Constata-se o aumento de pessoas que se encontram em forte angústia e, por conseguinte, perigosa depressão por falta de sentido na vida. Isto tem se tornado um problema social generalizado, causando estranha dor existencial e deixando as pessoas extremamente desorientadas. Um exemplo dessa dor é o que ocorre na neurose dominical, aquela espécie de depressão que acomete pessoas que se dão conta da falta de conteúdo em suas vidas, quando passa a correria da semana atarefada e o vazio dentro delas se torna manifesto, tais como o fim de um casamento, a traição de um amigo, a falência da empresa, o medo, a descoberta de um filho nas drogas, o sentimento de culpa, a não-realização da vida profissional, um luto prolongado, etc. É necessário considerar a capacidade das pessoas direcionarem sua vida para alvos razoáveis como indicação do bom funcionamento da sua personalidade. Autodirecionalidade é, justamente, o exercício responsável da liberdade de escolher o caminho para a vida e de lidar com as consequências das escolhas. A importância do significado em cada situação é o elemento constitutivo do suprassentido, que se completa no significado existencial das situações-limites como o são o sofrimento, a culpa e a morte e é capaz de vencer a infantilidade do sujeito nos tempos atuais
Largue as aparências e busque o sentido da vida (Psicologia 07) - Autor - José Maurício de Carvalho
não informado
Um assunto muito importante para os dias atuais
Por José Maurício de Carvalho Vivemos a continuidade de uma crise de cultura que alcançou o homem no século passado e que parece ter se agravado nos últimos tempos. Uma crise de tal gravidade não será enfrentada sem a compreensão das dores que ela provoca e dos elementos que dispomos para enfrentá-las. Essa não é uma situação fácil porque a cultura e os valores nos quais ela se sustenta encantam cada vez menos o homem contemporâneo, que se encontra perdido e distraído com suas dores íntimas. Ele não está à vontade na cultura, embora não deixe para trás os valores principais que estruturaram o Ocidente e não foram destruídos. Se a estrutura está aí porque essa não lhe garante meios para estar bem? Por que esses valores não respondem a todas as dúvidas e há divergência em como entendê-los? Assim, o homem contemporâneo não sabe o que fazer com a perplexidade da existência e seus riscos, desafios que nos acompanham desde o início das grandes civilizações e que pedem uma nova resposta em cada tempo. Sem algo que valha a pena buscar, a vida se esgota no imediato dando às pessoas a sensação de falta de sentido. O problema dos riscos de viver e da falta de sentido ganhou ainda relevância entre psicólogos, psiquiatras e filósofos porque o mundo deixou de oferecer aderência ao homem de nossos dias e ele passou a compensar sua desorientação com a procura de prazer imediato. O homem de hoje está entediado pela falta de sentido para viver, que ele tem dificuldade de descobrir porque não aprofunda as razões de sua vida. Sem uma revisão das referências históricas, ou culturais, ele fica sem orientação. O que faz então? Ele mergulha nas distrações e na busca ansiosa de prazer, perdido numa vida sem significado ou realizando projetos que não sente como seus, que não lhe encantam e o confundem. Ele os leva adiante para ter com que se ocupar, mas não com dedicação de quem realiza algo importante. Por exemplo, assiste-se a diferentes manifestações de espiritualidade, mas as religiões concretas não têm seguidores fiéis. Cresce a literatura de autoajuda, um sucesso de vendas, apesar da pequena eficiência dessa literatura para realizar o que promete. As repercussões disso na alma fizeram com que a falta de razão para viver e de felicidade fosse diagnosticada como depressão e medicadas como doença, mas a questão é outra como disseram os psicólogos da corrente fenomenológica. Um grande número de pessoas está triste porque não sabe o que fazer da vida ou não estão muito contentes com a vida que levam, mesmo sem saber os motivos da sua tristeza. Nisso está o mais interessante, elas não sabem porque não estão bem, mas acreditam que não têm