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    Jamais peço desculpas por me derramar - Poemas de temporal e mansidão

    Ryane Leão

    Editora Planeta
    2019
    160 páginas
    5h 20m
    ISBN-13: 9788542217728
    Português Brasileiro
    4
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    Segundo livro de Ryane Leão, mulher preta, poeta e professora, criadora da página Onde jazz meu coração, com mais de 600 mil seguidores nas redes sociais. Seu primeiro livro, Tudo nela brilha e queima, já vendeu mais de 40 mil exemplares. Mesmo na correria, eu sigo em busca das sutilezas. Não posso deixar as distrações passarem batidas. O peso do mundo não vai tomar conta de minha pele se eu me atentar às brechas, às margens. Anteontem eu vi o mar. Recebi abraços apertados que me agradeceram pelos poemas que escrevo com o coração na ponta dos dedos. Hoje de manhã as folhas das árvores balançaram com o vento e o barulho foi tão bonito. Daqui a pouco começo a cozinhar porque vou receber em casa as pessoas que amo. Quero saber de cor o que me traz paz, embora não sejam permanentes as belezas. O caos também não é. E eu estou mudando a cada minuto, então tudo bem. Há algo que resiste por entre os escudos, que me relembra que existe uma coisa essencial em ser uma mulher que se reconstrói diariamente: eu sou profunda demais pra acabar. – Ryane Leão

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    Alane Sthefany27/05/2022Resenhou um livro
    1 (Ruim)

