Homem no escuro

    Paul Auster

    Editora Companhia das Letras
    2008
    168 páginas
    5h 36m
    ISBN-13: 9788580861662
    Português Brasileiro

    Os fãs de Paul Auster e da melhor literatura norte-americana moderna têm muito que comemorar com este Homem no escuro, novo romance do festejado autor de A trilogia de Nova York, A invenção da solidão e Leviatã, todos publicados pela Companhia das Letras. Cruzando as memórias de um homem de setenta e dois anos que viveu intensamente cada instante de sua vida com as realidades iníquas e violentas de um mundo em pé de guerra, e ainda por cima encontrando espaço para uma subtrama labiríntica de corte fantástico e orwelliano, Auster mostra aqui, em grande estilo, toda a sua maestria ficcional. August Brill, crítico literário aposentado, recupera-se na casa da filha, em Vermont, Estados Unidos, de um acidente de carro em que quase perdeu uma perna. Quando o sono se recusa a dar as caras, Brill permanece na cama e libera a imaginação para tecer histórias que o ajudem a desviar o foco mental das vicissitudes que ele gostaria de esquecer: a morte recente da mulher, o assassinato do namorado da neta no Iraque e a dolorida solidão da única filha, abandonada pelo marido. Em meio a divagações de toda ordem, Brill constrói um mundo paralelo em que os Estados Unidos se acham mais uma vez numa guerra civil sangrenta. À medida que a noite em claro avança, adensa-se a trama do insone, ameaçando engolfar seu próprio criador numa delirante vertigem autopunitiva. No fim da madrugada angustiante, a neta Katya vem lhe fazer companhia, com perguntas incisivas que o remetem a um torvelinho de lembranças, boas e más, do casamento dele com a falecida Sonia, cantora lírica e mãe de Miriam, com quem dividiu os grandes momentos de sua vida. Com sua prosa a um tempo refinada e contundente, Homem no escuro é o romance dos tempos atuais, um livro que força o leitor a se confrontar com a noite sombria até mesmo quando celebra uma existência feita de alegrias comuns.

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    Paulo Henrique Alves de Sousa02/06/2023Resenhou um livro
    3.5 (Bom)

    Leituras de 2023 . Homem no escuro [2007] Orig. Man in the dark Paul Auster (🇺🇸, 1947- Cia das Letras, 2008, 168p. Trad. Rubens Figueiredo _____________________________ “Não existe uma única realidade, cabo. Existem muitas realidades. Não existe um único mundo. Existem muitos mundos, e todos seguem paralelos uns aos outros, mundos e antimundos, mundos e mundos-sombra, e cada mundo é sonhado ou imaginado ou escrito por alguém num outro mundo. Cada mundo é a criação de uma mente” (pág kindle 66). . A escuridão sempre foi um elemento largamente utilizado na literatura para ambientar o desconhecido, o sinistro, o terror, a perdição, o vazio. Essa ausência de luz como que corrobora com a construção de elementos que potencializam desde o sentimento de abandono ao terror que ora sentimos, o que não deixa de ser útil em algum desses momentos e nessas nossas leituras amadas. . Pois é no terreno da escuridão que August Brill, a mente por trás deste romance, crítico literário septuagenário que, convalescendo de um acidente automobilístico que fraturou sua perna e acometido pela insônia, fia suas memórias e recordações em histórias que vai compondo para si mesmo, como deixa claro durante toda a trama. A casa escurecida e aquietada, que ora divide com a filha Mirian e a neta Katya, fornecem para ele esse momento de idílio, esse cimento fértil onde realidades paralelas vão se acomodando entre os capítulos de um passado permeado por amarguras e perdas. . Enquanto vai “escrevendo suas histórias”, entram em cena flashes de suas lembranças pessoais, do casamento com Sonia, já falecida, dos reveses que esse matrimônio teve, culminando com o divórcio dos dois chegando até a perda trágica do namorado de Katya, morto por extremistas iraquianos. . É nesse ínterim, na silenciosa madrugada, que Brill usa sua engenhosa criatividade para ambientar um estado de guerra paralelo, onde figura o Cabo Owen Brick, que de uma hora para outra é feito soldado da resistência, recebe a incumbência de matar a “mente por trás do conflito bélico” que acometeu os Estados Unidos e que, ficamos sabendo, é o próprio Brill! . Nesse bate-bola entre a corrida contra o tempo de Brick, ameaçado de morte caso não cumpra a missão, e as lembranças antigas do passado de Brill, o leitor vai tomando conhecimento de toda a história da familia de Brill, e Auster, esse escritor genial, como que usa esse lento descortinar como se fosse a madrugada sendo aos poucos tomada pela alvorada. . Desde a leitura de “Invisível” eu não pegava nada de Auster para ler. Mas esse feliz reencontro me fez pensar em como, diante da mordaz e dolorida veracidade dos nossos erros, tao mortal quanto a guerra onde Brick tenta se abster, sendo a mais calamitosa das ações humanas, de certa forma, pode retratar fielmente o turbilhão existente em cada um de nós. Muito bom livro!

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