Jamais me interessei pela obra de obra de J.H. Lovecraft até ler ?Na Cripta?, narrativa de sua autoria que foi selecionada para fazer parte da antologia ?Contos de Terror?, da Companhia das Letras.
Portanto, o lançamento de ?O Chamado de Cthulhu e Outras Histórias?, primeiro volume da Biblioteca de H.P. Lovecraft pela mesma editora, veio à calhar, já que estava à procura de um livro que reunisse o essencial de um escritor que falecido em 1937, até hoje inspira uma seita de discípulos e reúne uma legião de admiradores.
Nesse caso, o essencial são dez histórias curtas ? Dagon, Ar Frio, O Modelo de Pickman, A Música de Erick Zann, O Assombro das Trevas, O Chamado de Cthulhu, O Horror de Dunwich, A Sombra Vinda do Tempo, A Casa Temida e A Sombra de Innsmouth ? e apesar da indiscutível qualidade da seleção, reputo como destaques a primeira e a sexta narrativas.
Publicado em 1919 na Revista The Vagrant, Dagon é o conto de estreia de Lovecraft. Na época, ele estava com 27 anos e decidira abandonar a poesia, que não lhe rendera dinheiro nem popularidade. Com poucas páginas, seu narrador é um dependente de morfina, que está prestes a ficar sem a droga e pretende cometer suicídio ao concluir um perturbador relato sobre um episódio que transformou sua vida. Ele está associado a uma divindade idealizada a partir de um antigo deus, de origem semita, que representa a fertilidade e a abundância na pesca. Por sinal, este deus também é citado no Antigo Testamento, mais especificamente em José e Samuel, tendo como evento mais conhecido a destruição de um de seus templos por Sansão.
Já O Chamado de Cthulhu é o conto que mais atraiu minha curiosidade, pois é considerado a obra-prima de Lovecraft. Publicado em 1928 na Weird Tales, ele narra uma investigação sobre uma criatura cósmica, de aparência ciclópica e abismal, que está em estado letárgico, aguardando o momento de despertar medìante o auxílio de um culto multimilenar de adoradores, algo que desencadeará o fim da humanidade. Exibindo uma estrutura interessante ? várias histórias dentro de uma história ? ele exibe outra peculiaridade: a pronúncia do nome da tal criatura. Não há consenso sobre a forma correta e comentá-se que o próprio Lovecraft, fugindo do consenso e causando celeuma, costumava pronunciar Cthulhu de diferentes modos.
Em linhas gerais, o escritor revolucionou o terror na literatura ao inserir elementos fantásticos, comumente associados a fantasia e a ficção científica. Essa novidade foi nomeada por ele como Comicismo ou Horror Cósmico e caracteriza-se por um ciclo de histórias assombradas por um panteão de monstros e seres fantásticos ? conhecida como Cthulhu Mithos ? e um grimório fictício ? intitulado Necronomicon ? através do qual humanos podem comunicar-se com esses seres.
Com um estilo formal e uma escrita polida, marcada pelas adjetivações e inúmeras descrições, um dos méritos de Lovecraft é transmitir credibilidade a seus contos, a ponto de até hoje, alguns leitores considerarem realidade sua imaginação, inclusive, os aspectos mencionados transparecem na boa tradução de Guilherme da Silva Braga.
Se esse é um dos méritos dessa edição, seu ponto nevrálgica é a ausência de Fortuna Crítica para uma obra que não a dispensa pela complexidade e curiosidades, em especial, se levar em conta que não se trata de uma publicação avulsa mas de uma série de livros, sendo esse o apenas o primeiro. Finalmente, quanto aos aspectos físicos, não tenho subsídios para opinar, pois comprei o e-book, que com boa diagramação e índice ativo para os capítulos, atendeu minhas expectativas.