Oralidade da Cantoria -

    Francisco Fernando da Silva

    Editora Mikelis
    2017
    260 páginas
    8h 40m
    ISBN-13: 9788593458187
    Português Brasileiro

    Convencido de que o maior adversário da aprendizagem e do conhecimento é o preconceito, o objetivo deste livro é desfazer intolerâncias e colocar a cantoria de viola nos patamares da literatura. Nesta obra o leitor encontrará dados teórico-científicos sobre a cultura nordestina da cantoria de viola, entrevistas com repentistas profissionais, um acervo de histórias dos festivais de cantoria no Nordeste e informações sobre os principais artistas dessa área. Este livro está recheado, do início ao fim, de belas poesias em rima e prosa no estilo da cantoria de viola.

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    Miguel Silva08/08/2019Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Literatura de Cordel...

    Por Frei Chico... O maior adversário da aprendizagem e do conhecimento é o preconceito. Entre os preconceitos contra os quais devemos lutar se encontra o preconceito linguístico que faz com que a linguagem usada pelas classes menos favorecidas seja considerada inferior ou inexistente. Entendida de forma preconceituosa a oralidade da língua é tida como o lugar do erro e oposição à escrita. Na oralidade da língua do Brasil se encontra a cultura nordestina discriminada e considerada inferior, e em meio a esta cultura a cantoria de viola como uma das mais belas expressões artísticas e culturais da poesia e da literatura que, por ser oral, é discriminada e desconhecida. Para abordar este tema, com o objetivo de desfazer preconceitos e colocar a cantoria de viola nos patamares da literatura, entrevistamos dois grandes cantadores profissionais, pesquisamos em livros que abordam e aprofundam este tipo de literatura e reunimos dos cantadores o que eles têm de melhor em LPs e CDs na defesa da oralidade de sua arte, de sua cultura e de sua profissão. Chegamos a resultados muito positivos nesta área, percebendo que os grandes congressos e festivais de violeiros estão levando à mídia e ao mundo intelectual a cultura da cantoria. E por fim apresentamos pistas de como colocar a cantoria em sala de aula para que, como outro tipo de literatura, a cantoria de viola, expressão genuína da cultura popular nordestina, seja conhecida, estudada e praticada por alunos e professores tanto do ensino fundamental e médio como do ensino universitário. Considerando que a oralidade só acontece pela interação, concluímos que a cantoria de viola é um lugar privilegiado da oralidade já que é feita sempre por duplas de cantadores que interagem se revezando na cantoria e por que sempre os cantadores cantam aquilo que o povo pede e sugere havendo também forte interação com a plateia da cantoria. Este livro aborda um problema que se percebe claramente em nossa cultura e que raramente vem à tona ou se manifesta com espontaneidade nos meios de comunicação, em especial em livros. Primeiramente há um preconceito contra a oralidade em geral, como se a escrita fosse a única forma de linguagem e a única expressão verdadeira da língua. Interessa-nos especialmente o preconceito que se tem contra a oralidade da poesia popular dos cantadores repentistas. São homens que fazem verso de improviso em cantorias, congressos e festivais. Antes da técnica da gravação o vento levava todos esses improvisos, essas riquezas de poesia que têm seu mérito exatamente no fato de serem criadas na hora e expressarem por isso o mais puro e mais autêntico sentimento dos cantadores e do povo que os rodeia. Diante do preconceito que sofre a oralidade em relação à língua escrita, a linguagem falada é tratada como inferior e até relegada a um segundo plano, só importa aquele falante que reproduz pela fala os preceitos, regras e princípios da gramática que em muitos aspectos se prestam mais para a escrita e não tanto para a fala. Persiste assim a valorização da norma culta, vinculada à escrita, que continua a definir os padrões de realização linguística, comparados aos quais os produtos da fala só poderiam ser vistos como incorreções ou degenerações. Tal visão alimenta ainda hoje atitudes preconceituosas entre os usuários do português em gramática ou linguística, mas na literatura especialmente em textos orais que para muitos sequer existem, e entre eles as produções dos repentistas que apresentam uma literatura improvisada, de alto nível intelectual, crítica social