Clara dos Anjos
Lima Barreto
Editora LaFonte
âªï¸158 páginas
Embora concluído em 1922 este romance é extremamente atual e aborda dois temas urgentes, preconceito racial e social. Através da experiência de sua protagonista mulher, vítima de um mau-caráter o autor enfatizou os males do machismo e destacou principalmente o quanto a sociedade brasileira é machista e costuma oferecer as meninas uma formação bastante repressora.
Evidenciando os conflitos suburbanos da sociedade carioca do início do século XX, Lima conseguiu com suas personagens e toda ambientação do livro ilustrar muito do que existe ainda hoje, preconceito, manipulação, assédio e muito descaso diante das mulheres enganadas.
ðFilha do carteiro Joaquim dos Anjos, Clara dos Anjos se apaixonou por Cassi Jones, um sujeito que embora nem fosse bonito tinha a fama de galanteador (mau-caráter, assediador).
Clara é uma moça negra de família humilde criada de forma superprotetora, enquanto Cassi é um rapaz branco conhecido por ser um modinheiro que assedia moças jovens e até mulheres casadas.
Para mãe de Cassi (a preconceituosa
Dona Salustiana) seria inaceitável uma relação séria entre ambos, fosse pela raça ou posição social da moça. Mas nada impedi que Cassi ainda sim insista em Clara, afim de possuí-la e depois seguir para próxima vítima.
ð¬ Logo no início da leitura percebi que a Dona Salustiana era muito machista não aceitando nem mesmo as repreensões do marido Manuel Azevedo para com o filho Cassi. Pois para ela mesmo desaprovando a relação do filho com moças negras e/ou moças brancas de pouco poder aquisitivo, ela não se importava com o quanto estas eram vítimas de seu filho, se importava apenas com o fato de que ele não assumisse um relacionamento sério com nenhuma delas para manter as aparências da família. Salustiana chega inclusive a dizer que seria melhor ver o filho preso do que comprometido com uma moça negra e/ou pobre.
Em determinado ponto ainda no início da narrativa o autor enfatiza o mau-caráter de Cassi com as seguintes frases "A mórbida ternura da mãe por ele, a que não eram estranhas suas vaidades pessoais, junto à indiferença desdenhosa do pai, com o tempo, fizeram de Cassi o tipo mais completo de vagabundo doméstico que se possa imaginar. É um tipo bem brasileiro."
Geralmente quando nós brasileiros(as) usamos o termo "bem brasileiro" é com bastante ironia que nos referimos em maioria das vezes a algo negativo, a algum ato/atitude não ideal.
Quando Lima escreve "É um tipo bem brasileiro" me parece que ele diz "É um tipo que infelizmente existem aos montes em nossa sociedade".
O Brasil é um país machista, repleto de Cassis enganando mocinhas e até mesmo meninas. São também muitas as donas Salustianas que permitem que o filhos (por serem do sexo masculino) cresçam sem nenhuma força moral que os comprimam.
Já Clara que fora de certa forma paparicada pelos pais, cresceu em um círculo limitado e por isso acreditava piamente nas modinhas românticas. Como uma adolescente reclusa, Clara foi se deixando levar pelos devaneios e exageros das canções, crendo que o amor poderia superar tudo inclusive o preconceito racial. Foi então acreditando nas juras de amor e promessas de casamento do modinheiro, sem temer o difícil destino que a aguardava.
ð¬ Eis aqui um livro muito necessário! Que embora com uma premissa aparentemente simples, consegue denunciar os preconceitos, a realidade suburbana, o machismo e ainda assim surpreender o leitor(a) com boas passagens poéticas e um enredo que garante até assassinato.
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