    Jamais Peço Desculpas Por Me Derramar - Ryane Leão

    Todas as revoluções que eu desejo começam em mim. Se sou furacão, então eu posso destruir antes de ser destruída e se preciso for, tiro absolutamente tudo do lugar e defino como vai ser a partir de agora. Sou mais inconstante que o mundo, sou onde tudo começa e termina, sou a história que eu quiser contar, sou revide antes mesmo que alguém tente me atacar. Quem se afastou de você e tentou te calar, foi porque percebeu que não pode te controlar. O que me faz poderosa não é só essa força desmedida, esse grito potente, se estou de pé é justamente porque me permito a queda livre, me deixo desabar, sentir o gosto do chão desaguar, digo pra minha intensidade descansar, pra dor não faço lar, mas permito a visita, não serei inabalável Para nós que temos pressa, desejo que atrasos bonitos nos encontrem (...) Para nós que temos pressa, que saibamos que o retorno é perigoso e por vezes impossível, melhor parar, admirar as demoras, pra então seguir. Desde quando se fortalecer é não cair? Conhecer as ladeiras nem sempre evita que a gente escorregue por lá. Hoje eu só vou dar conta de cuidar de mim, não posso doar quando estou oca. Às vezes quando falo sobre desmoronar, dizem pra deixar pra lá, mas eu nunca vi tristeza passar sem ser sentida, ignorar as feridas não vai estancá-las, tem que parar, olhar lavar, passar remédio e soprar. Você me desestrutura. Você me dá aquela sensação de poder ser eu mesma sem armaduras e nossos olhares são capazes de causar um incêndio onde tudo era faísca. Eu beijo o silêncio de estar comigo, crio intimidade com a minha solidão, me atento a quem se entrega e nem noto quem desvia. Herdei de minha mãe a coragem para me erguer e prosseguir e também os seus fantasmas, quando choro as lágrimas vertem por duas. Teu céu precisa gritar, enquanto você abafar esse trovão que te habita, as pessoas farão o mesmo – seja a primeira a se ouvir Você vai conhecer pessoas que vão fazer você querer perguntar sobre tudo, porque absolutamente tudo sobre elas, vai parecer interessante (...) Você vai conhecer pessoas que vão te mostrar que somente você pode ser a sua casa e outras que vão te ajudar a ajeitar a bagunça Você vai conhecer pessoas que vão te despedaçar e outras que vão beijar suas cicatrizes Você vai conhecer pessoas que vão querer te ouvir, e outras que vão tentar tapar a sua boca Você vai conhecer pessoas que vão acender o seu pavio pra te fazer brilhar e outras pra te fazer queimar (...) Você vai conhecer pessoas que vão te fazer duvidar de acasos e outras que vão te fazer desejar coincidências (...) Você vai conhecer pessoas que vão te revolucionar em poucas horas, você vai conhecer pessoas que sentem na mesma intensidade que você, você vai conhecer pessoas que vão chegar, quando nada fizer sentido e outras que vão te dar vontade de encarar a vida (...) Talvez você não conheça todas essas pessoas ou conheça muitas delas em uma só, ou talvez já tenha ouvido falar sobre elas, obviamente algumas são mais raras que outras, então cuidado com quais pessoas você vai convidar pra ficar. Eu gostaria que minha história fosse cheia, não vazasse pelos cantos, mas suportei tantos tropeços, que nada que me cabe é equilíbrio, como sempre me disseram pra relevar, aprendi a dar segundas chances para qualquer pessoa que não eu. (...) Perdi grandes partes de mim, que não recuperei ainda e reconstrução não é junção, é dar um jeito com o que se tem, transformar nada em universos em segundos. Te vendo daqui pegando suas coisas pra sair dessa casa que nunca te foi lar. Você sempre teve essa fé desmedida e foi um erro brilhar tantas vezes pra iluminar escuridões que nem eram suas, mas isso te fez virar galáxia. Quero contar que você vai conseguir olhar no espelho e enxergar um rosto cheio de linhas e que você finalmente vai conhecer gente que te lembra que você é linda e que não é difícil te amar, vai haver muitas despedidas pra abrir lugar pra essas novas pessoas, é cíclico, há livros morando em cada uma de suas expressões, livros que contam sobre uma mulher que é uma em muitas, muitas em uma (...) Não tenha pressa, todo processo curativo não é tão rápido ou tão bonito assim, e vai ver se curar é algo diário Conheço a dor crua e sem freios Eu não abandono as minhas batalhas no meio, ou você acha que eu cheguei até aqui porque eu tô a passeio? (...) Eu tô com a caneta na mão, chega aqui perto, pra ver que a minha história quem escreve sou eu. Apesar de toda maldade do mundo, coisas bonitas continuam acontecendo sem o nosso controle, que hoje eu seja uma delas. Você precisa ser mais parecida com a água, não tem que ser porto seguro a todo instante, pode ser correnteza e aproveitar pra levar algumas coisas embora. Criar expectativa é se afundar na própria invenção. Se alguém me perguntar hoje o que eu acho que é o amor, vou dizer que é algo muito parecido com a fé: NÃO ANDAR SÓ Sinto que somos um enredo ainda sendo escrito, sobre um cuidado que está sendo preparado há muitas existências e o amor há de reinar e saber pronunciar nossos nomes. Essa ideia de que alguém vai aparecer e arrumar a bagunça que os outros deixaram. De que alguém vai aparecer e te fazer esquecer tudo que te fizeram. Alguém vai aparecer e te dar novo sentido. Alguém vai aparecer e te mostrar que tudo pode ser. Alguém vai aparecer e completar seu processo de cura. Alguém vai te mostrar o que ninguém nunca mostrou. Alguém vai compor céus pra você. Alguém vai aparecer e você nunca mais se lembrará dos hematomas. Isso é só a gente querendo fugir. É mais uma vez depositar nossa plenitude em qualquer coisa que não nossas mãos. Ninguém aparece, não com essa função de tapar buraco, recolher estilhaço. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Se eu pudesse mudava pra uma cidade onde ninguém soubesse o meu nome e eu não soubesse o nome de ninguém, seria mais uma numa multidão, de afetos falhos e recomeços, tentando não me maltratar com tudo que não fui. Quem só se interessa pelas vitórias sem considerar trajetórias ou te dá ouvidos pontuais, superficiais, melhor manter distante do seu palpável, melhor manter distante do seu real. Se puder descanse, nem que sejam cinco minutos, voltados para os cantos de sua voz, diminua a velocidade, tome um banho quente, coloque um pijama velho e confortável, esqueça das lutas por hoje, sussurre calma nas urgências, deixar pra lá também é resistir; estique os pés, descerre os punhos, observe a noite até o dentro constelar, cuide da pele que te envolve, amanhã o sol continuará sendo sol, as casas e os prédios estarão no mesmo lugar, agora tudo voltará a ser como era antes, menos você. Meus significados não se dão facilmente e me exigem explicações que se dissipam, a culpa não é minha se estamos viciadas em dicionários, frases prontas, soluções instantâneas e teorias, eu sou algo novo todos os dias, mesmo partindo do antigo. Falei com o tempo e pedi pra ele parar. Nesse momento até mesmo ampulhetas travaram areias. Não costumo regredir, já fui embora sem retorno, já gritei pelas ruas querendo um mapa pra voltar, é bom que eu tropece pra conhecer os buracos, é bom que eu me perca, pra aprender a usar bússolas. Que você compreenda que você nunca é a mesma, pare de chamar por suas versões que estão no antes.

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    Ryane Leão

    Ryane Leão é mulher preta, professora e poeta cuiabana que vive em São Paulo. Publica seus escritos em lambe-lambe e pela internet com o projeto Onde jazz meu coração. Além disso, escreve em blogs e páginas autorais há mais de 10 anos e recita seus poemas nos saraus e slams da cidade. Seu trabalho é pautado na resistência das mulheres e focado na luta e no fortalecimento pela arte e pela educação. A autora também é do axé.

    5 Livros
    139 Seguidores
    Mato-Grosso, Brasil

    Ryane Leão