motivos para estarem infelizes. Uma boa parte das pessoas está perdida procurando realizar projetos alheios, desenhados por tios e pais, ou pela propaganda midiática, quando não pelos próprios seus medos e inseguranças. Uma outra parte luta apenas para sobreviver. Essas pessoas dizem que a vida está mais ou menos, ou que deve haver algo errado com elas porque não estão felizes. Acreditam que um remédio vai redimi-las. Pior é que as redes sociais vendem a imagem de que estão todos muito bem, se distraindo e muito contentes com a vida que levam, mas no fundo se sabe a artificialidade das postagens. O que se mostra para os outros não se vive ou só se suporta com prozac. Sem a alegria de uma razão profunda que encante a alma e forneça razões para as dificuldades que a vida traz, essas pessoas se encontram insatisfeitas com a vida que levam, procuram o que fazer num mundo que oferece como resposta para suas angústias o gozo imediato, o consumo ansioso e o acúmulo de bens materiais. Isso é ofertado como razão para viver e a pessoa que segue essa cartilha, mas se sente infeliz, confunde-se ainda mais com os sentimentos de depressão que insistem em não ir embora. Assim, a vida parece cinza quando o dia amanhece sem as luzes da balada, sem a fama efêmera das redes sociais, sem a beleza passageira do corpo que rapidamente perde a juventude e não mais desperta o interesse do mercado. Vamos mergulhar nos elementos que nos ajudam a entender as raízes dessa crise, a qual afeta a compreensão do que é a vida humana e repercute na realidade psicológica da pessoa. O sofrimento e o esforço, a dedicação e o amor, a perda, a doença, a morte e o sofrimento só ganham razão num sentido aceito como próprio e em crenças melhores que as vendidas hoje pela mídia. Espera-se também mostrar as faces da crise, sua gravidade e características para Uma boa parte das pessoas está perdida procurando realizar projetos alheios, desenhados por tios e pais, ou pela propaganda midiática, quando não pelos próprios seus medos e inseguranças. justificar a importância de retomar os valores de humanidade que são apenas formalmente admitidos. Não basta formalmente conservar valores em instâncias culturais que não são intimamente aceitas. Parece ser esse o desafio de hoje, fazer com que valores culturalmente preservados cheguem às pessoas e sejam acolhidos por elas. Como se pode ligar essas dificuldades com as referências que os pesquisadores do século passado construíram? Que semelhanças há entre os problemas de hoje e os do passado recente? As lideranças políticas de nossos dias fecharam os olhos para essa questão. Somos formados disso que deu lastro para enfrentar outras dificuldades, mas o homem hoje não tem esses valores à mão, ao contrário, eles parecerem distantes. Às vezes se recorda com tristeza dos dias em que a vida parecida mais ajustada, mas não adianta morar no passado, é preciso resignificá-lo. Neste fascículo vamos examinar o conceito de realidade, cultura, vida concreta, assunto importante para as ciências humanas, em especial a psicologia, a educação e a filosofia. Mesmo que psicólogos e educadores não entrem nos aspectos filosóficos da questão, o modo como entendem e incorporam o sentido do real interfere diretamente na sua prática clínica ou pedagógica. Henri Piéron explica: “operação psicológica pela qual se constitui o sentimento de realidade dos objetos do mundo exterior. Em certos casos de psicastenia e esquizofrenia pode ser perturbada, ou mesmo abolida”. Vamos analisar o tema a partir de estudos de alguns pesquisadores renomados na literatura, em especial o português Delfim Santos, Viktor Frankl e o espanhol Ortega y Gasset. Mas também consideraremos as lições de Martin Buber, K. Jaspers, Miguel Reale, os quais propuseram retomar os valores de humanidade arduamente construídos durante a história do ocidente. Muitos estudiosos se preocuparam em aprofundar o conhecimento da realidade porque é próprio do homem conviver com pessoas e coisas. Realidade é aquilo que parece ser comum a vários homens, ou ao menos reúne elementos que tornem possível o entendimento