Sendo o atual estágio do capitalismo, o neoliberalismo e sua doutrina tem sido naturalmente muito estudados na academia e nos meios militantes, e por conta disso, confesso que trafegar pelo aparato crítico pode ser bem confuso. Com exceção de um curso que fiz com o Prof. Ernani Chaves no começo de 2020 (no qual ele recomendou Foucault, Bourdieu e a marxista Wendy Brown), a literatura sobre o assunto ainda é muito espaçada e vaga para mim, mesmo quando decido me voltar para os livros que seriam mais fundamentais sobre o assunto, como o do David Harvey (o qual eu não tenho e ainda não li). Sendo tantas visões sobre o mesmo assunto, porque não juntar as mais assemelhadas em um livro só? Pode ser o que passou pela cabeça dos sociólogos Emir Sader e Pablo Gentili, que organizaram um evento na UERJ em setembro de 1994, intitulado "Pós-Neoliberalismo", e transformado em livro meses mais tarde, em março de 1995. Neste evento, participaram alguns dos principais acadêmicos que já trataram do assunto, como Perry Anderson, Göran Theborn, o próprio Emir Sader, dentre vários outros.
Ainda que o título contenha um "pós", o livro na realidade é muito mais exatamente aquilo que eu buscava, e não sabia: uma tentativa de enquadrar o neoliberalismo em um paradigma histórico comum, que foi o confronto contra o chamado Estado de Bem-Estar Social. Segundo nos contam os autores (mas com palavras e opiniões diferentes), a doutrina neoliberal é gestada logo após o fim da 2ª Guerra Mundial na chamada Sociedade de Mont Pélerin, que reuniu vários teóricos conservadores que defendiam a diminuição da intervenção estatal, combate aos sindicatos, taxação regressiva e combate ao déficit fiscal. Esta sociedade, que gestou Milton Friedman e Friedrich Von Hayek como seus nomes mais importantes (embora O Mais Importante varia pra cada autor), ficou na obscuridade por boa parte do século XX até emergir no começo dos anos 70, com as experiências neoliberais dos anos 70 no Chile e na Bolívia - na época sob ditaduras férreas - e depois, na década de 80, no chamado Primeiro Mundo. Os autores são unânimes ao afirmar que o neoliberalismo produziu a desindustrialização, o aumento do desemprego, a financeirização da economia (isto é, as Bolsas de Valores passaram a ditar as regras) e a desagregação dos sindicatos, mas, curiosamente, não diminuiu as dívidas nacionais (especialmente nos EUA, onde ela aumentou) e nem a participação do Estado no PIB. Os autores concluem, portanto, que o neoliberalismo nada mais é que o estágio do capitalismo onde este se encontra sob ofensiva contra a classe trabalhadora, a qual fora intensificada depois do fim do bloco socialista em 1989/91.
Por se tratarem de palestras transcritas (e só depois revisadas), a linguagem é mais acessível que o habitual, com exceção dos capítulos do Atílio Borón, que é o mais longo de todos e que pesa muito na economia. As réplicas de teóricos como José Paulo Netto e Luís Fernandes (e alguns outros, que só aparecem como "pontas" ou "cameos") também agregam demais ao debate, especialmente para a realidade brasileira - e, lamentavelmente, muitas das previsões feitas quanto à aplicação neoliberal no Brasil se confirmaram. Entretanto, por se tratar de um livro dos anos 90, os nossos camaradas sofrem bastante do Mal do Fim da História - por mais que rejeitem a tese de Fukuyama da boca pra fora, a defesa do chamado Socialismo Real é praticamente impensável para quase todos os presentes, e isso interfere no 2º problema do livro, que é a inviabilidade de se pensar numa solução. Ainda que todos os presentes repudiem o neoliberalismo, o chamado "pós-neoliberalismo" é uma incógnita completa, já que, para vários ali, não é o socialismo da URSS & cia ltda, mas também não é uma social-democracia, mas sim... o MOVIMENTO socialista atualizado para os novos tempos! Sério, é até confuso entender - é um estado político ou é uma ordem social do que a gente tá falando? E sem contar que ninguém tem a mínima ideia de como organizar a resistência ao ideário neoliberal fora do campo das ideias, mas confesso que com isso eu nem me estressei, porque não dá pra esperar muito do marxismo acadêmico...
Por esses problemas, não dei nota máxima pro livro. Mas mesmo com os tropeços típicos do marxismo universitário, e mesmo se passando 30 anos de seu lançamento, Pós-Neoliberalismo ainda é um livro muito atual e que pode ser posto em qualquer bibliografia como uma reunião do que há de mais contundente, completo e contemporâneo sobre o assunto (aquilo que nós chamamos de "Estado da Arte"). Lamentavelmente.
*Edição brasileira é da Paz & Terra. O livro atualmente está esgotado e só se encontra em sebos