35 poetas da atualidade comentam as idiossincrasias da classe média brasileira enquanto tipo psicológico, comumente definido pelo prisma financeiro.
Mediocridade - Antologia Poética
Rosana Piccolo, Rubens Jardim - Organizadores
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Ver maisA mediocridade na berlinda
A Editora Laranja Original lança no próximo sábado, dia 03 de agosto, a antologia poética “Mediocridade”. Como se sabe, este gênero de publicação se conforma na reunião de textos de diversos autores que exploram uma mesma temática. O tema comum é a mediocridade humana. Vejamos o significado da palavra: O adjetivo medíocre significa não ter qualidades ou habilidades suficientes para se destacar naquilo que se propõe a fazer, seja na vida pessoal ou profissional. Uma pessoa medíocre é vulgar, tem poucas qualidades, é pobre do ponto de vista intelectual. Já Mediocridade, é substantivo feminino que nomeia o estado ou a qualidade do que é medíocre, que revela ausência de mérito, indivíduo sem talento. Muito bem; por mais que alguns queiram encobrir o sol com a peneira, não é mais possível ocultar o óbvio. Sim; está tudo muito mal, convivemos com as tais crise e mais crises que não acabam nunca, contradições de toda sorte, as fraturas sociais e etc. e tal. Mas o que grita evidente em nossas carinhas, o que caracteriza o mundo contemporâneo é a avassaladora MEDIOCRIDADE. Embora certas cabecinhas só consigam pensar na estreiteza mental de nossa política tupiniquim, tentemos refletir em sentido mais amplo, porque positivamente o “buraco é muito mais embaixo”. As crises, aspectos da questão, não o cerne. Muito bem, voltemos ao início que nos interessa aqui. Os méritos de uma antologia como esta são muitos, a começar pela variedade de estilos, enfoques temáticos, discursos e modelagens estéticas. Cada autor traz o seu contributo no sentido de alargar o foco desse padrão mental que nos assombra. E não se pense que há na obra o lugar-comum de uma previsibilidade na expectativa dos leitores. O que se pode constatar é um leque variado de 35 qualidades expressivas dentro do cerrado universo da densidade que caracteriza a mediocridade. Caímos no conto da “felicidade postiça” – como dizem os organizadores da antologia -, e vamos todos, ou quase todos, muito alegrinhos na busca cega de desejos insaciáveis, consumo e ostentação. Muitos ficam até satisfeitos com as redes sociais e a tagarelice total que elas propiciam. Ao contrário do que pensou um certo Kant no século 18, que sonhava com uma sociedade de homens cada vez mais maduros (a maioridade kantiana é igual à capacidade de tomar decisões por si só, ou seja, autonomia), o que conhecemos hoje como politicamente correto – e observe-se como vamos pulando de uma palavra para outra - , adora dizer que a democracia é feita de cidadãos conscientes e que todos são capazes de tomar decisões autônomas, numa espécie de kantismo barato. Vamos ainda de “democracia”. E de braço dado com a “imundície capetalista” que hoje faz a propaganda da autonomia do indivíduo como lastro dela mesma. Acabamos aceitando o hábito de, descaradamente, mentirmos sobre o fracasso da autonomia em escala “política”. O fato inconteste é que ao contrário do que se propala (no Brasil então dá gosto de ver), é que a democracia não opera pela autonomia, mas sim pela massificação crescente das opiniões, como já dissera Tocqueville num passado remotíssimo! O “homem-massa” que ameaça tomar conta do planeta em todas as instâncias segue, comprando modelos de personalidade que a mídia vende, e seguindo líderes autoritários ou populistas que afirmam a feliz autonomia para todos. Não é o que de fato acontece porque o indivíduo cedo descobre o logro do discurso, a falta de perspectiva e a realidade violenta que o cerca. A resultante tem sido a atitude primitiva. Voltamos a ser primitivos em pleno século XXI. Primitivos demais para entender a maldição que é ser indivíduo e a dor que é ser livre sem pertença a bandos. Vamos nos valendo da regra da estupidez bem adaptada. Afogados em narcisismos, viciados em ridículos fantasmas de sucesso. Fechados, cada qual em seu próprio umbigo, desprezando todos os outros que afinal são “os outros”. Um exemplo disto, retirado da