Um dos romances amazonenses mais interressantes dos últimos anos, a obra revela um universo pouco conhecido: a imensa ramificação da rede que compõe a estrutura de igrejas evangélicas, os bastidores da formação dos bispos e formatação dos cultos. Temas como pedofilia, manipulação da fé, ganância e conspirações são explorados ora com forte carga dramática, ora com bom humor.
Aleluia irmão - Satanás é fiel
Luiz Lauschner
Esta resenha lança um segundo olhar ao livro Aleluia, irmão! Satanás é fiel, lançado em março de 2005 pela editora Limiar, do escritor Luiz Lauschner. Uma obra cujo título, por si só instigante, pode ser vista com certa polêmica. Porém, como afirma o próprio autor, na dedicatória do exemplar que tenho em mãos, “nem tudo ou quase nada, é o que parece, nem este livro”, ou seja, um título é apenas uma das faces, e não o eixo da atualíssima narrativa. Ou, lembrando ainda a sabedoria popular, não devemos julgar um livro pela capa, assim, apesar da criatividade da bela capa, os que passam pela obra de Lauschner defensivos, tementes principalmente ao fanatismo cego, perdem a oportunidade de conviver, pela leitura, com o que há de mais humano no homem, a busca por respostas, a reflexão entre fé e razão, o amor, a amizade, a ética. O foco da história não é o conflito entre ideologias religiosas, ou meras provocações, ou pior, acusações a tantas religiões ou crenças que permeiam o nosso cotidiano. Aleluia, irmão! Satanás é fiel é uma obra de ficção, mas que tem a contemporaneidade de contemplar, entrelaçando aos caminhos dos personagens uma realidade nossa, nem sempre conhecida: os “vendedores de fé”, que muitas vezes deturpam o que o ser humano tem de melhor: a fé! Harlan, o protagonista questionador, fugindo dos dogmas, pregando sempre o amor e não o medo como verdade; a modernidade e força da sensual Gabriela; Maria Helena, professora perdida entre idealismo e desamparo, inocente e culpada ao mesmo tempo; a corrupção de Francisco, que contrasta com a verdadeira fé de Emil, a fragilidade de Rosa; a promiscuidade de Ricarda e a ambição e praticidade de Marco Antonio são apenas algumas das características dos personagens dessa trama, que, com suas individualidades e personalidades irrequietas, paixões e comportamentos que são retrato da busca por sentido e conflitos que marcam uma geração, homens e mulheres que transitam em seus papéis sociais, escondem por vezes segredos inevitáveis. Tem-se o início a trama com a chegada de Harlan, filho do famoso e pastor Emil Metzdorf a Manaus, onde reencontra a família e os amigos, conhece a bela e corajosa Gabriela. Harlan é o personagem principal, questionador e estudioso, revela-se um conhecedor da fé humana, porém, quando descobre a verdadeira rede de corrupção e negociatas envolvendo as igrejas e a possibilidade do pai estar envolvido nessa trama, percebe que algumas religiões são, nada mais nada menos, que um negocio de fé, Harlan vai em busca do que acredita. Encontrará o que procura, ou apenas o amor e aventuras em busca da verdade? Neste caminho, os embates ideológicos, as relações familiares, sexo, pedofilia, mortes e corrupção são os ingredientes principais desse complexa aventura. Complexa, mas leve, intercalando doses de seriedade com sentimentos, natureza e homem, risos e dramas. Aos conhecedores do estilo de Lauschner, permeado de finas doses de humor, porém incisivo e direto, pode ser uma surpresa as agradáveis descrições das paisagens, retratos impressionantes de Manaus, a promissora e importante região brasileira revela-se em retratos apaixonados, o povo manauense, a cultura, a geografia, os pratos saborosos da culinária local, nada passa incólume aos olhos do autor. Em apresentação da obra, o publicitário Sergio Garcez avisa que, em “um estilo literário raramente visto no Brasil: polêmica, poder, corrupção, sexo, fé e amor são todos os ingredientes que a história nos traz com leveza (...) vislumbra a um filme”. E o cenário desse filme, Manaus sobrepõem-se soberana. Além da natureza fascinante, como podemos perceber essa bela descrição do encontro dos rios “ — O Rio Negro é muito mais velho que o Solimões — começou a explicar —, por isso suas águas são mais limpas, mais lentas e bem mais quentes. (...) parecia como se uma gigantesca mão tivesse pintado, usando duas cores, mas sem definir a linha com precisão (...) impressionante, a luta entre as duas correntes tomava não a forma de uma linha regular, mas um formato mais parecido com o das nuvens " (p 64 ) as paisagens surgem rompendo com a visão exclusivista e de falso ecologismo relacionada à região, e é a urbanidade da região que destaca-se, “ (...) centenas de embarcações vindas do interior com mercadorias e passageiros estavam sendo descarregadas. Outras recebiam a carga. Havia confusão no transito de automóveis, caminhões e táxis, misturados aos carregadores que, num tabuleiro posto na cabeça, levavam de tudo(...)” passeando pelo centro de Manaus, Harlan cruzava entre o “formigueiro de gente”(p 153). Os destinos de Harlan e Gabriela convergem e quase sempre desvendando Manaus e seus restaurantes, ora sofisticados, ora pitorescos, os jovens desvendam também seus sentimentos “tomaram uma caipirinha, enquanto esperavam que o filé fosse servido” o restaurante descrito é pequeno, simples, mas é o ambiente acolhedor, “Harlan fitou, com seu olhar mais terno, o olhar desafiador dela. Sem responder, foi fatiando o filé em seu próprio prato. Depois, pegou uma folha de alface e a pôs no prato, colocou purê no centro da folha e abriu um buraco nele. Com uma colher, pôs o molho do filé na cavidade do purê ”, o autor, nessa minuciosa descrição, pinta uma verdadeira paisagem da culinária manauense “ pegou o filé que havia cortado e rodeou a folha de alface. Simetricamente, espalhou rodelas de tomate por cima da carne. Segurou o prato na mão, à maneira dos garçons e ofereceu-o a ela” (p 90). Não há como não sentir o aroma da envolvente descrição. Assim, não pretendo me ater às ideologias dos personagens, nem sequer detalhar as convicções e aventuras por que passam, tampouco defender ou acusar a obra e suas vertentes filosóficas. Quero apenas deixar um convite ao leitor: aceite mergulhar no universo questionador do livro, ciente de que somente o que nos deixa indiferente não tem valor, e a realidade, mesmo que às vezes dolorida, é o que o homem tem para não se deixar enganar, e perder-se definitivamente de si próprio. Uma obra literária sempre carregara a subjetividade do autor, mesmo com o distanciamento objetivo, são os seus olhos nos apresentando o social, por isso, entre os jogos de poder que Lauschner tão claramente nos mostra, temos alguns retratos fieis de nossa sociedade. Esperamos pela continuação da obra, que, prova de sua contemporaneidade, deixa pistas para os caminhos que poderão abrir-se aos humanos personagens de Aleluia, Irmão! Satanás é Fiel.
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