Hilário Franco Júnior, historiador brasileiro contemporâneo, trata neste livro sobre um assunto bastante instigante: Utopia. O pensamento utópico para ele “é negação de um presente medíocre e sufocante, é espaço sem limites, sustentado pelo desejo, é sonho apaziguador de regresso à perfeição das origens, é reencontro do homem consigo mesmo” (p. 7). Neste ensaio é possível encontrar uma discussão aprofundada a respeito das principais utopias oriundas do Medievo.
A primeira é a utopia da Abundância, conhecida como a Cocanha. Aqui fala-se sobre o momento histórico em que a sociedade medieval, por ser totalmente dependente do sistema agrário, sofria com as secas, a baixa produtividade, o que acarretava a fome em massa. Diante dessa situação difícil, procuravam soluções imaginárias, uma das maneiras de esquecer a fome era a realização de festas, pois “o viver paradisíaco eliminava a relação terrena do trabalhar-comer.” (p. 27). As Cruzadas também proporcionavam esse sonho da abundância, “a Terra Santa, além de necessidades espirituais, poderia satisfazer também as materiais” (p. 32)
A utopia da Justiça ou o Milênio é a segunda discutida neste texto. Desde a Idade Média a sede por justiça se revela na mentalidade humana. Acreditava-se que existia o tempo cíclico que remetia a ideia do Eterno Retorno, ou seja, a observação da natureza que sempre se renovava. Já a concepção do tempo linear, é a ideia de que tudo tem seu começo e seu fim, tendo fundamento na tradição hebraica com o Messianismo, depois essa ideologia passou para o Cristianismo e foi bem explorada pela Igreja Católica que propagou a ideologia do Fim dos Tempos. Por meio desse pensamento surgiu a utopia de que haveria um Milênio no qual a justiça, a paz e a fartura se manifestariam de forma constante, dito em outras palavras era a “recuperação do Paraíso Terrestre, antecipação do Reino Celeste.” (p. 77-78)
A terceira utopia é a do Sexo ou a Androginia, primeiramente, há uma reflexão acerca da visão da Igreja Católica concernente a relação sexual entre a mulher e o homem. Temos acesso à informação, através deste ensaio, de que a Igreja sacralizou o sacramento para que o mito do andrógino perdesse o foco. Porque o feminino estaria assim igualado e unido
completamente ao masculino, e essa não era a visão que a Igreja queria passar, pois além de ver a mulher como submissa ao homem, também profanava o ato sexual, “a igreja medieval não aceita o sexo pelo sexo, o sexo prazeroso, mas apenas aquele com finalidade procriativa.” (p. 89).
E, por fim, a “utopia-matriz: o Paraíso” é a principal dentre as demais, porque está intensamente relacionada ao retorno a condição perfeita perdida, “em função de seu poder de atração, a busca do Paraíso foi empreendida imaginária ou concretamente por inúmeros homens na Idade Média, santos, poetas, mercadores e aventureiros.” (p. 116). Nesta utopia, o protótipo paradisíaco remetia a um lugar onde havia uma natureza pródiga, saúde, harmonia, imortalidade, nudez, inocência e fartura, ou seja, é uma utopia completa, e, sendo assim, a mais desejada.