A Denúncia -

    Bandi

    Alfaguara
    2016
    144 páginas
    4h 48m
    ISBN-13: 9789896655976
    Português

    A grande fome da Coreia do Norte, na década de 1990, acordou em Bandi, escritor oficial do regime norte-coreano, um crítico feroz e um resistente inabalável. A publicação deste livro - que terá saído da Coreio do Norte disfarçado de propaganda comunista - é prova do triunfo da humanidade e da resiliência da literatura num mundo dominado pelo absurdo. Nestes sete contos, Bando denunciona e responsabiliza o regime norte-americano mas, mais ainda, retrata as vidas dos cidadãos que dele são vítimas: o dia-a-dia dilacerado pela fome, pelo medo, pela repressão. Neles lemos o sofrimento quotidiano e atroz de todo um povo e tememos por um futuro que nunca o será enquanto os destinos do país estiverem nas mãos de um líder delirante, megalómano e cobarde, de proporções kafkianas. "A Denúncia" não deve ser lida apenas pela seu inegável valor literário, mas sobretudo pelo realismo e humanidade com que retrata um povo a quem, geração após geração, é sonegado o mais importante dos direitos: uma voz.

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    Henrique Luiz Fendrich04/10/2020Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Eu achava que, além de alguns poucos contos escritos antes da divisão das Coreias, provavelmente eu nunca leria ficção de qualidade feita na Coreia do Norte. Então aparece esse misterioso Bandi, contista norte-coreano que continua vivendo na Coreia do Norte, ou seja, não é um desertor do país, mas alguém que fez com que os seus manuscritos atravessassem a fronteira e ganhassem o mundo. Como seria de se esperar de uma literatura que precisa ser escondida do regime, a de Bandi é essencialmente crítica ao sistema vigente, sem os louvaminhas que, provavelmente, constituem a literatura oficial do país. O autor foca, principalmente, nos dramas familiares, destacando como vidas e sonhos se desmancham ou são mesmo aniquilados pela força e opressão de um governo que não tolera o menor deslize (muitas vezes, o deslize não precisa sequer ser seu, mas o de um parente: isso já é suficiente para manchar o seu próprio histórico e destruir todos os seus projetos de vida). O conto “No palco”, um dos que mais me agradou, é o que apresenta uma poderosa metáfora para explicar o comportamento da sociedade norte-coreana sob o jugo de seus ditadores: todos lá são atores. Desde criança, todo norte-coreano aprende a representar. É vital que assim seja, pois disso depende a própria sobrevivência. Em algum lugar, ainda que escondido o bastante, depois de décadas de assimilação da propaganda do governo, o norte-coreano sabe que algo não está certo no jeito que as coisas são. Muitas vezes, porém, trazer essas coisas à consciência, em um ambiente tão opressor como aquele, pode levar a trágicos desfechos, como o apresentado no conto, pois o próprio indivíduo já introjetou a propaganda e não consegue lidar com as suas próprias contradições. Em outro conto marcante, “Pandemônio”, o próprio ditador norte-coreano faz uma aparição que, a olhos mais inocentes, poderia demonstrar a sua humildade e generosidade, mas sabemos – e o autor mostra isso muito bem – que também ele é um ator e está interessado em provocar um efeito específico e muito bem programado, o qual, uma vez conseguido, será explorado a exaustão pela propaganda do governo. Há um conto sobre o estigma que as crianças herdam pela “subversão” de seus familiares (“Relato de uma deserção”, poderosa narrativa em primeira pessoa), outro em que o próprio bem-estar de um bebê é oposto às exigências do Partido, e nada vale apelar à razão (“Cidade de espectros”), um ainda em que um olmo representa a inútil esperança pelos dias de prosperidade que não virão (“A vida de um Corcel veloz”), outro em que um filho não consegue autorização para viajar e ver a mãe à beira da morte (“Tão perto, tão longe”) e mais um em que nem a inquestionável dedicação de um homem é suficiente quando o Partido precisa arrumar um bode expiatório (“O cogumelo vermelho”). Em meio a todos esses contos, é apresentada toda uma realidade de opressão e constante vigília, com restrições tão severas à liberdade que nós chegamos a nos admirar por viver no mesmo mundo em que tais coisas ainda acontecessem. Agora falando em termos especificamente literários, Bandi gosta de dar vários saltos narrativos, indo e vindo na trama e abrindo novas abas na história. Embora isso possa ter rendido alguns bons resultados, eu confesso que gostaria de ter lido pelo menos alguns contos escritos de maneira tradicional, ou seja, em uma narrativa linear, porque tenho a impressão de que algumas histórias ganhariam força assim. Já em relação ao desafio de fazer uma literatura que é abertamente “intencional”, com os mesmos riscos de uma que é panfletária, parece-me que Bandi se saiu bem, conseguindo aliar habilmente a sua motivação para escrever com os recursos que o seu talento literário lhe sugeria. Além do mais, convenhamos, seria difícil achar motivo mais válido para uma literatura intencional do que o que se vive na Coreia do Norte. Vale, portanto, a leitura, e vale estar com a “questão da Coreia do Norte” sempre em mente, porque o que se vive lá é, também, problema nosso, pois é a humanidade como um todo que sofre naquele regime.

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