Algo que me impactou bastante na leitura foi quando um médico, no começo do livro, contou sobre uma experiência que teve com um indigente que ele assistiu morrer. Gostei da forma como ele não demorou para ter a própria visão daquele homem miserável sendo alterada e depois disse que não sabia se aquilo ajudou o homem durante sua morte, mas que certamente ajudou ele mesmo a viver.
De um lado, tem Alexandra (Sashenka), uma mulher que claramente teve uma infância difícil. Seu nascimento apenas aconteceu porque o irmão mais velho morreu. Foi fortemente negligenciada pela mãe e só tinha o carinho verdadeiro do pai. Devido a isso, ela mesma criou uma irmã gêmea em sua imaginação e colocou a culpa de coisas que a deixavam aflita nessa irmã imaginária. Do outro, Vladimir (Vovka), apaixonado por livros já há bastante tempo. Não só gosta de ler, mas também de escrever. Vovka era um garoto muito curioso, com uma mente que o levava de um lugar a outro em questão de milissegundos.
"Por que os beijos sempre são guardados para o final de uma carta?
Eu te beijo imediatamente, e em todo lugar, em todo lugar!"
À medida em que a obra vai mostrando as cartas de Vladimir, fica evidente o amor que ele tem pela Alexandra. É tudo escrito com muito carinho e desejo, como se ele a estivesse sentindo ali ao lado dele. Ele tem uma forma bem única de contar sobre seu dia para a sua amada, passando de um assunto para o outro, às vezes citando algo aleatório sem muita relação com o principal, e isso é muito cativante. Assim como é dito no começo do livro, é tudo sobre os dois.
Em um momento, Vovka diz que tudo precisa ter um cheiro para existir, no meio de uma de suas reflexões. Depois disso, relembra sua amada sobre um dia em que entrou no quarto dela e imediatamente foi sentir o cheiro de tudo o que tinha lá. Parecia um desejo de sentir que ela existia e estava ali para ele, uma confirmação de sua vida e existência. Isso fica ainda mais forte quando, na próxima carta de Alexandra, ela diz que sabe que existe mas precisa de provas o tempo todo. Suas cartas são tão repletas de sentimentos explosivos quanto as de Vovka.
O casal era visivelmente bem jovem e é possível "apostar" que é o primeiro amor de ambos desde cedo (ignorando o sentimento de Sasha pelo amante da mãe dela quando a garota era muito nova). Tudo neles é exageradamente intenso. Sentem um ao outro de forma intensa, e a si mesmos também.
Suas reflexões filosóficas mostravam onde os personagens se encaixavam no mundo.
A principal trama da obra se dá no fato de que Volodya está lutando em um conflito militar, na Rebelião dos Boxers, enquanto Sasha envia suas cartas de seu conforto doméstico. O homem frequentemente fala apenas sobre seu presente assustador, com toda a morte e tragédia do conflito em que está inserido, e a mulher relembra muito a dor e as pequenas felicidades de seu passado, falando vez ou outra do presente como médica.
Infelizmente, Volodenka acabou morrendo no conflito. Sasha continuou a lhe escrever cartas, mesmo depois de sua morte, e o autor continuou a mostrar os escritos enviados pelo Vladimir.
Sashenka segue com sua vida após a morte de seu amado e continua a escrever cartas para ele contando como vão as coisas. Escreveu sobre seu marido, a enteada difícil, o bebê que ela infelizmente perdeu.
Acompanhamos o envelhecimento de Alexandra e as mudanças bruscas em sua vida. Durante esse tempo, ainda são mostradas cartas do Vladimir, cujo tempo já não é mais capaz de passar.
De certa forma, era doloroso ver o tempo passar para ela e não passar para ele.
Em vários momentos é feita uma citação relacionada com o título, como quando a mãe de Volodenka diz "seu calor se tornou minha luz na escuridão" ao padrasto do garoto e quando o marido de Sashenka os compara com o espelho duplo de Fresnel, usando dois espelhos que refletem luz e que, em certo ângulo, seus raios de luz produzem escuridão.