A arte de produzir efeito sem causa

    Lourenço Mutarelli

    Editora Companhia das Letras
    2014
    208 páginas
    6h 56m
    ISBN-13: 9788580869323
    Português Brasileiro

    O livro de Lourenço Mutarelli que inspirou o filme Quando eu era vivo, com Antonio Fagundes, Marat Descartes e Sandy Leah. Esta edição especial contém o roteiro de filmagem escrito por Gabriela Amaral Almeida e Marco Dutra. Depois de largar o emprego e a mulher, por motivos que guardam uma infeliz coincidência, Júnior volta para a casa do pai. Sem dinheiro nem perspectivas, seus dias se dividem entre o velho sofá da sala transformado em cama, o bar onde bebe com desocupados e as conversas com a jovem e atraente inquilina do pai, Bruna, que ambos espiam através de um furo no armário. A pasmaceira só é interrompida quando começam a chegar pelo correio pacotes anônimos com recortes de notícias velhas, em inglês - uma delas sobre o episódio em que o escritor William Burroughs matou a mulher acidentalmente. Enquanto se entrega a reminiscências e persegue objetivos pequenos e imediatos - a próxima refeição, o resgate de uma dívida com o antigo chefe, o dinheiro para o próximo cigarro -, Júnior começa a roer a corda que separa sanidade e loucura, e dá passos numa espiral aterradora que engole todos que o cercam. O tom sombrio e opressivo dos outros livros de Mutarelli aparece aqui novamente, remetendo a influências confessas como Kafka e Dostoiévski. A ele somam-se o tédio e o vazio em meio aos quais os personagens se arrastam, num cotidiano marcado por obsessões sexuais e por um cenário típico da baixa classe média brasileira. Confrontado com uma espécie de afasia, incapaz de confiar na própria linguagem, invadido por associações livres e imagens sombrias, Júnior tenta relembrar seus últimos dias e avaliar os motivos que puseram fim a seu casamento. Mas tudo o que consegue é uma leitura muito particular do que acontece à sua volta, amparada em imagens misteriosas que Mutarelli acrescenta ao romance.

    Resenhas (2)Ver mais
    Rayane Martins picture
    Rayane Martins03/09/2025Resenhou um livro
    0

    A angústia que este livro provoca supera a de todas as obras anteriores do autor. Acompanhamos um homem que perdeu tudo esposa, filho, trabalho e tenta recomeçar do zero no sofá da sala do pai. Mas esse retorno é, na verdade, o prenúncio do fim. É brutal e sufocante assistir, página a página, à lenta corrosão de sua lucidez. Há tantos elementos inquietantes: os pacotes misteriosos que chegam, a pesquisa de Bruna que sugere uma ligação dos “Sedec” com o verme instalado na cabeça de Bruno… O leitor sente, quase fisicamente, o medo que o sênior experimenta. Quando ele, já incapaz de manter uma conversa, deita no colo do filho, a cena desperta uma vontade quase inevitável de chorar. E então chega o final, aberto, como já se podia esperar, que não oferece respostas, mas um aperto no peito e um enorme ponto de interrogação. Terá ele, enfim, consumado sua loucura?

    2 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    4 / 21
    • 5 estrelas19%
    • 4 estrelas48%
    • 3 estrelas24%
    • 2 estrelas10%
    • 1 estrelas0%