A ocupação [2019]
Julián Fuks (1981-)
Cia. das Letras, 2019, 134p. 📖
Entre as décadas de 80 e 2000, a literatura foi invadida pelo que Mª Valéria Rezende chamou de “ficção de bar e alcova”: uma série de livros escritos por homens brancos da classe média cujos personagens/narradores — homens brancos da classe média — penavam na tentativa de escrever romances sobre (sim, vcs adivinharam) homens brancos da classe média. Desde que Lispector ficcionalizou o lugar da escrita e o olhar preconceituoso do intelectual diante do universo “incompreensível” das massas (representadas por Macabéia), falar do outro se tornou uma pedra no sapato de muitos escritores. Como consequência, uma parcela da literatura voltou-se a si mesma, num exercício fadado à ruína muitas vezes contornado pelo relato auto-indulgente do próprio fiasco narrativo. 📖
Os livros de Julián Fuks são, em certa medida, herdeiros remotos dessa literatura solipsista, mas há algo em seu olhar que faz com que cada romance transcenda a mesmice, o umbiguismo e o descolamento da realidade que caracterizam seus predecessores. Como em "A resistência", Fuks consegue desfazer esse nó ético mais uma vez, e uma vez mais por meio da autoficção, de um entrelaçamento entre público e privado, um fazer-se praça, rua, prédio vazio, que nos conduz (e ao escritor) àquela impossibilidade de separar o literário do político. Aqui, três caminhos narrativos (o filho que encara a doença do pai, o escritor às voltas com a paternidade e a comunidade que sobrevive em um prédio abandonado) se encontram em uma literatura ocupada pelo imperativo de se fazer lugar de resistência, capaz de “afirmar sua própria soberania e inventar aves que [...] inventam um outro céu”. 📖
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"A ocupação" começa e termina com o silêncio das ruínas. Lugar de memória, de abandono, de esquecimento. Frente ao nosso fracasso civilizatório, o que resta ao escritor que não quer se eximir, mas tampouco pode se identificar com a multidão crescente dos desvalidos? A solução é ocupar a própria literatura. Até seu inevitável colapso — ou transbordamento.
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