e conscientização política. E é muitas vezes desconhecida e marginalizada porque preconceituosamente tratada. Este tratamento preconceituoso faz com que a chamada cultura popular seja desvalorizada só porque é uma cultura das classes de baixa renda. E assim a literatura de “cordel”, tanto na sua oralidade na profissão de cantador repentista, não é considerada uma literatura de igual valor a poesia escrita de tantos autores respeitados como Bilac, Castro Alves, e que fica relegada ao desconhecimento tanto dos meios de comunicação como da escola. Da mesma forma que nas últimas décadas os estudos sobre os diversos aspectos da fala e de suas relações com a escrita, vem-se ampliando o conhecimento nesse campo e desfazendo-se incompreensões no campo da literatura do repentista cantador, e não necessariamente escritor, tem havido também alguns progressos. Há textos cantados de improviso e gravados em CD em que os próprios cantadores reclamam a discriminação e o preconceito por que passa esta oralidade do cantador, do embolador, do aboiador, do declamador e do cordelista. Mas eles próprios demonstram um reconhecimento de que a poesia popular está, diferente de trinta ou quarenta anos atrás, sendo acolhida nos meios sociais e difundida pelos meios de comunicação, inclusive a televisão, com programas de cantoria ao vivo, e transmissão ao vivo de congressos e festivais. Também os meios culturais e os órgãos do governo que se interessam pela cultura estão dando maior valor aos repentistas e à literatura oral dos cordelistas. Embora a gente sinta neste campo ainda um desconhecimento muito grande, percebe-se em certos congressos e festivais a presença de alguns representantes do governo e de órgãos da cultura para valorizar os cantadores e ao mesmo tempo serem vistos como homens do povo que apoiam a cultura embora evitem até de falar porque não conhecem sequer o vocabulário próprio daquela literatura, daquela classe social e daquela cultura. A proposta é que se publiquem mais obras a este respeito, que se favoreça um maior reconhecimento a uma cultura que é tão nossa, e nós, por vezes, nos perdemos importando cultura europeia ou americana e desconhecendo e desvalorizando nossa própria cultura de tão grande valor artístico e estético. O sistema educacional brasileiro vem fazendo grande avanço através das pesquisas acadêmicas. Esses avanços têm influenciado não pouco o estudo da língua portuguesa, especialmente no campo da linguística, da pragmática, da morfossintaxe e da semântica. Na área de estudo da linguagem, aconteceu nos últimos tempos um grande despertar para a produção de textos. Nesta produção avançaram também o estudo e a pesquisa sobre a oralidade. Percebeu-se finalmente que estudar português não é apenas acumular um conjunto de normas estáticas e subordinar a língua a estas normas. Isto porque a língua é dinâmica, ela evolui, ganha novos vocábulos e novas expressões. Por isso as novas práticas de ensino do português estão se voltando para os fenômenos da fala. Não pode haver práticas eficientes sem uma séria fundamentação teórica, pois grande parte das estratégias didáticas, métodos ou técnicas de sala de aula com o português dependem de uma concepção linguística adotada. Nada acontece por acaso, tudo é fundamentado numa concepção teórica adotada por professores ou por um sistema de ensino e aprendizagem em determinado momento da história. Como nos mostram vários autores, como Antunes (2003), Bagno (1999), os estudos do português na atualidade estão se afastando do referencial teórico da gramática normativa que estudava a língua como um conjunto de regras que se prendiam mais à escrita e transformavam o conhecimento do português em privilégio das elites. Essa visão da gramática postulava a língua como um conjunto de regras organizado e disposto nos níveis fonológico, morfológico e morfossintático e apenas alguns modelos no nível discursivo. Este modelo foi ensinado e difundido por muito tempo no sistema educacional brasileiro resultando na criação de muitas gramáticas descritivas. Atualmente o último modelo a ser abordado que servirá como referencial teórico para o nosso trabalho está postulando a concepção sociointerativa da língua, que é considerada como uma atividade discursiva. É através dela que expressamos sentimentos, compartilhamos informações e ideias e interagimos com os outros e sobre os outros. A língua é um conjunto de usos concretos, historicamente situados, envolvendo