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    Poesia completa de Mario Quintana (Nova Aguilar) -

    Mario Quintana

    Nova Fronteira
    2005
    1016 páginas
    1d 9h 52m
    ISBN-13: 9788520929572
    Português Brasileiro
    4.5
    251 avaliações
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    Leandro Bonizi picture
    Leandro Bonizi19/12/2022Resenhou um livro
    3 (Bom)

    Primeiramente, desculpem-me pelo tamanho da resenha, pois o livro tem mais de mil páginas. Há nessa obra certo apego ao quotidiano e ao coloquial, postura simbolista inicial para a modernidade decisiva, a propensão ao animismo é fartamente explorada, poesia intimista, opressão do tempo. Achei que muitos textos dessa edição não são da modalidade poesia, nem prosa-poética. Apenas simplesmente pensamentos, divagações etc. Alguns parecem mini crônicas. Alguns poemas se repetem em outras obras diferentes. Os primeiros poemas são sonetos, quando eles estavam em desuso, depois muda a forma. A mais comum são as as quadras. Faz também poemas em formas de soneto sem seguir a métrica. Escreve muito poema "Poema-piada". Faz muitas especulações filosóficas sob o disfarce do humor. Usa muito de animais e prosopopeias com eles. Os títulos do poema ocasionalmente seguem uma ordem de tema, às vezes um continuação ou contraponto do próximo. Emn alguns demonstra religiosidade, mas às vezes comete o "pecado" de falar o nome de Deus em vão. Refere-se frequentemente ao seu Anjo da Guarda. O País de Trebizonda foi uma invenção sua, e Lili, sua filha, definida como "meu fantasminha predileto", também inventada. Afirma não ter engajamento. Afirma ser sempre criança. São poemas bem "coloridos". Reflete muito do ato de escrever e de ser escritor. Segue-se alguns que agrupei: Esse me dá uma lição, ainda mais no que concerne em expor minha depressão: "LIMITES DA CONVERSAÇÃO Há certas coisas que não haveria mesmo ocasião de as colocarmos sensatamente numa conversa — e que só num poema estão no seu lugar. Deve ser por esse motivo que alguns de nós começaram, um dia, a fazer versos. Um modo muito curioso de falar sozinho, como se vê, mas o único modo de certas coisas caírem no ouvido certo." Sobre saber ler e saber escrever: "O TRÁGICO DILEMA Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer é porque um dos dois é burro." Outro poema piada sobre o ato de escrever: "DA LIBERDADE CRIADORA Nunca me releio... Tenho um medo enorme de me influenciar. É verdadeiramente catastrófico quando um autor se transforma no seu discípulo." Gostamos dos poemas que expressam os sentimentos com os quais nos identificamos: "Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles." Esse segue a mesma ideia do anterior: "A REVELAÇÃO Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente... e não a gente a ele!" Tanto a poesia quanto o suicídio são efeitos da tristeza: "Não tenho vergonha de dizer que estou triste, Não dessa tristeza criminosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas:" Poesia como fuga, pois na minha opinião acho que as ciências que cuidam da saúde mental avançam muito pouco: "Fora da poesia não há salvação." A explicação deve ser deixada pelos leitores, cada um com sua interpretação: "Porque um poeta que se explica parece que está desculpando-se... Vocês não acham?" Como no meu caso e no da maioria dos poetas, a tristeza é o que leva a escrever. Lembramos da metáfora da ostra que produz dor com sofrimento: "para os poetas não existe parto sem dor." Outra reflexão sobre ser escritor: "Mais triste do que um escritor virar seu próprio discípulo é quando ele vira um dos seus próprios personagens." Fala do impulso para escrever poemas: "Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz." Toda arte é expressão: "A FUNÇÃO A função do poeta não é explicar-se. A função do poeta é expressar-se." Ser poeta não é uma escolha: "Ele não tem culpa de ser poeta; portanto, não tem de que se desculpar ou explicar." Concordo que é muito difícil escrever poemas originais sobre amor: "Isto de escrever versos de amor é das coisas mais dificeis que há — impossível não descambar para o lugar-comum." Parece dizer que a poesia é sua única companhia: "Eu sou um homem fechado. O mundo me tornou egoísta e mau. E a minha poesia é um vício triste, Desesperado e solitário Que eu faço tudo por abafar." Esse pode ser um aspecto singular da literatura e da arte em si, pois todo o resto é para atingir uma demanda: "NÃO OLHE PARA A OBJETIVA Pensar