pedra, percebo que esses são também os milhares de dias em que ela não esteve viva.” (p. 177, 178) Mas Mãe é uma leitura que você pode e deve fazer apesar do tema principal, isso se você acha que o luto é um assunto desconfortável. Todos nós, tenhamos vivido este tipo de perda ou não, temos algo herdado do nosso passado. Somos o que somos hoje porque antes alguma coisa aconteceu e nos direcionou para onde estamos. E ainda que este livro não cumpra esse papel de autorreflexão, ou do exercício de olhar com mais empatia para o outro (porque não precisa, e a escolha é sempre do leitor), você terá um romance de prosa limpa e envolvente, uma ótima leitura. Valerá cada palavra.

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    3.9 / 41
    • 5 estrelas24%
    • 4 estrelas34%
    • 3 estrelas39%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas2%
    Hugo Gonçalves profile picture

    Hugo Gonçalves

    Nasceu em Sintra, Portugal, em 1976, e é autor de vários romances, entre eles <i>Mãe</i> (publicado originalmente como <i>Filho da mãe</i>), finalista dos prêmios PEN Clube e Fernando Namora. Coautor e roteirista das séries <i>País Irmão</i> e <i>Até que a vida nos separe</i>, é jornalista premiado e foi correspondente de diversas publicações portuguesas em Nova York, Madri e no Rio de Janeiro, cidade onde trabalhou como editor.

    9 Livros
    1 Seguidor

    Hugo Gonçalves