O vendedor de passados -

    José Eduardo Agualusa

    Gryphus
    2009
    200 páginas
    6h 40m
    ISBN-17: ISBN9788575100920
    Português Brasileiro

    Nada passa, nada expira / O passado é um rio que dorme / e a memória uma mentira multiforme." A letra da canção que aparece logo no primeiro capítulo do livro, resume a idéia central do mais recente romance de José Eduardo Agualusa. É a história de um albino que mora em Luanda, Angola, e que traça árvores genealógicas em troco de dinheiro. Estranho ofício, estranho o personagem principal - o vendedor de passados falsos, Félix Ventura - e mais estranho ainda o narrador: uma osga, um tipo de lagartixa. É ela que vai contar como o albino Félix fabrica uma genealogia de luxo para seus clientes. São prósperos empresários, políticos e generais da emergente burguesia angolana que têm futuro assegurado, mas falta-lhes um bom passado. A vida de Félix anda muito bem, até que uma noite recebe a visita de um estrangeiro à procura de uma identidade angolana. E, então, numa vertigem, o passado irrompe pelo presente e o impossível começa a acontecer. Sátira feroz à atual sociedade angolana, O Vendedor de Passados é uma reflexão sobre a construção da memória e seus equívocos.

    Edições (6)

    Ver mais
    • book cover
    • book cover
    • book cover
    • book cover
    • book cover

    Similares (1)

    Ver mais
    • book cover
    Resenhas (134)Ver mais
    Ana Sá picture
    Ana Sá02/05/2022Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Fico devendo a resenha

    Tenho revirado algumas anotações literárias que estão perdidas na minha gaveta, e então me deparei com uns rabiscos sobre este livro de Agualusa, um escritor que já me emocionou muitas vezes. Em um canto, talvez de mim, encontrei um trecho que retirei de “O vendedor de passados”, e depois acabei sendo encontrada por um pequeno texto que escrevi logo ao finalizar a leitura, há uns bons anos. O trecho do livro é este: “A memória é uma paisagem contemplada de um comboio em movimento (...). São coisas que ocorrem diante dos nossos olhos, sabemos que são reais, mas estão longe, não as podemos tocar. Algumas vezes já estão tão longe, e o comboio avança tão veloz, que não temos a certeza de que realmente aconteceram”. O texto que saltou de mim, à época, é este: “ontem eu li um trecho bonito num livro do agualusa. era sobre a viagem de trem que é a vida, ou ao menos a memória que temos dela. aquela ideia de ver a vida passar bem rápido a partir da janela de um comboio. uma senhora que rega o jardim, a criança que joga bola, o rapaz que segue junto ao cachorro. muito rápido, a ponto de não sabermos se o que nos atravessou era sonho ou realidade. a flor do jardim que talvez nem estivesse lá, o movimento do animal que nos escapa... afinal, o que continua existindo depois desse (des)enquadramento das vidas que a gente não consegue ao certo capturar? será que ao entrar em casa, aquela senhorinha fez café? será que a bola do menino avançou pros lados do trilho? tinha mesmo uma bola ali? lembrei de mim. eu, andando de trem em dezembro, digerindo uma fala recente de uma amiga querida: “é, aninha, às vezes a gente leva cada susto que chega a parecer que a vida segue enquanto ficamos paralisadas. você já teve a sensação de estar assistindo à sua vida, de tudo seguir e você permanecer?”. sim. ficar perdida em si e já não saber o que é sentimento inventado e o que é amor ou dor de beliscão. uma paralisia que nos leva a desejar até mesmo a pressa. o querer seguir, seguir rápido, correr. mas será que dá para acelerar sem abrir mão da lambida do cão? acelerar, mas com tempo suficiente para sentir o cheiro da terra molhada na qual pisamos pelo caminho? ficar à deriva tem disso. começar a querer escapar, mas sem deixar escapar.  ... como será que a gente faz pra correr da vida sem deixar o que há de vida pra trás?  então o trem em que eu estava parou. entrou uma moça equilibrando um copo de café na mão. observei com aflição a coreografia daquela mulher para impedir que o líquido quente beijasse sua blusa. uma dança conduzida pelo trem frenético que deixa tudo e todos pelo caminho. mas não houve tragédia. e logo meu receio do tsunami de café deu lugar ao alívio da certeza de que, afinal, em algum lugar alguém fez café. eu posso sentir. alguém fez café. a senhorinha talvez. ao entrar em casa, depois de regar o jardim, a senhorinha fez café. em algum lugar há café fresco, inventado ou coado. e já está. e é o que resta. passa a vida, mas, por sorte, também passam café.” Obs.: do Agualusa, eu prefiro “Teoria geral do esquecimento”, mas calhou de esta passagem de “O vendedor de passados” cicatrizar mais fundo em mim. Ah, vale dizer que este filme foi adaptado pro cinema aqui no Brasil, mas eu ainda não assisti (o protagonista é o Lázaro Ramos!). De resto, também sei que Agualusa posta fotos lindíssimas no Instagram, algumas delas retratando sua amizade com Mia Couto.

    75 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    4 / 1185
    • 5 estrelas30%
    • 4 estrelas38%
    • 3 estrelas26%
    • 2 estrelas5%
    • 1 estrelas1%