nos leitores — ou num determinado leitor — prejudica a naturalidade, de sorte que a única maneira de um autor não fazer pose é escrever para ninguém. E muito menos para si mesmo." Outro agrupamento meu por temáticas que se relacionam: Neste lembrei-me da música ♫ Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante ♪ de Raul Seixas. "LVIII. Do DIREITO DE CONTRADIZER-ME Que eu tenha um juízo ah-eterno E sempre a mesma opinião? Mas por que devo suar no inverno Só porque o fiz no verão?" Ainda mais se sermos a "metamorfose ambulante" citada acima: "A OPINIÃO Quando dês opinião, nunca deixes de escrever a data..." Concordo, pelos mesmos motivos acima: "É que a gente nunca lê o mesmo livro. Nem é cada leitor, em suas diferentes idades, que nunca lê o mesmo livro..." Seguem agora os trechos aleatórios: Apatia: "Eu nada mais desejo, nem a morte..." Verso que condiz com sua boemia: "E no meu romantismo vagabundo" Remete ao ditado Chinês "Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida": "Uma palavra só Pode tudo perder para sempre..." E é tão puro o silêncio agora!" É ocasionalmente romântico: "Um coração não cabe num só peito: Amor... Amor..." E faz metáforas com o amor: "Amar é mudar a alma de casa." Sobre dizer "eu te amo", acredito, com assonância: "DO ESTILO Fere de leve a frase... E esquece... Nada Convém que se repita... Só em linguagem amorosa agrada A mesma coisa cem mil vezes dita." Sedução do pecado: "DOS PESCADORES DE ALMAS Se Deus, tal como Satanás, procura As almas aliciar.., por que deixa ao Pecado Esse caminho suave, essa fatal doçura E faz do Bem um fruto amargo e indesejado?" Faz piada com uma frase famosa de Sócrates: "XLIII. DA INÚTIL SABEDORIA 'Conhece-te a ti mesmo.' Dessa, agora, O alcance não adivinho. Muito mais útil nos fora Conhecer nosso vizinho..." Sua visão antirromântica é bem mais comum: "LXXI. DAS PENAS DE AMOR É só por teu egoísmo impenitente Que o sentimento se transforma em dor. O que julgas, assim, penas de amor, São penas de amor-próprio, simplesmente..." Mesma ideia do anterior: "LXXIII. DA REALIDADE O sumo bem só no ideal perdura... Ah! quanta vez a vida nos revela Que "a saudade da amada criatura" É bem melhor do que a presença dela..." Novamente antirromântico: "CVII. DA CONDIÇÃO HUMANA Se variam na casca, idêntico é o miolo, Julguem-se embora de diversa trama: Ninguém mais se parece a um verdadeiro tolo Que o mais sutil dos sábios quando ama." Lição para guardar segredos: "LXXVI. DA DISCRIÇÃO Não te abras com teu amigo Que ele um outro amigo tem. E o amigo de teu amigo Possui amigos também..." Rima rara: "LXXXIX. DA ALEGRIA NAS ATRIBULAÇÕES "Olha! o melhor é sorrires!" Mas já se viu que lembrança! Dá-me primeiro a bonança, Que eu te darei o arco íris..." Trata da realidade: "CI. DA HUMANA CONDIÇÃO Custa o rico a entrar no Céu (Afirma o povo e não erra). Porém muito mais difícil É um pobre ficar na terra..." Lição de moral: "Quem pretende apenas a glória não a merece." Invalida a esperança: "A esperança é um urubu pintado de verde." Faz piada, pois no contrato com a editora da maioria dos escritores eles só recebem 10% do valor das vendas de cada livro: "PEQUENA TRAGÉDIA BRASILEIRA A Bem-Amada queria devorar o coração do Poeta. — Não, — disse ele — só terás um pedacinho... Porque noventa por cento pertence aos Editores." Diz ser singular: "EXAME DE CONSCIÊNCIA Se eu amo a meu semelhante? Sim. Mas onde encontrar o meu semelhante?" Identifiquei-me: "o acontecido e o imaginado tendo ambos o mesmo poder traumático e o mesmo pé de realidade." Acredito que este seja o poema mais famoso dele: "POEMINHO DO CONTRA Todos esses que aí estão Atravancando o meu caminho, Eles passarão... Eu passarinho!" Fala da tristeza dos poetas como "tristeza profissional". Faz um gracejo com os avanços da ciência: "DA PREGUIÇA A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda." Escárnio aos eremitas: "DA VIDA SOLITÁRIA Os eremitas deixavam apenas as más companhias pela má companhia." Este remete a uma frase de Nietzsche "Até o texto ter desaparecido sob a interpretação": "A COISA A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita." Isso vale para as perguntas que fazemos a nós mesmos: "DAS INDAGAÇÕES A resposta certa não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas." O que sofre os grandes artistas: "IMAGINAÇÃO... A imaginação é a memória que enlouqueceu." Brinca com o duplo sentido: "SEMÂNTICA Dizeis que tudo é amor e eu VOS direi que a fome é tudo; tanto