Ecofeminismos - Fundamentos Teóricos e Práxis Interseccionais

    Daniela Rosendo, Fábio A. G. Oliveira, Príscila Carvalho, Tânia A. Kuhnen

    Ape'Ku
    2019
    232 páginas
    7h 44m
    ISBN-13: 9786580154111
    Português Brasileiro

    O pensamento ecofeminista, a partir de suas diferentes abordagens, vozes, formas e localizações apresenta um potencial teórico para pensar criticamente as relações humanas com outros animais e com a natureza. Permite também realizar um diagnóstico e propor saídas para o não-lugar ocupado pelas minorias políticas ainda assentadas em toda sorte de dominações e exclusões. Esta obra busca contribuir para ampliar esse debate sobre as inter-relações entre todos aqueles, humanos e não humanos, vitimados por situações de opressão. As questões aqui apresentadas apontam as diferenças de raça, classe, gênero e espécie como fatores agravantes das desigualdades sociais, além de formarem interconexões entre esses modos de exploração, por meio da junção de diferentes propostas de escrita individuais e coletivas, com seus respectivos recortes teóricos pautados em contribuições desenvolvidas no âmbito do pensamento ecofeminista.

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    Anna 03/01/2021Resenhou um livro
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    Diferentes tipos de dominação e aprisionamento?

    Acompanho o movimento feminista há anos e nunca havia ouvido falar sobre o termo “ecofeminismo”. O meu primeiro contato se deu por meio de um Podcast no Spotify chamado “Ecofeminismo: Mulheres e Natureza”, que apareceu como “indicado para mim” na plataforma. Comecei a estudar o assunto e achei bastante interessante. Ressalto que existem algumas percepções nas quais eu discordo, mas acho importante dividir um pouco do conhecimento sobre esse movimento e o quanto ele é interessante e pertinente. Comprei o livro “Ecofeminismos” de Daniela Rosendo a fim de aprofundar os meus estudos sobre o tema. O livro é curtinho e conta com artigos científicos que tratam sobre o tema (em português e espanhol) e suas várias abordagens. O ecofeminismo é um movimento mais filosófico com uma pegada um pouco diferente do que estamos habituados a encontrar em outras camadas dos feminismos. Essa filosofia prega a empatia e cuidado por todos os seres individuais para que o mundo seja, como um todo, um local mais ético. O foco é que todos os processos de opressão criado pelo homem tem uma base em comum e que há semelhanças diretas entre o sistema de dominação patriarcal e o que cometemos com a natureza. De acordo com o livro: “A teoria feminista se torna um importante instrumento de análise e bandeira de luta social, porque nos ajuda a entender o modus operandi de como as opressões estão interligadas”. Existem algumas reflexões muito interessantes sobre o tema. Começarei explorando a ideia da conexão que a mulher possui com a natureza, que é bastante diferente daquela ensinada aos homens. O machismo cria uma ideia de desvalorização de tudo relacionado ao feminino e à natureza (os chamados “outros”). Mas como isso ocorre? o machismo impacta a criação dos homens e faz com que eles pensem que tanto a natureza quanto as mulheres estão ao seu dispor ou precisam ser conquistados por ele. O homem ocupa um espaço de conquista e dominação por meio desse tipo de criação que envolve a ideia de masculinidade. Logo, é preciso que os meninos sejam criados para exercitar o seu sentimento de empatia pelo “outro”. Um exemplo interessante que aparece no livro é o seguinte: “A caça e o sacrifício animal exemplificam o corte da conexão com as mulheres e os animais. Através da história, a caça tem sido tanto uma atividade predominantemente masculina quanto um ritual prototípico para entrar na idade viril”. Não obstante, no decorrer da história, as mulheres foram retratadas em uma relação direta com a natureza, como na ideia de que existe um Deus homem situado no céu governando a Terra, que é imaginada como feminina. O livro “Ecofeminismos” deixa claro essa ideia na seguinte passagem: “mulheres e animais são vistos como selvagens, irracionais, seres do mal que precisam ser conquistados e subjugados por uma força masculina agressiva”. Ainda nesse sentido da relação entre mulheres/natureza e a posição de dominação masculina, o livro nos mostra também como as mulheres estavam ligadas à uma imagem de ciclos repetitivos da natureza (em especial, por conta da possibilidade de reprodução) enquanto aos homens cabia uma imagem ligada a atos de heroísmos. Vale ressaltar que a ligação que a mulher tem com a natureza não deve ser reforçada pelo esterótipo retratado acima, que justifica tal ligação como uma “natureza” própria do feminino. Há uma parte do livro que explica muito bem esse ponto: “Qualquer atribuição de características inatas aos sexos carece de fundamentos científicos, mas, sobretudo, por entendermos que tal visão reforça padrões de subordinação dominantes e inibem o potencial crítico do feminismo”. Outro ponto importante (e mais prático) a ser observado é de que as mulheres são a população mais afetada pelas mudanças climáticas. Isso ocorre pelo fato de que a mudança climática faz com que os homens migrem para locais cada vez mais distantes em busca de subsistência, enquanto as mulheres permanecem nos vilarejos em situação precária. Além de pesquisas indicarem que há um aumento na violência de gênero, tráfico humano e casamento infantil nessas localidades mais afetadas. A obra trata desse aspecto também na seguinte passagem: “Certamento o lixo tóxico, a poluição do ar, os lençóis freáticos contaminados, o aumento da militarização e similares não são exclusivamente questões de mulheres; elas são questões humanas que afetam todo mundo. Porém, ecofeministas alegam que essas questões ambientais são questões feministas porque são as mulheres e as crianças as primeiras a sofrer as consequências da desigualdade e da destruição ambiental e que sofrem essas consequências desproporcionalmente em relação aos homens adultos”. Por fim, um último ponto interessante retratado no livro é como as mulheres sofrem com a falta de reconhecimento na luta ambiental e agrária. Sendo assim, consigo concluir que o ecofeminismo ele não nasce com uma abordagem prática como os outros feminismos, mas como um movimento intelectual e filosófico, pois leva em consideração questões como sistemas de opressão e condição humana.

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