Desde adolescente, quando comecei a ler os livros da Agatha Chistie, eu tenho um pequeno ritual: antes de começar a leitura, eu olho a data do copyright original e ajusto a minha mente para imaginar os personagens nos anos 1920 ou 1950. Uma vez que Poirot e Miss Marple são geralmente descritos como "muito idosos" ou "vitorianos", a minha imagem mental deles permanece a mesma: a do David Suchet e Geraldine MacEwan.
Mas não com Tommy e Tuppence. A relação deles com a passagem do tempo sempre foi diferente. Eles nos são apresentados aos vinte e poucos anos, desempregados e recém-saídos da Primeira Guerra Mundial e a gente segue vendo-os amadurecer, ter filhos e chegar à velhice. Você sente a passagem do tempo e a mudança nos costumes com ainda mais profundidade do que nos livros protagonizados pela Miss Marple ou o Poirot, principalmente porque a trama dos Beresford gira em torno da espionagem, e não de assassinatos sofisticados. A Segunda Guerra e a Guerra Fria que dominaram a Europa nas décadas seguintes foram importantíssimos para a história do casal.
E o tempo, eu creio, é um dos grandes vilões deste quinto e último livro com a dupla, pois eles acabam investigando um "cold case" de quase setenta anos. Essa contagem do tempo é extremamente confusa. Nunca se tem absoluta certeza de quando os fatos ocorreram, em diálogos repetitivos. Somando-se a isso o fato da autora toda hora lembrar de Mou N? sem que, a meu ver, se acrescentasse alo ao caso, tornaram a leitura arrastada e cansativa.
Parte da razão para, acredito, deve-se também à narrativa. A impressão que eu tive, considerando os cortes rápidos, quase abruptos entre as cenas, é que a Agatha, inicialmente, pretendia escrever uma peça de teatro sobre aquele caso, mas acabou mudando de ideia no meio do caminho O resultado é que, embora os capítulos sejam relativamente curtos, ficaram com a narrativa fragmentada e pouco detalhada, o que é incomum em um livro da autora. Logo ela, a quem eu sempre vi como um bom modelo de narrativa.
O resultado é que que senti que a própria imersão na história ficou prejudicada. O livro só não desanda de vez graças à boa química da dupla principal. O contraste entre o temperamento impulsivo e a xeretice de Tuppence com o caráter mais reservado e controlado de Tommy é o que rende os melhores diálogos, muito mais do que a própria investigação. Gostei que a Agatha tenha tirado um tempo para falar um pouco dos filhos e dos netos do casal. É um pequeno mimo, considerando que o leitor sabe muito pouco sobre a Miss Marple e o Poirot.
No todo, devo ser franca e dizer que foi um livro que me deixou bastante decepcionada. Ele tinha um bom potencial, mas que acabou desperdiçado pela falta de ritmo e pelo final anti climático. Acho nunca usei esse termo para me referir a um livro da Agatha e confesso que estou arrasada! Ela é uma das minhas autoras favoritas!
Enfim, acho que vale a pena ler para terminar a coleção do Tommy e a Tuppence, mas aviso que ele é um livro bem fora da curva, bem fora dos padrões da autora. A nota real é 2,5 estrelas, em nome do meu carinho pela Agatha e pelo Tommy e a Tuppence.
Recomendo, com ressalvas.