Entre o ano mil e o início do século XIII, a história do casamento europeu atravessou uma crise decisiva, marcada pela luta que os dirigentes da Igreja então travaram para conseguir impor as suas concepções da instituição matrimonial. O seu projeto consistia em tornar obrigatório o celibato dos padres e, ao mesmo tempo, em encerrar os leigos no interior da célula conjugal, enquanto domínio simultaneamente consagrado e controlado pelo clero. A ordem que assim pretendiam instaurar não sucedia no entanto à simples desordem, mas a uma ordem diferente. Vinha por conseguinte contrariar velhos hábitos e obrigações morais há muito enraizados. E os homens não aceitaram facilmente que os impedissem de expulsar as mulheres, como costumavam fazer sempre que elas lhes não davam filhos ou, pura e simplesmente, sempre que se lhes deparava um melhor partido. O conflito foi por isso longo e espetacular. E, todavia, se o casamento passou desse modo a incluir-se entre os sete sacaramentos da Igreja, algumas soluções de compromisso vieram adoçar o choque entre as duas morais antagônicas, permitindo que se criasse um duplo sistema que acabou por perdurar até aos nossos dias e à nova crise da instituição matrimonial, a cujas peripécias temos assistido.
