Inicio de Ferdydurke: “El martes me desperté a esa hora inanimada y nula en que la noche ya está por terminar y sin embargo todavía no ha nacido el alba”. El rapto del narrador y el rapto del lector, es a la vez simultáneo y divergente. El narrador se convierte en protagonista de una aventura insólita y el lector, entre la risa y el asombro, descubre la irrisión de sus convicciones literarias Fui raptado por Ferdydurke cuando salía de la adolescencia, cuando al entrar en la juventud tuve la certeza de que la literatura estaba en el horizonte de mi vida. ¿Qué podía encontrar mejor que Ferdydurke? Nunca me separé de ese libro, nunca dejé de leer a Witold Gombrowicz. Ferdydurke concluye con “el nuevo atrapamiento” porque librarse de un rapto que se realiza en nombre de ese juego de lenguaje que se llama la educación –cualquiera que sea– es convertirse en el portador de una forma que sólo se abandona por otra. El rapto es retorno a la juventud y la huida de esa juventud (de la colegiala en la intriga con el viejo) conduce al peoncito. Las formas que caen dejan al personaje en una fuga sin fin, con la cara entre las manos. El infierno cómico de Ferdydurke, donde el adulto no puede guiar al joven y el joven no puede guiar al adulto, pasa por círculos compuestos por una serie de personajes que, como en el cine mudo, invitan a una risa silenciosa. Witold Gombrowicz es un maestro de la comicidad que descubrió que el hombre no quiere ser Dios, sino que quiere ser joven. ¿No parece cierto?. Ya hablaremos. - Germán García
Ferdydurke -
Witold Gombrowicz
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Ferdydurke não é o nome de alguém, de algum lugar ou de alguma coisa. Só é mencionado na capa e nos créditos bibliográficos, depois desaparece do romance publicado em 1937 pelo polonês Witold Gombrowicz (1904-1969). No entanto, esse mistério não impediu que o tcheco Milan Kundera sobre ele afirmasse que se trata de "Um dos principais romances do século XX." Para Susan Sontag, que escreveu o prefácio da obra, Ferdydurke é "Extravagante, brilhante, perturbador, audaz, engraçado... maravilhoso." Depois de minha experiência com ele poderia colocar mais um adjetivo nessa lista: desconcertante. O livro começa com um toque kafkiano: como o Gregor Samsa de A Metamorfose, um homem de trinta anos, o escritor Jozio Kowalski, acorda numa terça-feira e vê-se transformado em um adolescente, que em seguida é raptado e levado para um colégio interno, que não é exatamente um modelo de estabelecimento de ensino. A partir de então acompanhamos suas tentativas de escapar desse pesadelo de olhos abertos, fugir dali, voltar à sua vida anterior. São episódios verdadeiramente quixotescos nos quais Jozio é envolvido. Toda a sua aventura se passa de maneira alucinada, tudo nos é contado "através de uma narrativa pouco usual, marcada por uma linguagem semelhante à dos sonhos", conforme está assinalado na sinopse aqui no Skoob. E aí, de volta a Susan Sontag, ela nos lembra que Ferdydurke pode ser relacionado com as aventuras de Alice, a inesquecível personagem de Lewis Carrol. Há quem igualmente associe Gombrowicz ao conterrâneo Bruno Schulz, o autor de Lojas de Canela e Hospício, livros de contos pra lá de originais. Admirado por John Updike ("uma das sátiras mais verdadeiras e engraçadas já impressas") e Ernesto Sabato (para quem Gombrowicz colocava em cena "os mais graves dilemas da existência humana"), Ferdydurke desconcertou os especialistas em literatura na época do lançamento e continua deixando desconcertados os leitores mais de setenta anos depois. Sobre o que seria esse livro? Continuando com Sontag, ela levanta a hipótese de que no fundo mesmo ele é sobre desejo sexual (sem que haja uma única cena de sexo na história toda, ela lembra) e imaturidade, mas tudo escrito em tom cômico e irônico, característica da literatura de Gombrowicz. É para pegar ou largar, divertir-se ou não. Lido entre 21/10 e 02/11/2017.
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