Maria Adelaide Amaral: a emoção libertária (Tuna Dwek)...
Adoro livro de história real narrado em primeira pessoa. Uma leitura tranquila e prazerosa.
Melhores trechos: "...Eu apanhava, mas persistia. E sofria com o forte sentimento de rejeição e de inadequação. Por causa disso, desde muito cedo comecei a me refugiar na leitura. Não nos poemas que escrevia para chamar a atenção, e que eram de qualidade bastante duvidosa. Eu me refugiava nos livros de histórias. Embarcava em qualquer narrativa sobre fadas e princesas, passava a viver o que eu lia num exercício de pura evasão. Eu lia compulsivamente, adorava, sorvia e vivia emocionalmente de leitura. Mais tarde, quando fui estudar História, os castelos de Reis e Rainhas eram como castelos das minhas histórias. Acho que foi essa sensação que despertaria a minha paixão pela História, uma das mais longas e permanentes da minha vida... Num determinado momento resolvi que seria uma intelectual, decisão que partiu da construção de uma personalidade aparente, uma persona que pudesse encobrir todas as minhas fragilidades sociais, materiais e emocionais... Para impressionar Marcus Vinicius, inventei de escrever poesia moderna, mas não era uma sincera manifestação da minha sensibilidade. Era pura afetação, uma maneira de me exibir, talvez a única que dispunha, já que me faltavam outros atributos para impressionar um rapaz que, aliás, me considerava uma pirralha... Eu jamais tive pendor para o raciocínio abstrato; mesmo com todas as digressões, meu raciocínio é extremamente analógico, objetivo e prático. Hegel para mim era uma tortura, Kant impensável. Até que Sartre eu lia com mais facilidade, por causa dos seus romances... Jamais estive preparada para o fracasso. Pude administrá-lo quando ele veio. Mas não gostei... Desde criança sempre tive uma atração especial pelo oculto. Durante anos freqüentei cartomantes, quiromantes, videntes, e adivinhos de toda a ordem. Na época em que trabalhava na Abril, íamos em bandos consultar a mais recente e naturalmente fantástica cartomante que alguém tinha descoberto na Vila Matilde, ou onde quer que fosse. Mas como nenhum desses oráculos me disse nada consistente, num determinado momento cansei e deixei de ir... Em virtude do meu retorno à prática religiosa, incentivei meus filhos, então com 13 e 9 anos respectivamente, a fazer a Primeira Comunhão. Depois, que fizessem o que quisessem com as lições do Catecismo. Para mim, o mais importante seria dar a eles os fundamentos de uma religião. Segui-la ou não seria sua decisão. Porque abraçar uma crença é uma questão muito pessoal. Mas eu queria, pelo menos, lhes abrir uma porta, fazê-los entrever uma fé que me valeu quando precisei, e que pudesse lhes valer quando quisessem, ou quando precisassem... Quando você escreve um livro, não existem intermediários entre o autor e o leitor. Não há interferência. O máximo que pode haver é alguma correção de ortografia na revisão. Ninguém transforma o que você escreveu, nem dirá uma frase sem a intenção correta. A relação escritor-leitor é privilegiada mas, em geral, é uma relação muito restrita. Quando se escreve para teatro ou para televisão, seu texto será intermediado pela concepção do diretor, pela interpretação dos atores e, no caso da TV, até pelo editor, que é quem faz, por assim dizer, a arte-final da minissérie ou da novela que vai para o ar. Ou seja, o texto que a gente escreve pode ser transformado, melhorado, deformado, ou engrandecido por outros profissionais. Porque uma peça de teatro e uma obra teledramatúrgica não pertencem apenas ao autor do texto... Mas eis que o senhor Fernando Collor de Mello assume a presidência e ordena o confisco da poupança da nação. E, como a maior parte dos brasileiros, fiquei sem nada e, portanto, em condição de aceitar, alguns meses depois, o convite de Cassiano Gabus Mendes para escrever com ele a novela Meu Bem, Meu Mal. Embora precisasse de trabalho, houve alguns momentos em que hesitei entrar para a Rede Globo de Televisão. Tinha receio de repetir a breve e malograda experiência de 1979... Era uma plenitude, uma felicidade aliada a uma serenidade, parecia que eu tinha atingido aquilo que os budistas e os não-budistas lutam a vida inteira para conseguir. Um estado de quase nirvana. Lembro de ter pensado: Se tive que passar pelo que passei para sentir esta maravilhosa sensação, então valeu a pena. Nunca mais voltaria a me sentir assim. Ao contrário, quando acabei a radioterapia, caí numa terrível depressão. De onde advinha tanta tristeza de repente? O maior problema é que eu não me permitia ficar deprimida, porque sempre tive claro tudo que a vida me deu. Eu conhecia o oposto disso, sabia muito bem o que era a privação, porque a vivi durante muitos anos. Nunca fiz a apologia do sofrimento e jamais suportei a auto-piedade... E entre tantas pessoas maravilhosas existem também aquelas que deixam a desejar. Porque o talento nem sempre está acompanhado de 'bom-caratismo', muitas vezes cruzamos com pessoas de enorme talento, que cedo ou tarde nos decepcionam profundamente..."