comum. Ouve-se frequentemente a pergunta: o que é realidade? Ou a advertência: caia na realidade! O que a questão e a expressão significam? Para começar podemos partir de resposta contemplada pelo senso comum: realidade é tudo o que não está na cabeça das pessoas. Portanto, realidade é o mundo. A discussão filosófica pretende aprofundar esse conhecimento comum questionando suas bases, mas entender realidade como o que é comum a todos é o modo como usam o conceito, de modo geral, psicólogos, médicos e educadores. Entenderemos que embora seja a base das comunicações, essa noção contempla a existência de mundos singulares nos quais se formam as concepções de mundo. O que é realidade? A realidade é tudo o que não está na cabeça das pessoas. A psicanálise trata o assunto de modo particular entre as diversas teorias psicológicas. Não foge desse entendimento geral de realidade como sendo o objetivo, mas o contrapõe ao princípio do prazer. Para Freud, o princípio do prazer é o que domina a mente, mas a dinâmica que o alimenta está em desacordo com os mecanismos do mundo natural. Por isso, nunca é possível realizar todos os nossos desejos, porque o que o homem deseja é o prazer, mas ele não é possível de ser normalmente alcançado pelas leis da natureza ou mesmo pelas regras da sociedade. Freud refere-se a esse princípio de realidade como sendo o que substitui o princípio do prazer. O princípio da realidade é o que procura o prazer, mas leva em conta as condições do mundo exterior. Essa questão é complexa se consideramos o que Freud escreveu: “assim, um objeto, primeiro se apresenta ao ego como algo existindo do lado de fora, que somente e induzido a aparecer por um ato em particular. Um estímulo exterior para o crescimento e formação do ego, de maneira que se torna mais do que um feixe de sensações, isto é, que reconheça um lado de fora, um mundo exterior, é fornecido pelas frequentes inevitáveis e multiformes dores e sensações desagradáveis, que o princípio de prazer, ainda com domínio irrestrito, manda abolir ou evitar. Surge a tendência para, descartando-se, dissociar do ego tudo o Freud também considera real aquilo que é exterior, o que se contrapõe aos mecanismos da mente quando ela se move apenas por seus desejos íntimos. que dê motivo a dor, e criar um puro ego prazer, em contraste com um lado de fora ameaçador, um não eu. Os limites desse ego prazer primitivo não podem fugir a reajustamentos, através da experiência. Muito do que o indivíduo quer reter porque é gratificador, não é, entretanto, parte do ego, mas de seu objeto, e muito do que deseja descartar, porque lhe atormenta, prova ser inseparável do ego, surgindo de uma fonte interna. Aprende um método, pelo qual, através do uso deliberado dos órgãos sensoriais e movimentos musculares úteis, pode distinguir entre o interno e o externo – o que é parte do ego e o que se origina do mundo exterior – e assim dá o primeiro passo para a introdução do princípio da realidade, que existe para controlar o seu desenvolvimento ulterior. Dessa maneira, o ego se destaca do mundo exterior. É mais correto dizer: originalmente o ego inclui tudo; mais tarde, destaca de si o mundo externo”. Portanto, Freud também considera real aquilo que é exterior, o que se contrapõe aos mecanismos da mente quando ela se move apenas por seus desejos íntimos. Porém, a realidade entendida como o que é exterior, ou como o que está diante do aparelho mental contempla uma questão filosófica importante e um impacto para a psicologia. A preocupação com a realidade refletiu, no século XX, a forma de examinar o problema do ser de uma maneira diferente da que se fazia antes. A fenomenologia existencial inaugurou uma nova atitude que marcou a investigação filosófica em todo o século passado. Essa nova forma de pensar deixou de indagar sobre as coisas à volta do eu para considerar uma teoria dos objetos, isto é, entender como mundo aquilo se mostra na consciência pela relação com ela. Essa percepção tornou incontornável investigar a relação entre o sujeito que pensa e as coisas pensadas.
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