Terceiro livro de contos do escritor Eduardo Sabino explorando a temática do Fantástico.
Estados Alucinatórios -
Eduardo Sabino
Edições (1)
Ver maisAnimais fantásticos e onde habitam
Com Naufrágio Entre Amigos (Patuá, 2016), Eduardo Sabino se inscreveu na galeria dos melhores contistas de uma geração composta por nomes como a gaúcha Natalia Borges Polesso e o cearense Marco Severo. Estados Alucinatórios é sua terceira coletânea de contos e primeira empreitada como editor da Caos & Letras, selo mineiro que fundou junto com o também escritor Cristiano Silva Rato. Com 11 textos, o volume tem um acento menos intimista que o das narrativas anteriores, nas quais o autor compunha, a partir da colagem de fragmentos pessoais, toda a poética de uma vida pacata e interiorana. Este cotidiano banal permeia, sim, alguns contos mais realistas (como “Alice e as barragens”, “Deu Pau” ou “Pessoa Física”) mas não é exatamente o ponto de coesão aqui. Nesta nova incursão pela narrativa breve se sobressai, como o título sugere, um trânsito sensitivo entre realidade e fantasia, com os pés se equilibrando sempre neste limiar tênue que ora se arrisca a flertar com outros discursos como o da parábola, por exemplo. É o caso do ótimo “A natureza suína”, conto sobre uma família de suínos e o filho rebelde, que começa a ter contato com a arte subversiva dos humanos após uma revolução que levou os porcos ao topo da cadeia evolutiva. A vertente orwelliana é tão notável quanto a kafkiana. Em “O abraço da serpente”, o professor F (!) encontra-se com a serpente em questão num conto de viés figurativamente mais filosófico, em que os ótimos enredos de Sabino dão lugar a uma “alucinação” um pouco mais difícil de se imergir (algo que ocorre também em “Ofertório”, um monólogo em que o devaneio religioso substitui o filosófico na fala de um pastor preparando uma performance teatral com ares de rito de sacrifício). O tom de oralidade está também presente em “Um Sonho Chinês” (em que um amigo relata a seu interlocutor a impressão de estar vivendo a vida de um boneco) e “Pérolas aos demos” (em que o Sabino e sua profusão de referências musicais exposta nos contos de Naufrágio entre amigos passa o bastão ao Sabino cinéfilo, abrindo as caixas de VHS dos filmes de terror dos anos 1980). O grande destaque do livro fica por conta de suas experiências com o fantástico em sua maneira latina, em contos como “Alimentando Júnior” (sobre um professor que passa a criar um crocodilo dentro de casa) e “Blattaria” (sobre um casarão e sua família de moradores e a ameaça gradativa de serem dominados pelas baratas que vivem no subsolo). São dois contos que abririam com mais estilo que “Samuel e Samael”, que registra o tema da possessão (explorado em muitos dos contos citados), mas o faz com menor ousadia, com um humor que, no desfecho, tem um apelo quase ingênuo. Ingênuo, entretanto, é algo que Eduardo Sabino definitivamente não é. E sua carreira como contista segue sendo uma das mais sérias e dignas de se acompanhar — na paisagem de uma literatura contemporânea em que o conto, felizmente, segue desafiando o romance como verdadeiro campo de enfrentamento estético. E de muita coragem.
Estatísticas
Avaliações
4.2 / 9- 5 estrelas56%
- 4 estrelas33%
- 3 estrelas11%
- 2 estrelas0%
- 1 estrelas0%

