Sinopse: Origo, o padre deste romance, recebe uma carta inusitada, uma “mensagem recebida em um papel amassado vermelho, na forma de maçã.” E é aí que começa um trabalho de investigação com a morte de um homem que tinha um ventre onírico, uma espécie de máquina do mundo, que nos conduziria aos sonhos perfeitos, de acordo com nossas questões existenciais. O delegado Campello no livro dá uma incumbência a Origo, investigar o assassinato de um marujo, cuja suspeita recai numa mulher, Branca. [...] O cenário do livro se dá no Rio de Janeiro, principalmente em Copacabana, com sua Avenida Atlântica em estado de combustão e energia em meio ao caos antigo. O medo perpassa suas páginas, uma sensação de morte e perda de tudo que se conhece, atravessa dolorosamente os personagens que passam por sofrimentos algozes, onde o medo do inesperado, que pode levar ao fim da vida, o terror aos ferimentos e sofrimentos de um passado que se deseja esconder. [✒️ por Alexandra Vieira de Almeida]
Só os objetos salvam! -
Roberto Pio Borges
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Ver maisO retrocesso humano consagrado - Mais uma vez. A Literatura brasileira da melhor qualidade existe.
A palavra utopia foi criada a partir dos termos gregos u (prefixo empregado com conotação negativa) e tópos (lugar), significando não-lugar ou lugar que não existe. O termo apareceu pela primeira vez na obra homônima do escritor inglês Thomas More, por volta de 1516. More tece críticas à sociedade real em que viveu e construiu uma ilha idealizada, geograficamente indefinida, onde a sociedade aboliu a propriedade privada e a intolerância religiosa, e todos viviam felizes em um ambiente justo, igualitário. Ao lado do que pretende ser o desenho de uma forma de vida considerada perfeita, ou pelo menos superior, a distopia marca o desvio, a deturpação de um quadro de vida conhecido. Geralmente, são obras que se caracterizam pela existência de totalitarismos, autoritarismos e opressivos controles sociais. Em suas criações ficcionais, alguns autores retrataram o futuro de uma maneira negativa, com um desenlace catastrófico para a humanidade. Uma sociedade oposta à utópica. E ainda mais negativa porque o Estado normalmente é corrupto, as normas que visam ao bem comum são flexíveis e a tecnologia é utilizada como ferramenta de controle, seja dos indivíduos, do Estado ou de corporações. Em suma: as características negativas da realidade são reforçadas. Utopias ou distopias são, por força, tendencialmente fantasistas, radicam numa realidade que é variável, em função do ponto de partida de cada nova criação. De A República (cerca de 380 a.C.), de Platão, a Fahrenheit 451 (1953) escrita por Ray Bradbury. De Utopia (1516), de Thomas More, a Laranja Mecânica (1971) de Anthony Burguess, a humanidade vem projetando possibilidades para o seu futuro. Atualmente assistimos a certa recorrência de obras com temática distópica e perguntamo-nos: por que a ficção contemporânea tem recorrido à narrativas e representações distópicas? Teria o pessimismo e o medo do futuro triunfado sobre as utopias? Acaso a consciência histórica moderna estaria sucumbindo diante da emergência de uma nova consciência histórica, mais cética e pós-moderna? As tensões na temporalidade e a ampliação de regime de historicidade presentista seriam capazes de promover um fechamento do futuro? Seja como for, exercitar a memória e as projeções de futuros possíveis certamente pode auxiliar o delineamento corrente de caminhos à sociedade. Caminhos nos quais se torne cada vez mais difícil reproduzir desgraças a nós mesmos e aos outros. Somos levados a tecer essas considerações ao nos deparamos com a leitura de Só os objetos salvam! do psicólogo e escritor Roberto Pio Borges. Obra que, para além de transportar o leitor a uma projeção futura prenhe de significados quanto às tendências de nossa tresloucada sociedade atual, logrou realizar um texto ficcional que prende e cativa o leitor da primeira à última página. Realmente um livro brilhante. O enredo gira em torno do padre aposentado Antonio Origo que vive em companhia de uma robozinha em forma de mulher linda. Origo não é obrigado a trabalhar, nem providenciar seus alimentos, e muito menos, fazer qualquer atividade que exija esforço físico. Fica tudo a cargo da ajudante Agnes que é capaz inclusive de travar diálogos bastante interessantes. Graças aos avanços tecnológicos da época, o padre assim como todos os demais humanos, têm implantados em seus corpos nanorobôs que, ao circularem em suas veias e artérias restauram qualquer lesão que por ventura ocorra ou doença que se instale, afastando definitivamente a morte. Naquela sociedade há inclusive uma banheira na qual as pessoas se deitam, e ali vivem em uma eterna vida de sonhos. Sonham em ser o que quiserem e bem entenderem para suas vidas. E há mais ainda, o suprassumo da vaidade humana. A existência de um determinado elixir faz com que os corpos assumam a forma e a idade que bem se quiser. Que beleza hem? Quem não queria uma vida assim? Zero esforço, tudo à mão, nenhum trabalho, e a vontade com as velas soltas à imaginação. Mas acontece, como seria de supor, que o homem não pode ser reduzido (ainda que o deseje), a uma existência assim. O padre se questiona porque sente que há em si algo mais além da matéria e dos grosseiros sentidos. Começa a se questionar sobre a sua quase esquecida alma. Paralelamente a isto, recebe uma intimação de um delegado para que investigue o assassinato de um certo marujo que segundo investigações preliminares foi morto por uma bela mulher. Aí o enredo toma corpo e ganha grande vigor filosófico, porque toda a trama aborda as questões vitais