um locutor e um interlocutor interagindo num espaço particular. Neste contexto surge a discussão sobre o uso da fala porque as atividades da língua se concretizam nas modalidades oral e escrita. Neste campo entra a oralidade também da literatura. Muitas histórias que foram transformadas em romances, peças teatrais, livros etc., passaram por etapas de oralidade. Assim a cantoria que para se tornar conhecida nos meios modernos já se valeu muito da escrita, da filmagem, da gravação, tem uma especificidade que se situa exclusivamente na linguagem oral porque é improvisada pelos repentistas. São homens que outrora cantavam pelas fazendas animando festas de aniversário, casamento, batizados e hoje passaram a se apresentar em palcos para grandes multidões. Mas são os únicos artistas que primam pela oralidade porque sobem ao palco para suas apresentações sem saber exatamente o que vão cantar ali, sem saber o vai ser pedido. Os temas são dados na hora; no improviso eles criam e de repente despejam informações, inteligência, filosofia, estética e beleza artística sem ter pensado, escrito nem decorado nada. Analisamos poemas orais que foram formulados no repente pelos cantadores e vemos que o preconceito contra este gênero literário, além de ser injusto demonstra uma ignorância crassa do assunto e um descaso para aquilo que é nossa verdadeira cultura. Pois ainda que se diga que a cantoria surgiu na Península Ibérica nos idos da Idade Média, poesia popular de cantadores repentistas nos mais variados estilos e dos mais variados modos, gêneros que se criam, se assemelham e se multiplicam só temos aqui no nordeste e mais especificamente no sertão dos estados da Paraíba, Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte. Percebemos que a valorização da fala e da oralidade nos estudos de português abrem esta brecha para desfazer os preconceitos linguísticos e os preconceitos também contra a oralidade da poesia matuta, com a novidade de que não se chamará uma cultura do erro, mas apenas uma linguagem diferente, adaptada à região, ao povo, ao momento. Uma cultura digna de ser posta nos meios de comunicação e ser utilizada nas escolas em pé de igualdade como qualquer literatura clássica e qualquer poesia. No ensino do português, como atividade didática, está implícita sempre uma concepção que se tem da língua. Tanto em gramática como na linguística, como na literatura, a atividade didática que se propõe ao estudo destes fenômenos depende estritamente do conjunto de princípios teóricos que são sólidos e objetivos e fundamentam a prática do ensino e o estudo das manifestações da língua, seja em sua forma escrita, falada, mímica ou em outras formas de comunicação. Como a língua é concebida hoje por autores como Marcuschi, Antunes, Bagno, Soares, etc., como um conjunto de signos e regras utilizadas para promover as condições de comunicação, também a literatura e principalmente ela, existe para promover a interação entre as pessoas, materializada em textos orais e escritos. Quanto à oralidade, criou-se certa dicotomia entre os elementos da escrita e da fala, e valorizou-se tanto a escrita que se chegou a reconhecer como fenômeno linguístico somente aquilo que se refere à língua culta padrão. Mas hoje com a valorização da oralidade e das diversas modalidades de linguagens, já se entende que a língua padrão é apenas um dialeto entre outros de tão igual importância. Como para a língua culta concentra-se a atenção apenas para textos escritos de grandes literatos e escritores, perde-se por vezes de vista aquelas expressões literárias que se restringem ao âmbito da oralidade. Estruturamos nosso livro em três partes: historiografia, cantigas e memórias. Consideramos a primeira parte aquela composta de conteúdos histórico-pedagógicos e de caráter mais informativo; ela é composta de cinco momentos. Inicialmente discute-se a história da cantoria de viola que é a mesma da literatura de cordel. Num segundo momento apresentamos a entrevista com dois grandes cantadores sobre a cantoria na atualidade e o preconceito contra sua expressão oral e cultural. Em seguida discutimos o preconceito contra a oralidade da língua em geral. Num quarto momento apresentamos a defesa dos próprios cantadores que em cantoria improvisada em congressos e festivais apresentam e defendem sua cultura, sua profissão. E por fim sugerimos como incluir a cantoria em sala de aula.

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