Heimat - Ponderações de uma alemã sobre sua terra e história

    Nora Krug

    Quadrinhos na Cia.
    2019
    288 páginas
    9h 36m
    ISBN-13: 9788535932751
    Português Brasileiro

    Best-seller na Alemanha e vencedor do National Book Critics Circle na categoria autobiografia, Heimat é um romance gráfico brutalmente tocante sobre identidade, história e o significado da palavra “pertencer”. “Uma paisagem ou localidade real, imaginária ou construída, à qual uma pessoa associa uma sensação imediata de familiaridade.” Esse é o significado da palavra alemã “heimat” que neste livro se combina a uma pergunta-chave: “Como saber quem você é sem entender de onde você veio?”. Nora Krug nasceu décadas após a queda do regime nazista, mas a sombra da Segunda Guerra Mundial parecia sempre à espreita durante sua juventude. Ela, no entanto, sabia pouco sobre o envolvimento de sua família na guerra, seus pais e avós nunca falavam sobre isso. Depois de doze anos vivendo nos Estados Unidos, decidiu que precisava olhar para trás e, principalmente, fazer as perguntas que nunca tinha feito. De volta à Alemanha, Krug visitou arquivos, realizou pesquisas e entrevistou familiares, descobrindo histórias como a de seu avô materno, que foi mecânico e motorista durante a guerra, e a do irmão de seu pai, Franz-Karl, que morreu ainda adolescente quando era soldado da SS. O resultado é um livro único, que evidencia a brutalidade da catástrofe do Holocausto ao mesmo tempo que apaga as fronteiras entre diário, narrativa em quadrinhos e caderno de colagens e anotações. Enquanto Krug mergulha na hora mais escura do século XX e tenta entender o lugar de sua família nisso tudo, somos levados por um relato incisivo, perturbador, uma obra sem igual no universo das HQs. “Em um irresistível álbum de desenhos e colagens repleto de acertos de contas com o passado, Nora Krug narra a história da sua família com a franqueza das imagens e da escrita e um desamparo perturbador, que encontra ecos hoje em nossa vida. Heimat é precioso, saboroso e ― nem é preciso dizer ― altamente recomendado.” ― Chris Ware “Neste extraordinário livro de memórias, a autora disseca o antissemitismo no passado de sua própria família e a culpa nacional alemã sobre o Holocausto – além de refletir sobre a recente volta à cena da extrema direita ao redor do mundo.” ― The Guardian

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    Vania Cristina Ribeiro14/06/2024Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Pecado herdado

    Vejo poucas pessoas falando dessa obra e acredito que ela mereça ser melhor divulgada. É uma mistura de livro ilustrado, quadrinho, caderno de memórias (scrapbook) e de arte (sketchbook). Muito interessante para quem gosta de história europeia, memória de família e jornada pelo autoconhecimento. O livro é organizado como uma narrativa de mistério e de investigação. Há descobertas e decepções, encontros e perdas, que vão desencadeando situações que mexem com diferentes emoções. Trata da vida da própria autora, uma artista alemã, nascida em 1977, que imigrou para os Estados Unidos. No seu novo país e em suas viagens é obrigada a encarar o preconceito que ainda existe sobre a população alemã, cujos governantes foram responsabilizados pelas duas grandes guerras que arrasaram cidades europeias na primeira metade do século XX, e acabaram promovendo um genocídio cruel contra judeus e outras minorias. Mas esse preconceito só reforça um problema ainda maior: os próprios fantasmas que assombram o povo alemão, dentre eles o mais devastador, a culpa. O que a autora quer é entender o que significa ser alemão. Está buscando conhecer, com profundidade, a palavra alemã heimat, um tipo de lugar de pertencimento, real ou imaginado. Num primeiro momento tenta através do encontro com outros imigrantes, através de tradições alemãs perpetuadas nos EUA. Mas tudo soa artificial e, às vezes até problemático (afinal o pensamento de extrema direita que caracterizou o nazismo anda bem vivo hoje em dia, inclusive no território norte-americano). Nesse momento, Nora Krug constata que deve fazer sua busca na história da própria família, no próprio território alemão. Seus antepassados colaboraram com o regime nazista de alguma forma? Como viveram e morreram? Quais foram suas perdas e conquistas? Há algo além desse sentimento de culpa e humilhação? Por que existe tanto silêncio no seio das famílias, tantas palavras proibidas? O que aconteceu no período das guerras e pós guerra e não está na narrativa oficial, no currículo escolar? É possível sentir orgulho das próprias origens? Estamos falando de um país derrotado, que não ensina a letra do hino nacional para suas crianças, que não carrega a bandeira com orgulho durante um jogo esportivo, que não sabe usar seus símbolos nacionais quando vence uma partida de futebol por 7 a 1. Como comemorar o título de campeão numa Copa do Mundo quando a língua evita superlativos e palavras como herói, vitória e orgulho? A autora nos conta de um livro infantil que amava e cuja principal mensagem é que "você não deve sentir pena de si mesmo se você é o responsável pela sua própria derrocada." Os alemães sabem (e diariamente se recordam disso, nas escolas principalmente) que muitos crimes imperdoáveis foram praticados e que a omissão da população também foi criminosa. Mas não existe nada além disso? Não existe um local acolhedor de pertencimento em suas raízes? Para mim, essa leitura foi uma experiência muito rica de empatia. Me ajudou a entender a existência de um carma coletivo, de um pecado herdado... Em nenhum momento a busca de Nora Krug deixa de lado a verdade, ao contrário. E não é desrespeitosa com as vítimas do holocausto, fala dos séculos de perseguição aos judeus, de sua eliminação total em algumas cidades e de personalidades locais que foram apagadas. Quando reencontra as riquezas dos bens imateriais da Alemanha dá a eles espaços de destaque no livro. São riquezas compartilhadas inclusive com os judeus alemães que imigraram ou que morreram. A eles também pertenciam, faziam parte de seu heimat. A autora encara o passado como necessário para entender o presente, e a ancestralidade como de importância vital para o autoconhecimento. Alguns podem achar uma leitura rasa, porque ela escolheu usar das artes visuais para compor boa parte de sua narrativa. Mas as palavras são importantes no livro, e seu uso é objetivo e certeiro. Os amantes dos quadrinhos talvez achem texto demais, mas o formato HQ é apenas uma parte da narrativa. É um livro simples, mas durante a leitura, pude extrair muito da jornada de Nora Krug, que serviu para enriquecimento do meu próprio caminho. Me identifiquei com sua busca, embora as raízes e as histórias sejam diferentes. Acredito que você também pode se identificar, não importa quais sejam suas origens ou motivações.

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