Este é um livro sobre Delfim Santos: filósofo e educador português que viveu no século passado. Ele foi um homem para quem a relação com a situação vivida é que prepara a razão para viver! Um investigador ocupado com a crise do conhecimento e os limites da ciência. Um verdadeiro estudioso da realidade, alguém que, comprometido com seu tempo, soube perceber os desafios que se formavam para quem vivia aqueles dias. Este é também um livro sobre as dificuldades que atualmente vivemos, problemas que começaram antes e existem até hoje, tais como a crise da ciência e da cultura, a relação com a tecnologia, as dificuldades de uma sociedade de massa que se descuidou da excelência e da singularidade pessoal. O livro ajuda a entender os problemas que existem em torno da Psicologia e da Pedagogia fenomenológicas. Essa é uma obra profunda e bem conceituada!
Delfim Santos e o desenvolvimento humano - Educação & Psicologia
José Maurício de Carvalho
Uma história de educador humanista
Por José Maurício de Carvalho No século XXI o mundo não está dividido em dois sistemas econômicos como o passado, pois o século XX assistiu o fim do socialismo real. Tal circunstância deu origem a um novo conservadorismo político e econômico e a uma nova extrema direita. Esses movimentos, embora ordinariamente confundidos, são fenômenos distintos. Tornou-se usual falar de uma nova extrema direita porque ela não tem os mesmos elementos do nazifascismo, nem é totalitária como o comunismo do século passado e também porque seu foco, o ódio ao estrangeiro, tem motivações distintas das encontradas no século passado. Não se teme a agressão ao próprio Estado, nem se tem ressentimento por guerras passadas, mas o que se receia é perder o gozo consumista. Como se procurou indicar no capítulo anterior o desejo do homem-massa, independente da classe econômica a que pertença, deslocou-se do campo dos afetos para a aquisição de bens materiais. Um subproduto do atual ambiente de liberdade econômica, com poucas travas políticas, pragmatismo econômico, hedonismo ansioso e enfraquecimento do Estado de Direito é a recusa do reencontro com a tradição humanista, desenvolvida no ocidente desde a renascença e que é a marca do que se chama cultura ocidental. É um fato contemporâneo bizarro que qualquer proposta humanista seja identificada com socialismo e esse com marxismo derrotado histórica e filosoficamente. Igualmente tem sido comum referir-se às manifestações de cultura como inadequados. É esse ambiente cultural que ganharia com um diálogo com Delfim Santos. O que se mostrou também, no capítulo anterior, é que uma nova direita emergiu nesse tempo conservador. Explicitou-se que essa nova direita é diferente da do século passado e não é homogênea nos países do mundo. Muitas vezes grupos conservadores migram para essa direita, mas nem todos conservadores o fazem. Muitos liberais históricos querem a redução das interferências do Estado na economia, mas não assumem posições dessa extrema direita como: o preconceito racial ou contra o pobre, xenofobia, solução militar para o problema político, homofobia, etc. O ambiente volátil do capitalismo financeiro e sua grande força na atualidade, onde as pessoas são estimuladas, ainda mais que no século passado, a buscar o lucro rápido, acabou favorecendo a busca ansiosa do gozo imediato e frequentemente irresponsável, importando pouco com as consequências das escolhas, com os sentimentos dos outros ou com qualquer dano que lhe seja imposto, bem como ao mundo natural. Esse modelo de relacionamento veio do mundo dos negócios para as relações pessoais que se tornaram efêmeras, então na vida, como nos negócios e universo tecnológico, tudo passa velozmente. Esse ambiente acentuou o egoísmo e a pouca consciência de si, já presentes no homem do século passado. Tudo isso deu origem a um novo homem-massa, com as características apontadas por Ortega y Gasset, mas também com outras que se pode descrever. É a um novo aspecto desse homem-massa que se referiu o sociólogo Zygmunt Bauman quando criou o conceito modernidade líquida, porque pouca coisa no atual mundo econômico é feita para durar e a tecnologia se renova com velocidade assustadora, também as relações pessoais se tornaram rápidas e, por consequência, superficiais. As pessoas, ainda que desejosas do contrário, têm medo de se envolver, têm pavor do sofrimento e não sabem lidar com frustrações. Em contrapartida querem