assim que o verbo comer, na insondável sabedoria do povo, também significa possuir carnalmente." Infelizmente... "INTRUSÃO O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente..." Sobre um recurso muito utilizado por poetas: "RETICÊNCIAS As reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho..." Sobre a impossibilidade de separar observador do objeto: "DA CRITICA Uma definição apenas define os definidores." Identifiquei-me: "DA SAUDADE A saudade que dói mais fundo — e irremediavelmente — é a saudade que temos de nós." A tendência é isso ficar cada vez maior: "A MODA ETERNA Somente nunca sai da moda quem está nu." Eu sinto isso ao olhar para o relógio: "O TEMPO E A VIDA Não se deviam permitir nos relógios de parede esses ponteiros que marcam os segundos: eles nos envelhecem muito mais que o ponteiro das horas." Por não ser sorriso para se exibir: "Os sorrisos mais sinceros são os sorrisos desdentados." Bela metáfora: "DO SONHO Sonhar é acordar-se para dentro." Faz piadas algumas com mulheres: "MISTÉRIO Por que será que "com certeza" tem o sentido de "talvez"? E por que chamam de duvidosas as mulheres de que todo mundo tem certeza?" Uso da figura de linguagem conhecida como paranomásia: "soluça a solução!" Esse remete aos ideais platônicos: "Porque a Beleza é a forma angélica da Verdade." Concordo, eu que associo a dor ao pensar: "A Matemática é o pensamento sem dor." Essa é escrachada: "CAUTELA Os fantasmas não fumam porque poderiam acabar fumando-se a SI mesmos." Afirma que com as guerras as pessoas serão mais feias na geração seguinte: "SELEÇÃO ARTIFICIAL As guerras não ajudam muito a remediar o que se denomina (bombasticamente) de explosão demográfica: os que ficam em casa aproveitam a deixa para multiplicar-se. E como os que partem são agora escolhidos entre os mais aptos de físico e de espírito, imagine o pobre leitor o que não será isso para a evolução do Homo Sapiens..." Penso nisso, só a arte vai me redimir (sou um pecador): "CONFISSÕES Toda confissão não depurada pela arte é uma indecência." Concordo: "À LA MANIÈRE DE LA ROCHEFOUCAULD Os moralistas condenam o que eles não têm coragem de praticar." Bem pensado: "O CAFÉ E O CHÁ O café é mais intelectual — o chá, mais espiritual." Neste seguere ser ateu. "CONFISSÃO Sou um herege de todas as religiões." Essa é para quem (inclusive eu) não consegue aplicar a lição do livro dos doze passos de viver um dia de cada vez: "Confusão Essas duas tresloucadas, a Saudade e a Esperança, vivem na casa do Presente, quando deviam estar — como seria lógico — uma na casa do Passado e a outra na casa do Futuro. — Mas e o Presente, seu moço? — Ah, esse nunca está em casa." Por isso não existe tradução perfeita, e o termo mais adequado é "adaptação": "P. — No seu entender, o que é uma boa tradução? R. — Aquela que segue o estilo do autor, e não o do tradutor." Poema-piada com a Física: "O POVO E A RELATIVIDADE Todas as línguas ocidentais sempre usaram a expressão "um espaço de tempo". Que diria a isso o velho Einstein?" Herege com um interessante jogo de rimas: "E O DIABO SE DIVERTE A gente não se converte. A gente se reverte. E o Diabo se diverte." Das contradições da religião: "DO TEMOR DE DEUS ...mas não é ao Diabo que deveríamos temer?" Fazendo alusão a um ditado muito comum: "A DIFERENÇA A diferença entre um poeta e um louco é que o poeta sabe que é louco... Porque a poesia é uma loucura lúcida." Lembrei de Frejat: ♪ Todo mundo é parecido quando sente dor ♫ "TROVA Quem as suas mágoas canta, Quando acaso as canta bem Não canta só suas mágoas, Canta a de todos também." Para variar um pouco, uma quadra cheia de lirismo: "A TROVA Trova: soneto do povo, Flor de nostálgico encanto... Todo o infinito do amor Numa só gota de pranto." Agora um mais tenebroso: "Só os meus passos... Mas tão leves são Que até parecem, pela madrugada, Os da minha futura assombração..." Mario Quintana foi gaúcho, viveu 88 anos e sempre foi solteiro (cujo verso seguinte pode dar a luz: "ser xifópago deve ser tão incômodo como ser casado"), e o seguinte também: "Bem que eu gostaria que o tal detetive lesse estas linhas, para atentar nas vantagens hedonísticas de continuar solteiro." Era boêmio. Viveu só a maior parte da sua vida em pensões modestas. O prédio do Hotel Majestic, residência do poeta entre 1968 e 1980, é tombado como patrimônio histórico do Estado do Rio Grande do Sul em 1982, tornando-se Casa de Cultura Mario Quintana.

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