Pernambuco (somente Pernambuco, não há falar nem mesmo em seus vizinhos mais próximos) possui uma música e uma dança carnavalescas que são coisa sua, original, que se criou no meio do povo, quase espontaneamente, e se cristalizou depois, como urbana. Urbana sim. Até seria mais justo dizer o Recife, do que Pernambuco. Porque foi, de fato, no Recife, que isso tudo aconteceu. No Recife dos fins do século XIX, começos deste, que a música foi aparecendo, conduzindo a dança, ou dança foi tomando corpo, sugerindo a música. É impossível distinguir bem: se o frevo, que é a música, trouxe o passo ou se o passo, que é a dança, trouxe o frevo. As duas coisas se foram inspirando uma na outra – e completaram-se. É possível, porém, afirmar que o frevo foi invenção dos compositores de música ligeira, feita para o carnaval, enquanto o passo brotou mesmo do povo, sem regra nem mestre, como por geração espontânea. O compositor que não posso apontar como erudito, longe disso, mesmo porque nem sabia o que estava fazendo, e o povo, este muito agreste ainda, até para saber imitar – os dois bem que traziam, na massa do sangue, os germes da sua criação, um e outro agindo em função dos folguedos do carnaval. Os músicos pensavam em lhe dar mais animação e a gente de pé no chão queria, isso sim, música barulhenta, impetuosa, viva, que convidasse ao esperneio, no meio da rua. Sucedeu, assim, um trabalho recíproco de ajuda, de colaboração, uma como anfimixia, que esteve longe de ser feita premeditadamente. Tudo de palpite, de improviso, para pegar ou não, e pegando. Quando menos se viu, a música tinha ganho, ano a ano, características próprias, inconfundíveis e, do mesmo modo, a dança, que já não se parecia com nenhuma outra, nem mesmo com os passos que estavam no seu subconsciente, quando o povo começou a sua invenção. Os nomes de batismo vieram depois de nascida a criança, já ela crescida e dona de si. A palavra “frevo” veio tarde, quando a música - que era “marcha” para todos os efeitos – se impunha no carnaval. Quanto à outra, é palavra comum, de aplicação fácil, natural à coisa que ela define. As raízes do frevo e do passo são muito superficiais. Um botânico diria: fasciculadas. Não são como as do maracatu, que mergulham na escravidão. Nem como as do caboclinhos, que vêm do tempo dos colonizadores, sabe-se lá. Nem negro, nem índio, nem branco luso, espanhol ou holandês. Se se tivesse de despistar a filiação, avós e pais apareceriam bem mestiços. Mulatos. Foi o capoeira do Recife, o ancestral do passo. E o frevo, esse surgiu de uma mistura heterogênea, cujos ingredientes têm menos interesse do que a criação coletiva que deles nasceu. Talvez fosse até melhor tomar por empréstimo ao vocabulário da Química – “combinação” em vez de “mistura”. Porque o frevo constitui, na verdade, um terceiro corpo, nada parecido com os que lhe deram vida.
Frevo, Capoeira e Passo -
Valdemar de Oliveira
CEPE
1971
150 páginas
5h 0m
ISBN-1: 0
Português Brasileiro
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