Os sons da fala constituem o primeiro aspecto que chama nossa atenção quando nos deparamos com uma língua qualquer ou com um dialeto de nossa própria língua, mas diferente daquele que falamos. Despertam nosso interesse seja por sons cuja pronúncia varia relativamente à nossa própria pronúncia, seja por sons “diferentes” daqueles de nossa língua e que existem em uma língua estrangeira que nos propomos a aprender, seja ainda por diferenças na prosódia, que fazem uma língua ou um dialeto parecerem mais ou menos “cantados” do que nossa língua ou nosso dialeto. Quem nunca reparou no “s” chiado de um carioca, ou no “r” retroflexo, ainda insistente e inapropriadamente chamado caipira, de paulistas, mineiros, paranaenses, ao pronunciarem uma palavra como porta? Quem nunca se deparou com o “th” do inglês, e a dificuldade inicial de pronunciá-lo, assim como com o “r” vibrante do espanhol, em palavras como rato? Pois bem, a Linguística – grosso modo definida como a ciência da linguagem – ao abordar seu objeto de estudo, enfoca partes dele sob o argumento de que a compreensão das partes pode levar à compreensão do todo. Por isso, estabelece disciplinas várias, cada uma voltada para um aspecto específico da linguagem. O nível sonoro da linguagem, entretanto, é contemplado por duas disciplinas: a fonética e a fonologia. O que muda de uma para outra é o recorte que se faz da metodologia que se segue para abordá-lo. Este livro foi, então, elaborado de modo a apresentar o objeto e a metodologia de análise, tanto da fonética como da fonologia. Assumimos em princípio a distinção entre as duas disciplinas – herança ainda do estruturalismo linguístico que se mantém no cenário atual – por uma questão didática: consideramos que, dessa maneira, a exposição ficaria mais acessível do que se assumíssemos uma outra perspectiva, mais recente, que considera não haver a dissociação entre fonética e fonologia, o que implica tratar todos os aspectos sonoros das línguas em um mesmo e único nível, o fônico. Para apresentar o objeto e a metodologia de análise da fonética, recorremos inicialmente a uma fonética articulatória impressionística, ou seja, que envolve a conscientização sobre os articuladores acionados para produzir um determinado som da fala. Em seguida, apresentamos a metodologia de análise da fonética acústica, que se tem difundido no Brasil nas últimas décadas, e requer essencialmente que aprendamos a “ver” os sons. É esse aprendizado que tentamos construir, relacionando o tempo todo o dado acústico ao dado articulatório, como objetiva a Teoria Acústica de Produção da Fala (FANT, 1960), modelo que fundamenta nosso procedimento analítico.
Língua Portuguesa I: Fonética e Fonologia -
Adelaide H. P. Silva
IESDE
2019
154 páginas
5h 8m
ISBN-13: 9788538761624
Português Brasileiro
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