que sempre preocuparam a humanidade. A vida, a morte, quem somos, o que somos, e para onde vamos. Vale a pena observar que aquilo que se delineia à princípio como um mundo perfeito, tem suas fissuras paulatinamente disseminadas ao longo da narrativa que segue com a investigação sobre o assassinato. Através de um protocolo de leitura muito inventivo (fazendo links com versículos bíblicos inventados) o autor suscita no leitor uma reflexão acerca da sociedade contemporânea, e o que vai se revelando ao longo das 218 páginas é em verdade, uma distopias extremada e muito bem engendrada que pode ser lida inclusive como uma grande metáfora dos eternos desejos humanos ou a cristalização de mundos alternativos ou paralelos, baseados na experiência social contemporânea. A começar aí uma grande sacada da obra -, interrogando as opções e escolhas humanas ante a natureza que nos cerca e se impõe a revelia completa da vontade humana. Somente esse aspecto já constitui uma reflexão crítica muito pertinente sobre as nossas limitações ante a natureza. Essas e outras questões essenciais e presentes na trama de Borges, nos fazem lembrar do filósofo francês Gilles Lipovestky que, assim como o protagonista e outros personagens do romance, se ocupam direta ou indiretamente com questões como o aumento da liberdade; a decadência das tradições que guiavam nossas vidas; o pensamento individualista e o culto ao prazer e à felicidade imediatos. Pergunta-se o filósofo francês: de que nos serve o passado se o centro de gravidade temporal de nossas sociedades se deslocou do futuro para o presente? Passado e futuro perdem sua importância, o presente se cristaliza. O que hoje parece ser a nossa cruel realidade é que o próprio conceito de utopia atrofiou-se, a tal ponto que passa a denotar a impossibilidade de qualquer transformação social mais radical. Veja-se o vácuo existencial para o qual caminhamos. O de sequer pensarmos em projetos futuros. Decretamos o fim da história, o individualismo burguês atingiu o seu ápice em uma ruptura entre as esferas da vida privada e pública, (o padre a partir do momento em que inicia as investigações, tem todas as suas ações transmitidas para o planeta inteiro). E sob a égide de um discurso silenciador, o homem é visto como sendo incorrigível, e traz em si uma natureza tal, que qualquer organização social livre de exploração e de desigualdades sociais se apresenta como impensável. E perplexos, chegamos a considerar seriamente que, depois das atuais crises econômicas de recorrência cíclica, em que os Estados estão submetidos ao controle da iniciativa privada e das megacorporações, em que a lógica do lucro se sobrepõe às questões ecológicas e sociais, em que matamos Deus ou qualquer ideia de uma inteligência superior à nossa imbecilidade, em que a desigualdade social é mantida em níveis elevados, desaguaremos na realidade apresentada no romance. O livro não toca nessas últimas questões, mas somos levados a crer que após uma fase assim, facilmente se abrirão as portas da terra de ninguém. Da zona geral e irrestrita. E a conseqüência prática é que seremos sistematicamente levados a fechar os olhos para o mundo. Ou por outra, seguindo a distopia do senhor Roberto Pio Borges, uma humanidade covarde, a viver a base de mingaus, e a temer um simples cachorro, ou a chuva, a sonhar com realidades paralelas, e/ou a endeusar objetos, sobretudo os eletrônicos que distraem os nossos sentidos infantilizados. As investigações do padre o levam a conhecer uma bela mulher de uma pureza existencial digna de nota como a personagem Branca. A travar diálogos filosóficos com um surfista, a conhecer outros robôs, a reencontrar fantasmas do passado como um sujeito que tem como característica física o uso de um bigodinho muito semelhante ao de Hitler. Veja-se as potencialidades simbólicas desses personagens. O fato é que a razão e o conhecimento científico (tão caros à utopias passadas), perderam sua legitimidade em função da não concretização das promessas do projeto iluminista. E estamos á braços com o pós-modernismo e sua descrença em um projeto histórico específico para o homem que o mobilize em termos da ação política, e que nos faz desconsiderar quaisquer ideais a serem realizados no futuro, encerrando-nos compulsoriamente no imediatismo do presente, no consumo do efêmero e, quando muito, em lutas políticas de ocasião ao sabor de interesses pontuais. Um livro como Só os objetos salvam! nos alerta para a urgência de reconhecermos no presente a necessidade de transformações sociais que nos aproximem de um ideal humanista, com a meta libertária de sermos, e não de termos, consumirmos, ou parecermos. Há a necessidade de que surja um pensamento revolucionário que, se não transforme a atualidade, prepare potencialmente um tempo de agora ao subjetivar os indivíduos como entidades desejantes de profundas transformações sociais e não meros objetos ou autômatos. Que esse pensamento venha a se constituir vigoroso instrumento de reflexão acerca dos efeitos de barbárie que nos cercam na contemporaneidade. EM TEMPO: A OBRA SERÁ LANÇADA NO PRÓXIMO DIA 25 DE OUTUBRO (SEXTA-FEIRA). NA CASA DE RUI BARBOSA RUA SÃO CLEMENTE Nº 134 BOTAFOGO RIO DE JANEIRO A PARTIR DAS 18:00H. E QUEM NÃO PUDER IR, ENCONTRA O LIVRO PARA COMPPRA E PRONTA ENTREGA EM: : https://www.editorapenalux.com.br/loja/so-os-objetos-salvam E, ainda, quem desejar ver um depoimento do autor sobre, acessa o vídeo lá em: https://www.youtube.com/watch?v=dqRGwsoLv9o Livro: Só os objetos salvam! Romance de Roberto Pio Borges Editora Penalux, Guaratinguetá - São Paulo - SP , 2019, 218 p. ISBN 978-85-5833-558-4
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