Primeiro que leio de Púchkin (autor cujo traço biográfico mais marcante é o de ter sido morto em um duelo, aos 37 anos. Tretas envolvendo infidelidade, normal). Suas obras, desde 1826, eram lidas e aprovadas/reprovadas pelo próprio tsar. Por essas e outras, Boris Godunov foi uma peça diversas vezes modificada. Púchkin até acusou o antigo censor de plagiá-la. O rodeio foi tamanho que a efetiva apresentação em palco se deu décadas após a primeira publicação, com Púchkin já deitado em berço esplêndido. É uma peça bem diferente, em termos estruturais. Histórica, mas que não se preocupa muito em estabelecer fielmente os seus cenários. Ela se dá em versos, não tem um protagonista muito definido, ocorre em diversos dias, com enormes lapsos temporais. Seu final é um tanto inconclusivo, a obra depende de muitos dados históricos (os quais, para minha sorte, a edição da Globo trouxe satisfatoriamente). Toda essa desordem também é refletida na trama: com a morte do tsar Feódor, um impostor chamado Grigori, se passando por um filho morto do tsar Ivan, O Terrível, declara-se o legítimo herdeiro do trono, junta-se com aliados para além da fronteira e ameaça a estabilidade do novo tsar, seu suposto tio Boris Godunov, o qual teria mandado matar o filho do tsar Ivan. Novelão dos tronos. (Detalhe: a prática de se passar por um filho supostamente morto de algum tsar era muito recorrente. Grigori foi o mais bem sucedido, pois alcançou o poder. Mas ele não foi o único a tentar) Acredito que ficou mal explicada a trama, mas está bom assim. A arte também serve para desorganizar e confundir. E para esta definição aplicam-se vários dos bons diálogos desta obra. Boris e o Impostor estão muito inspirados. Aquele, principalmente, em suas angústias de rei prometido para a morte: não bastasse ser acusado de matar o herdeiro, também vê o pretendido para a sua filha morrer sem explicação. Acredita estar amaldiçoado, sendo um mensageiro da morte e da desgraça. O Impostor, por sua vez, produz belas reflexões acerca da necessidade da guerra para aqueles que o seguem. Pouca diferença faz se ele é o herdeiro que diz ser; seus seguidores apenas querem um inimigo para matar, nada mais. A causa não precisa ser nobre ou legítima (até porque todo monarca é ilegítimo, diga-se de passagem). Política e racionalidade só apertam as mãos nos sonhos molhados dos positivistas. De todo esse embate à distância (os protagonistas sequer chegam a se conhecer), entre dois (possíveis?) farsantes, emerge uma história muito poderosa, com reflexões muito perspicazes e atuais.
Boris Godunov
A. S. Púchkin
Globo Livros
2013
184 páginas
6h 8m
ISBN-13: 9788525055248
Português Brasileiro
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