antologia, é o texto “Vida murada” de Dalila Teles Veras. “Os muros estão subindo, / Sombrios, / Na medida exata do / Crescimento da violência. / As casas desaparecem, as pessoas se escondem / Atrás dos muros. / A cidade está com medo / Atrás dos muros. / E os muros crescem, / Sinistros. / O medo está crescendo / Atrás dos muros. / Medo do assalto / Medo do estupro / Medo dos atos de terror / De direita, de esquerda, de centro, / Medo de ter medo / Medo de... Viver! / E os muros crescem, / Cinzentos.” Observe-se a percepção da passagem do tempo, e como a “mediocridade” foi evoluindo de pouco tempo a esta parte, no texto “Já não se faz horror como antigamente” de Donny Correia. “Pobre menina / não tem ninguém. (Leno e Lilian)” Os pobres bebês em 2010 / não sangram seus pulsos / sorvendo Nirvana O porre rebelde dos anos 90 / ora é banal e vazio de volúpia Soubessem o vácuo que habitam, / ó, jovens, pereçam no limbo / abstrato do sonho / vazio Havia meu self /o falso / sabido que nada sobra / e nada faria valer / mais que minhas / jovens rugas que viram / nascer os zumbis da era celular / hoje, a disputa por quem atrapalha mais/ O ponto de fuga: cada brecha / em meio aos lixos juvenis / vagando na plataforma / sem ver pra onde / mov(rr)em / o fim se faz lado Todo ignóbil carrega latente / a palavra de ordem no protesto / urbano / jovem nihil / Bando de otários ingênuos / descolados /até de si / Revoltos convictos / Máquinas mundanas / Bestas iludidas Nada será que não houver / em pré-ensaio na prensa / do magno mundo / maior Cresçam e chorem / E então terão / o maturo êxito / da desgraça que / somente os que aqui / cantarolam o fim / Gozam in extremis / o doce exílio / do próprio si Quão bom é o zigoto / da sapiência de aqui... / Aqui onde sapiens / nada por ora nem nunca / nem tão Por ora engulam / Spermbytes do sucesso / abstrato / enquanto o entorno sonhado / derrama da jarra natimorta / perecida no plano / em que nada nunca foi / e se algo for / já há repente em contra Um tempo incognitivo / jaz em retrovoragem / de incauta culturva / O que seja deposta / do que, nato em seu sangue, / jorra a fuligem do nulo / num mundo regido por nada / que menos os teus Nenhum presidente / ungiu, por mais empreendedor, / capital de tal pobreza / e esgoto em vida /Vós estais mortos, / fetos inconcebíveis/ Vossos valores: / trocar seis / por meia musa, / um like / dois likes / três likes I hate / we too / our / falso / selves” No Brasil então, estamos associando a pobreza da maioria da população com uma mediocridade bem comportadinha. Sem darmo-nos conta de que vamos exaltando essa cultura. Ela esta sobejando em toda parte. Politicamente as discussões entre esquerda e direita vão perdendo o sentido porque tanto uns quanto outros, dizem a mesma coisa, com os sinalzinhos devidamente invertidos, quando não descambam para o mero artifício da pura e simples difamação. Uma fábrica de cínicos é o que vai se transformando uma tal política. Aqui, inveja-se a inteligência e o talento. Com dolo silencioso, procura-se colocar todos numa redoma de vulgaridades para, assim, sermos iguais na infelicidade coletiva. Aqueles que ousam romper com os grilhões do sistema viram inimigos públicos e passam a ser socialmente detestados, pois não existe nada mais ofensivo à vaidade humana do que o vigor da diferenciação virtuosa. Para manter as rédeas de dominação, foi preciso que uma macroestrutura se impusesse sobre a individualidade criativa, e o Estado terminou transformado em campo privilegiado dos poderosos. A natureza estatal entre nós tem sido fonte de perpetuação de poder e, não, uma força de transformação social pela expansão da liberdade humana em suas múltiplas potencialidades de realização. A pobreza, a miséria, a corrupção generalizada tomam corpo, ao passo que vamos empurrando com a barriga a realidade, varrendo toda essa vergonha para debaixo do tapete, virando a cara para o outro lado, porque “farinha pouca meu pirão primeiro”. Creio que dito assim, todo mundo entende direitinho. Entende sim. Dessa forma, não foi, e não é por acaso que o Estado faliu em sua tarefa de bem educar as pessoas. A liberdade, antes de um direito, é uma consciência de ser livre. E tal nível de consciência só é