o maior prazer das coisas e pessoas. Na extensão dessas relações rápidas se mencionou um novo fenômeno contemporâneo, o relacionamento pessoal mediado pelas redes sociais e sites de relacionamentos. Um número crescente de pessoas esconde-se atrás dessas mídias vivendo na internet relações que não vive na vida real. Essas pessoas se escondem atrás dos aparelhos para não se mostrarem como são. Assim, ao vivo parecem diferentes do que se apresentam, fisicamente, intelectualmente, afetivamente, etc. E, sem conseguirem estabelecer relações estáveis e confiáveis sobre as fantasias criadas, tais indivíduos se tornam existencialmente vazios e afetivamente carentes. Para compensar ambos os fenômenos expõem aspectos íntimos da vida particular, pois consideram a mídia digital o lugar para conquistar amigos e amores que, de fato, não têm. A superficialidade das relações pessoais e da maneira de levar a vida é uma característica desse novo homem-massa, de quem já no século passado Ortega y Gasset dizia ser descomprometido com a excelência, intelectualmente limitado pela especialização excessiva, infantilmente formado na expectativa de que o mundo encontra-se pronto como objeto de gozo. Neste nosso século ele espera continuar gozando com os bens materiais e vai ficando cada dia mais distante de uma vida singular que melhor o satisfaria, quer porque os bens materiais não compensam o vazio afetivo, quer porque o distanciamento da tradição humanista o deixa superficial e incapaz de apreciar o belo, o bom e lidar com as dificuldades e riscos da vida. Nesse sentido uma educação que estimula o esforço, a excelência e o compromisso ético parece serem os antídotos para a crise. Em países como o Brasil, onde a cidadania não se democratizou e o Estado presta serviço deficiente, as pessoas cobram respeito humano quando mal atendidas, mas se descuidam de suas obrigações. Cobram comportamento ético dos outros, mas não si mesmas. Esse descuido com a moralidade é uma variação desse novo homem-massa descomprometido da excelência e mergulhado no consumismo hedonista, por isso uma educação como forte sentido ético, como sugeriu Delfim, parece tão importante. É para esse tempo que os valores nucleares da cultura ocidental, empurrados para o limbo nas últimas décadas, parecem importantes. E eles são relevantes porque o consumismo hedonista e relações superficiais não asseguram vida satisfatória e feliz, nem preparam o homem para as frustrações existenciais e limites da existência. É para construir ou recompor esse diálogo com o humanismo que as teses de Delfim Santos, comentadas nesse livro, são importantes. Não é desejável perder de vista a tradição cultural em que se formou o ocidente porque isso enfraquece seus membros. Não é razoável desconhecer a dignidade da pessoa humana, perder a dimensão das exigências absolutas do imperativo ético de Kant, pois isso leva a equívocos históricos. A experiência stalinista e nazifascista foram momentos tristes da história recente do homem, mesmo que esses sistemas tivessem o propósito propagado de melhorar a vida das sociedades e superar os conflitos sociais. Não é suficiente uma ordem que se apresente formalmente sustentada em valores humanos, mas não valorize experiências éticas. Por isso, as experiências históricas do totalitarismo político não podem ser retomadas. Acompanhamos, nesses capítulos, as reflexões de um educador e fenomenólogo português. Alguém tocado pelos problemas da escola existencial: compreender a vida humana em situação, olhar a existência como resultado de contínuas escolhas, ou melhor, como exercício de uma liberdade responsável e comprometida com a autenticidade ou verdade pessoal. Alguém que faz o mundo ao mesmo tempo que e é feito por ele. E se procurou mostrar que Delfim Santos é um filósofo existencialista mas, na raiz, é um humanista, um intelectual preocupado com o futuro do homem e comprometido com a excelência pessoal. Os capítulos do livro identificaram o vínculo de Delfim Santos com a escola existencial, especialmente de Karl Jaspers e de pensadores próximos dela como Ortega y Gasset. Examinou-se como ele espera ajudar o homem a se desenvolver como sujeito singular e membro de uma comunidade. Isso significa alguém comprometido com sua comunidade sem descuidar da fidelidade ao que se é. Comentou-se sua preocupação humanista de dois modos, pelo reconhecimento do mínimo axiológico, pelos esforços