“Não existe uma memória pura pra mim, toda memória é resultado de um diálogo entre o vivido e o sonhado”
O escritor Bartolomeu Campos de Queirós nasceu em Pará de Minas Gerais e viveu sua infância em Papagaio, outra cidade do interior mineiro, uma cidade que tinha apenas três ruas. É o terceiro de seis filhos: dois meninos e quatro meninas. O pai era caminhoneiro e a mãe, uma grande leitora e dona de casa.
Sua infância foi marcada pela presença do avô paterno, sujeito encantado pelas palavras, que fez da própria casa um livro ao escrever todos os acontecimentos da pequena cidade nas paredes. E foi marcada, sobretudo, por uma mãe amorosa que ficou doente por vários anos vindo a falecer quando ele tinha apenas seis anos de idade.
O livro traz uma coletânea de textos organizada por Júlio Abreu, um trabalho que agrupou vários textos do escritor, proferidos em aberturas de eventos ou publicado em diferentes momentos da sua vida profissional, abrangendo o período entre 1983 a 2010. A obra pertence a uma série da ‘Editora Autêntica’ intitulada ‘Conversas com o professor’.
Por ter exercido a função de professor numa escola experimental vinculada ao Ministério da Educação, Queirós apresenta, nos escritos selecionados, um diálogo de certa forma direcionado à educação e ao fazer docente, o que o coloca próximo aos anseios e questões do mundo escolar; bem como se propõe a conversar sobre o relacionamento que temos com as palavras numa reflexão profunda e talvez um pouco desconcertante.
Os textos escolhidos foram divididos em duas partes: a primeira, denominada ‘Leitura e memória’, é formada por sete textos; a segunda, ‘Leitura e educação’, por quinze textos. Os escritos seguem um encadeamento sequencial de temas, em que o organizador procura delinear imagens de um ‘Queirós’ que foi se constituindo num percurso de relações e de interações com diferentes personagens da vida real, marcando sua personalidade e sua intelectualidade, a princípio como leitor, depois como professor, para então identificar-se e consolidar-se como escritor.
O percurso e a produção literária de Queirós podem ser explorados em investigações analíticas que busquem desvelar significados das relações do sujeito com a linguagem e com a memória. Esta intencionalidade se acerca das relações que se evidenciam, independente da modalidade de leitor, autor e obra, na esfera mais ampla dos vínculos sociais que seres humanos estabelecem entre si no decorrer da existência, que se inicia na fase infantil, perpassa a juventude, a maturidade e o envelhecimento.
A primeira parte denominada ‘Leitura e memória’ nos traz textos que revelam as memórias de Queirós nos convidando a ler a partir desse tópico reconstituindo a infância através do relato de pequenos acontecimentos do cotidiano, tecidos com a preparação de cada coisa para cada tempo, cada festa, cada brincadeira, com a cura das doenças, com as canções da chuva e do sol, com os ritos de nascer e partir.
Uma vida simples, uma cidade do interior, personagens comuns, o tempo correndo liso e manso. É esta simplicidade do desenrolar da experiência, do resgate da narrativa oral, da possibilidade de preservar a infância, que a magia da literatura deste escritor nos permite a dar asas à imaginação, como abrir os olhos para a relação vasta, profunda, polifônica entre mundo subjetivo com o objetivo.
Certa vez na aula de ‘Português Instrumental’ no meu curso de bacharel em Direito, a professora pediu-me para ler um livro de Roland Barthes, ‘A Análise Estrutural da Narrativa’ e foi a partir dessa leitura que eu compreendi que a narrativa é companheira inseparável do homem, é internacional, trans-histórica e transcultural como a própria vida; é uma forma de utilização da linguagem, fundamental à construção de significado, de cultura.
E o narrador, em geral, é um intérprete daquilo que narra. Interpretar não significa apenas traduzir ideias para uma linguagem mais acessível, significa bem mais, trazer o objeto para cenas cujos valores e perspectivas são alteridades em posição dialógica. Nesse sentido, os diálogos desse livro discutem conosco a técnica da escrita e, principalmente, a maneira como as histórias nos tocam.
