A minha relação com o autor vem de anos. É de fã e de artista? Não, é de mestre e professor.
No Rapadura Cast, Fabio Barreto sempre era um dos primeiros a aprofundar o assunto ou tentar enxergar em um filme algo muito além do que é mostrado na tela. No Gente que Escreve me ensinou a importância do conhecimento técnico, nunca mais coloquei dois "que" em uma frase, graças a ele sempre repito "O personagem é o coração do livro" e comecei a lidar com o medo de ser e de assumir escritor. Através dele fiz os meus começos se tornaram um pouco mais fodas e o último aprendizado veio através de uma observação:
Acompanho escritores e enquanto muitos deles chamam atenção para si; para uma causa ou para a sua opinião, o Fabio quer mais escritores fazendo sucesso.
As lições acabaram? Não, ainda bem que não.
Sou alguém complicado, demorei para pegar o livro dele para ler. E, através da insistência do próprio autor, comprei o meu Snowglobe.
Queria tentar me controlar, mas era impossível. Expectativa, teve muita expectativa:
Pensei em algo mais divertido que De Volta para o Futuro, com mais ação que o Exterminador do Futuro e com ideias revolucionárias estilo Isaac Asimov.
Percebi que a expectativa foi alta demais. Porém, também notei que o Barreto é um mestre quando se trata de ritmo. A história sempre avança, a sensação de que algo importante vai acontecer é constante e isso é feito com os cortes de um bom editor de cinema e a sensibilidade de um poeta.
Para falar do livro é preciso falar de quem o narra. O narrador de Snowglobe cola nos protagonistas Erick e Beca. Parece que ele não só leu os diário deles, como também foi o melhor amigo desses dois nerds. Esse narrador gosta de contar as coisas, quer conversar com o leitor e também quer dar muitos conselhos... ele quer uma “amizade sincera” com você.
Esperei por conceitos complexos, por descrições de máquinas ou engenhocas, por tiros e aventuras por locais saídos da mente de um gênio. O que encontrei? Um ótimo autor que sabe mostrar a arte, a convivência humana. A relação entre Erick e sua família, sua paixão e o seu trabalho pulsa no livro. Essas relações tornam os personagens vivos. Terminei o livro e não fiquei imaginando o futuro de cada pessoa que compõe a história. Muito pelo contrário. Até agora estou imaginando a infância do Erick, a juventude junto com a sua avó, ele assistindo uma partida de futebol com o seu pai e conversando com a mãe. Fico imaginando Beca estudando, se ferrando para conseguir dinheiro e puta da vida com alguns idiotas da internet. Não sei se lembrarei dos detalhes da história, mas sei que os personagens não serão esquecidos.
O que foi construído pode ser perdido? Se não há algo para perder, então não há conflito. Se não há conflito, então não há uma história.
A perda nesta obra sempre está relacionado a MASE. Não se trata de uma empresa com um diretor de rosto ossudo, com uma sede faraônica e com um plano sem pé nem cabeça para conquistar o mundo. Na MASE existe o mesmo veneno/intenção contida no sorriso de políticos e nas marcas de refrigerantes. A MASE usa o seu poder para... ops, leia o livro para descobrir. Ainda falando sobre essa empresa, ela me ensinou muito a respeito da vilania. Vi/aprendi um artifício que torna tudo mais verossímil, real.
Pois é Barreto, você me ensinou mais uma vez: relação, família e vilania. Se eu tiver poucas cartas na mão, já sei no que apostar.
Mas, pera aí!Tudo é perfeito?
Graças a Deus que não. Não gostei da forma como o personagem Tom foi introduzido e ele tenta ser engraçado. Tenta a ponto de ser meio chato.
Referências nerds são legais? Tem gente que gosta, mas elas me tiram da história (Snowglobe tem um monte delas).
Dá para perceber que o autor gosta das suas piadas e das suas referências. Somos diferentes, e que bom que nós somos. Esse orgulho pelas escolhas, por ser quem ele é, está evidente. Aliás, quero destacar uma escolha em especial: é muito legal ver alguém que possui as raízes no cinema e não as esconde com floreios literários.
Ainda tenho que te convencer a ler este livro?
Você é exigente, o Barreto iria adorar te conhecer!
Se imagine sentado na frente da TV. Não há internet, não há trabalho ou contas para pagar. Você já foi na escola, já fez o seu dever de casa e é sexta-feira. Está chovendo, não dá para sair na rua. A sua mãe conversa com algumas amigas na mesa da cozinha cheia de revistas da Avon. Não muito longe, lá no quintal, o seu pai tenta concertar, mais uma vez, aquele rádio velho que o seu avô adora. Está faltando alguém? Não se preocupe, a sua irmã está na casa de uma amiga. O controle com a tecla do volume quebrada está nas suas mãos e você liga a TV.
Já passou do horário do almoço, você limpou o prato e pode assistir o que quiser. Será que vai passar Star Wars? Quem sabe Conan? Loucademia de Polícia é legal demais. Não, hoje vai passar Snowglobe. Mas esse filme... não dá tempo para reclamar porque os seus olhos estão grudados na tela.
Terminou. Você sente que conhece o Erick ou se considera amigo da Beca. Sente que conhece os dois, melhor dizendo. Só fica se perguntando quando vão reprisar o filme. Uma semana passa, duas...meses...anos. Não reprisam. Tudo vira lembrança.
Você cresceu. Em um dia qualquer resolve passar por um sebo recém aberto próximo do local onde trabalha. Entra só para procurar algo raro e encontra um livro de lombada surrada, bem baratinho. Pega, limpa um pouco da poeira e olha para a capa. É o Snowglobe. Foi essa sensação que eu senti quando terminei de ler.
Leia a obra de quem tanto me ensina.