educacionais, aprimoramento psicológico e desenvolvimento cultural. A Psicologia fenomenológica, acompanhando as análises filosóficas da existência, insistirá na responsabilidade de cada homem com as escolhas que faz, insistirá no respeito a sua singularidade existencial. Foi o que mostrou Delfim Santos, como a psicologia existencial realiza o propósito de vida autêntica proposta pelos filósofos. Para clarear o projeto humanista do intelectual português foi necessário comentar os aspectos centrais de sua Filosofia. Tomou-se como objeto a trilogia filosófica: a defesa e sentido da reflexão filosófica, tema do livro Da Filosofia, foi estudada no capítulo inicial; as críticas ao positivismo e sua visão de ciência, assunto de Situação valorativa do positivismo, foram comentadas no segundo capítulo e as considerações sobre a realidade, estudada em Conhecimento e realidade, foram abordadas no capítulo terceiro. Nessas três obras fundamentais se enxerga um diálogo com as filosofias de Nicolai Hartmann, Martin Heidegger e Karl Jaspers, que foram os mais notáveis filósofos da primeira metade do século passado. Nos trabalhos de Delfim Santos se percebe que reflexões de caráter metafísico sobre a realidade, tema fundamental dos filósofos daqueles dias, também importava aos psicólogos e educadores. Importava por uma razão especial, porque a construção do sentido não é uma questão apenas filosófica. O que modo como se pensa a realidade depende da estrutura da personalidade e da forma como a pessoa se relaciona com o mundo. O que é a realidade importa no planejamento acadêmico, pois quando se prepara alguém para viver isso tem em vista os problemas da vida em seu tempo. Por isso, a reflexão filosófica é imprescindível nesses dois campos de estudo, para a compreensão da psicologia humana e para o entendimento do processo ensino-aprendizagem. Procuramos mostrar que está na trilogia filosófica comentada nos capítulos iniciais do livro as bases para os estudos de Delfim Santos sobre Educação e Psicologia. Depois aprofundou-se o diálogo do filósofo português com Ortega y Gasset e Karl Jaspers nos capítulos quatro e cinco. No capítulo seis, avalia-se os ensaios sobre moralidade, porque a axiologia é fundamental na formação humana. Não se pode viver sem referências axiológicas porque valores são potentes bússolas existenciais. No caso de Delfim Santos a questão do sentido, que é fundamental na filosofia e psicologia fenomenológica, guarda relação com os valores. A vida humana precisa de direção e essa vem das escolhas feitas com base nos valores consolidados na tradição. Assim, para buscar um sentido para viver, além de identificar esse sentido é preciso superar tensões psicológicas e tentações morais. E nosso mundo anda perdido por desconsiderar o esforço intelectual e ético. Isso confere atualidade ao que nos deixaram pensadores como Delfim Santos e outros mencionados nesse livro que pensaram o significado de uma vida autêntica e excelente. Para enfrentar as dificuldades da vida, o homem-massa contemporâneo consome doses crescentes de anfetaminas, rivotril e fluoxetina. Ele é incapaz de lidar com os riscos existenciais, sentimentos, frustrações e limitações e encontra nos remédios um meio de cobrir o vazio de sua vida. É para esse homem que a formação humanista faz mais sentido. O filósofo Martin Buber, outro representante da escola existencial e contemporâneo de Delfim Santos, fez uma crítica demolidora a qualquer organização social, mesmo que aparentemente boa, que não tenha raiz moral. Então ele, por contribuir para demolir o socialismo marxismo, explicou que os ideais humanitários do socialismo não podem se perder nas andanças da existência. As experiências apoiadas no marxismo perderam sua essência, ele avaliou, quando desconheceram a raiz ética do humanismo. Por isso essa é uma questão importante, perceber que há algo que não se pode perder no socialismo: a preocupação com o homem. Esse valor Delfim Santos buscou no humanismo renascentista. Quanto a aplicação de princípios fenomenológicos aos assuntos pedagógicos ou psicoterápicos isso foi tema dos capítulos sete, oito e nove do livro. Delfim Santos aprofundou essa questão num conjunto de ensaios e, especialmente, no livro Fundamentação existencial da Pedagogia. Seus estudos integram o movimento que se consolidou na segunda metade do último século, depois que ficou bem conhecida a analítica existencial e a descrição