Com a sua escrita poética e metafórica, Queirós nos revela sua capacidade narrativa, que une imaginação e memória, a infância ‘mágica’ deixando claro que escrever é, muitas vezes, um ato de coragem - é se expor, e isso pode ser tão aterrorizante quanto pular de paraquedas pela primeira vez. A coragem não garante felicidade, mas pelo menos deixa a vida mais interessante!
O compartilhar de diversas experiências de leitura, de vida ou de circunstâncias de aprendizagem entrecruza-se, revelando traços de sua convivência com familiares, com professores e com os livros. Os textos priorizam experiências que foram significativas para sua formação profissional e humana.
A infância de Queirós foi vivida no ritmo característico de pequenas cidades interioranas espalhadas por esse país: casas de bananeiras; desejos escondidos; amores não compartilhados; novenas e benzedeiras e, principalmente, solidão e silêncio, que o tornou poeta de olhar e ouvidos atentos ao mundo.
Embora sua obra seja assumidamente autobiográfica, com elementos de sua infância alcançados através da memória, em várias de suas entrevistas Bartolomeu afirma que toda memória é fantasiosa, nos levando a entender que ela não pode ser analisada simplesmente como sua biografia.
É certo que é forte o pacto autobiográfico, entretanto, analisei a obra como um espaço aberto polifonicamente em que falam o menino, o autor, o narrador, a personagem, as representações de um tempo e lugar específico.
Na segunda parte da coletânea, os textos foram sequenciados de forma a retratar um Queirós envolvido com seus escritos, com o ato de ler e com a educação. A forma de ordenação e de disposição dos textos permite o aguçar de um imaginário de como sua personalidade e sua intelectualidade foram se construindo no decorrer do tempo, a partir de suas variadas experiências com pessoas queridas, com a escola e com os livros.
A sua participação na educação e sua relação desta com a literatura contribuiu para diferenciadas temáticas da área da educação, como as infantis, propondo-se em obras produzidas ao repensar sobre a reflexão, discussão e ampliação do ser criança; a importância e beleza da arte de ensinar e aprender; o transitar incessante de livros para crianças conclamando a inserção do ser adulto, envolvido nas artimanhas da relação entre criação, crítica e recriação; reflexões com personalidades brasileiras, sobre diversas atividades destacando-se a leitura; valorização do ato de ler como de reinventar o mundo, o de tecer diferentes manifestações culturais que jorram de pessoas comuns, não letradas, não inseridas na comunidade intelectual, com as quais existem possibilidades de explicação de interpretações construídas sobre o mundo.
Bartolomeu refere-se à Escola como algo para se olhar com “olhos desconfiados”, conforme ele mesmo dizia. Quando foi para a escola, já sabia ler, mas sabia também que precisava esperar “autorizações”.
Enquanto Educador, além de ter uma produção Didática, mais voltada para Arte/Educação, de ser um autor largamente estudado na academia, foi notório a sua atuação no campo educacional, seja inicialmente, como professor, seja como participante ativo em ações da Secretaria Estadual de Educação, seja como autor convidado em várias ações e eventos de incentivo à leitura, em todo o Brasil, haja vista a sua participação em diversas antologias.
A obra nos permite ter um diálogo com as ideias e com o pensamento crítico de Queirós a respeito da educação, da leitura; dá-nos a conhecer os escritos de um autor que não tem reservas ao escrever sobre seus sonhos e expectativas sobre a educação brasileira, ou que não mede palavras para dirigir-se ao professor.
A leitura da obra possibilita, ainda, um diálogo conosco, com cada um de nós, com a nossa “biblioteca interior”, como diria J. M. Goulemot na sua emblemática obra ‘Da leitura como produção de sentidos’. Trata-se de uma leitura que ora vai adquirindo sentidos a partir daquilo que se leu na “anterioridade” e que ora incita desejos de escrita.
Lembrei-me também das palavras de Roland Barthes no seu livro ‘O Rumor Língua’, em que ele dizia que “não é que necessariamente desejemos escrever como o autor cuja leitura nos agrada; o que desejamos é apenas o desejo que o escritor teve de escrever, ou ainda: desejamos o desejo que o autor teve do leitor enquanto escrevia, desejamos o ame-me que está em toda escritura’. Tanto essa obra de Barthes quanto a obra de Queirós são leituras que eu recomendo fervorosamente.