Sophie é uma babá, com um passado nebuloso, que sofre de alguns lapsos inexplicáveis, e numa noite, quando está cuidando do filho de seus patrões, encontra a criança estrangulada com um cadarço. Acreditando ter feito aquilo durante uma privação de sentidos, até porque a porta estava trancada por dentro, ela foge e, procurada pela polícia, tenta refazer sua vida mudando de identidade. O início da leitura é muito confuso, com uma escrita formada por frases desconexas, como luzes espocando no seu rosto numa pista de dança, o que tornou difícil a conexão com a história. Mas logo se percebe que o autor quis transmitir com essa sua prosa, a desordem mental da própria personagem, cuja sanidade se encontrava por um fio. Tanto que, conforme a leitura avança e a jovem recomeça sua vida numa outra cidade, o texto se torna mais consistente. Devido ao assassinato do qual a protagonista é acusada, não há como sentir empatia alguma por ela, mas o que te prende é saber como ela fará pra se tornar outra pessoa e, o que é mais instigante, a que indignidades terá de se submeter para alcançar seu intento. E quando isso está prestes a acontecer, a história tem uma reviravolta que muda toda a perspectiva. Até cheguei a desconfiar de que havia algo bem mais sinistro por trás dessa história de louca varrida, quem está acostumado com esses tipo de suspense já sabe que nem tudo é o que parece, mas a maneira como tudo é revelado aos poucos, te deixando intrigado pra saber como cada acontecimento foi arquitetado é uma delícia de se ler. Conforme cada cortina é arrancada, mais horrorizado você fica com o que a maldade humana é capaz. O livro nos mostra o quanto estamos vulneráveis, que nossa vida pode ser totalmente manipulada por alguém que sequer conhecemos e que não há lugar que nos deixe totalmente seguros. Mas as surpresas não param por aí. Quando compreendemos tudo, o autor nos revela uma surpresa que é de uma ironia perversa e aí fica a pergunta: onde é que tudo aquilo vai dar? Porque a partir daí não há como prever o rumo dos acontecimentos. A curiosidade, a indignação e o desespero vão se acumulando nessas últimas páginas até o desfecho catártico e com mais uma revelação surpreendente, daquelas que dão uma sensação de desforra que é maravilhosa.