fenomenológica da vida humana. Foi nessa época que a discussão de Edmund Husserl iniciada com as Investigações lógicas foi trazida para a Psicologia e para a Pedagogia. Os psicólogos da chamada linha fenomenológica usaram a fenomenologia como fundamentação científica de uma nova prática psicoterápica e pedagógica que se afastava da psiquiatria tradicional e também da psicanálise. Esse é um caminho a se retomar. Karl Jaspers, por exemplo, iniciou essa aproximação com a fenomenologia em livros como Psicopatologia geral, nos ensaios publicados nas revistas de psiquiatria que foram a base dos Escritos psicopatológicos, em Gênio e loucura e também em ensaios reunidos na obra O médico na era da técnica. Esses estudos, muitos pensados e difundidos por Delfim Santos, foram estruturantes de seu pensamento como se procurou indicar. Ele teve em Karl Jaspers um interlocutor fundamental, não só o psiquiatra, do início da vida, onde a aplicação do método fenomenológico ainda estava a merecer aprofundamento, mas o médico filósofo que escreveu os ensaios de O médico na era da técnica depois que amadureceu sua reflexão filosófica sobre a prática clínica. Nos ensaios desse último livro, a aplicação do método fenomenológico à psicologia humana já estava mais clara e os assuntos foram abordados de forma mais madura que nos primeiros escritos. Delfim também acompanhou as críticas dos psicólogos europeus (especialmente da Gestalt) ao behaviorismo americano e as concepções de aprendizagem pautadas nas leis que elaboraram e soube sistematizar essas críticas. O conhecimento de Delfim Santos não se limitou ao que escreveu Karl Jaspers e os psicólogos da Gestalt. Ele acompanhou o movimento e os seus representantes mais importantes. No campo da psicoterapia, a partir da década de 20, ganhou visibilidade o trabalho do psiquiatra suíço Ludwig Binswanger um dos criadores da Daseinsanalyse. A ele se juntaram outros investigadores como Eugéne Minkowski, outro psiquiatra que ganhou notoriedade pela incorporação dos princípios da fenomenologia na psicopatologia e pelas pesquisas que realizou sobre o tempo vivido. Esse psiquiatra colaborou nas pesquisas de Henri Ey e Ludwig Binswanger, o primeiro autor de um importante Tratado de psiquiatria citado neste livro. O trabalho desses psiquiatras foi acompanhado por Delfim Santos não tanto pelos estudos sobre o comportamento patológico, mas porque construíram uma metodologia para tratar as experiências pessoais, de amplo significado para a psicologia humana do desenvolvimento e da aprendizagem. As observações desses investigadores também recusavam as pesquisas dos behavioristas americanos como haviam feito os psicólogos da Gestalt. Delfim Santos acompanhou igualmente o que escreveram psiquiatras e psicólogos menos conhecidos dessa corrente como Juan José López Ibor, que estudou em Madrid e começou sua vida de pesquisador na Faculdade de Santiago de Compostela, em 1932. Em 1934, Ibor se tornou professor na Faculdade de Valencia. Naqueles dias, a investigação dos fenômenos psicológicos com base na fenomenologia não era prática comum nas faculdades de Medicina e esses estudos foram realizados em pequenos institutos. Outro médico que Delfim Santos menciona em seu ensaio sobre a Psicologia Fenomenológica é Henrique João de Barahona Fernandes, psiquiatra português que foi Reitor da Universidade de Lisboa, onde Delfim trabalhou. Barahona foi um dos primeiros psiquiatras a praticar a psicologia fenomenológica em Portugal. Todos esses estudiosos da psicologia humana trabalharam a partir do relato vivências pessoais, para o que era fundamental bem conhecer a história de vida dos pacientes. Uma psicologia conduzida dessa forma é fundamental para o enfrentamento das mudanças culturais, o que é necessário para quem vive numa sociedade complexa e com necessidade de permanente revisão da malha intelectiva. Esses estudos dão maior ênfase a sentimentos como: angústia, depressão e infelicidade. Não são essas as únicas emoções importantes, o estudo das emoções no espaço fenomenológico é amplo. Contudo, a concentração das pesquisas nessas emoções mostra preocupação com elas, pelo maior impacto na área médica, elas chamaram atenção dos psiquiatras e psicólogos mencionados por Delfim Santos. É também a influência da filosofia existencial e os problemas de uma sociedade em crise que explica esse fato.
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