expandido com o desenvolvimento de uma formação cultural. Para vivermos a plenitude da existência, é preciso ver, compreender e atuar no mundo. Logo, o rebaixamento cultural vigente é uma deliberada medida de limitação da capacidade humana e nem nos damos conta. Repetimos; nem nos damos conta porque estamos ocupadíssimos em alimentar cada vez mais desconfianças e diferenças. Belo exemplo nos vem do texto de Fabiano Fernandes Garcez. “As contas da gente” “Primeiro a gente exclui os outros / de nossas vidas, nossas conquistas / Com medo de invasões A gente cria muros / Aí os muros não dão mais conta / Com medo de invasões A gente cria grades / Aí os muros e as grades não dão mais conta / Com medo de invasões A gente cria cancelas, guaritas e sistemas de segurança / Aí os muros, as grades, as cancelas, as guaritas, os sistemas não dão / mais conta / Com medo de invasões A gente cria vidros e carros blindados / Aí os muros, as grades, as cancelas, as guaritas, os sistemas, os vidros, / os carros não dão mais conta / Com medo de invasões A gente cria muros, grades, cancelas, guaritas, sistemas, vidros / para nos blindar / Aí a gente não se dá mais conta” Vale a pena citar outro texto. “Arquipélago no cyber café” de Astrid Cabral, este válido para o mundinho globalizado. Todo ele. “O bailado de dedos em teclados / trinca de leve o silêncio da sala. / No mais, nem vozes ou sussurros sequer. / Faces avulsas miram embevecidas / as coloridas janelas quadradas. /Cada qual em segundos logo zarpa / em invisível solitário barco / atravessando países do mundo. / Ágeis mensagens viajam paisagens. / Palavras e imagens cruzam desertos / urbes montanhas vales bosques mares. / Em assentos vizinhos, cada qual / de sua ilha lança etéreas pontes / a distantes paragens e criaturas. / Mas ninguém percebe as que estão / ali ao alcance das mãos.” A opressão, todavia – e seja ela qual for, e venha de onde vier – não há de durar para sempre. A insuportável mediocridade generalizada é prenúncio daquilo que a história nos ensina. Nas imprevistas curvas do destino, ocorrem sempre inesperadas forças independentes que não toleram o abuso arbitrário dos que almejam calar a razão pensante. Esta antologia é claro sinal disto. É justamente a marcha do progresso civilizatório, entre seus fluxos e refluxos momentâneos, que nos traz a certeza de que o sistema de poder atual já meteu o pezinho no precipício sem volta. Mas é preciso acreditar em uma outra verdade que não valorizamos, mas que poderia tornar aquelas inesperadas curvas do destino, muito mais fáceis de trilhar. Dá-nos conta disto um texto como o de Rubens Jardim. E cada um tire as suas conclusões. “A vida não é isso” “A vida não é um quadro negro que se apaga / na sala de aula / A vida não é apenas essa pulsação rítmica /reencontrada no corpo / A vida é mais que a estrela cadente que / encharcou meus olhos / A vida é mais que o prazer episódico / A vida é mais que o prazer / A vida é mais / Se todos nós estivéssemos de mãos dadas.” Mensagens em garrafas a boiar no mar da mediocridade humana são esses textos escritos por 35 autores (20 homens e 15 mulheres). São eles: Airton Baptista, Astrid Cabral, Beth Brait Alvim, Carlos Felipe Moisés, Celso de Alencar, Cesar Carvalho, Claudinei Vieira, Claudio Daniel, Claudio Laureatti, Dalila Teles Veras, Davi Kinski, Edson Cruz, Edson Valente, Eulália M. Radtke, Fabiano Fernandes Garcez, Germana Zanettini, Giselle Ribeiro, Greta Benitez, Jandira Zanchi, Lau Siqueira, Leandro Rodrigues, Luis Augusto Cassas, Luiz Roberto Guedes, Luiza Oliveira, Márcia Denser, Mariana Teixeira, Raquel Naveira, Rogério Salgado, Rosana Banharoli, Rosana Piccolo, Rubens Jardim, Rubens Zárate, Silvana Guimarães e Vlado Lima. EM TEMPO: O lançamento será no próximo dia 3 de agosto (sábado), a partir das 19h, na Patuscada Livraria Bar e Café (Rua Luís Murat, 40 - Pinheiros, São Paulo - SP). Livro: “Mediocridade” – Antologia poética organizada por Rosana Piccolo e Rubens Jardim– Editora Laranja Original – São Paulo - SP, 2019, 166 p. ISBN 978-85-92875-49-7 //// Link para compra e pronto envio: https://www.laranjaoriginal.com.br/product-page/mediocridade-antologia-po%C3%A9tica
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