Gabriela Pascolato - Santa Constancia e Outras Histórias -

    Sergio Ribas e Gabriella Pascolatoo

    Jaboticaba
    2007
    256 páginas
    8h 32m
    ISBN-14: 9788589894562_
    Português Brasileiro

    Este livro celebra os 90 anos da empresária italiana que, como vários imigrantes que contribuíram para a construção do Brasil, fez história na moda brasileira. Sem nunca ter trabalhado antes (era obcecada pelo estudo de idiomas), abriu, em 1948, uma fábrica de tecidos finos, a Santa Constância, que sobreviveu às muitas crises do setor e está entre as mais importantes tecelagens do país. Ao longo de um ano, em mais de 50 horas de entrevistas, Gabriella revelou algumas histórias ao autor do livro, Sérgio Ribas. No livro estão os episódios de uma vida extraordinária acompanhados de uma 'biografia fotográfica', que tem desde Gabriella pequenininha, na Toscana, já cheia de estilo, passando por cenários cinematográficos em que viveu (Florença, Veneza, Roma), o nascimento dos filhos Costanza e Alessandro e a chegada ao Brasil atual, quando ela foi homenageada, na São Paulo Fashion Week, como a rainha da moda. Saiu na Imprensa: O Globo / Data: 28/7/2007 Elegância para contar Fundamental para a moda brasileira, Gabriella Pascolato decide, aos 90 anos, relatar suas histórias Por Carolina Isabel Novaes Vai faltar tafetá. Foi essa a grande sacação de Gabriella Pascolato, logo quando soube que a moda do pós-guerra (a Segunda) seria o New Look com sua silhueta rodada, ostentosa. Ela havia lido que um só vestido de Christian Dior consumira 40 metros de tecido. No Brasil, se as grã-finas quisessem seguir a tendência, não achariam pano nem para a manga. Então, em 1947, Gabriella fundou a tecelagem Santa Constância, um pequeno galpão com oito teares em São Paulo. - Aqui não tinha um metro de tafetá de luxo - conta, em entrevista por telefone, dona Gabriella. Depois da guerra as pessoas estavam exagerando, mandavam um monte de quinquilharia, caneta Bic, meias de náilon, então o governo restringiu as importações. Eu tive que parar de vender os sapatos do Salvatore Ferragamo – diz. Moral da história, como gosta de dizer a própria Gabriella - atualmente a tecelagem é enorme, um conjunto de vários galpões e escritórios, muito bem-sucedida e administrada por seus filhos, Alessandro e Costanza Pascolato. Tudo isso está no livro 'Gabriella Pascolato' (editora Jaboticaba). Fuga da Itália digna de filme Da tecelagem saíram o Zibeline (marca registrada) e o Liganette, nome que acabou virando sinônimo de jérsei por aqui. Até o primeiro xantungue nacional saiu de lá. E o chenile, febre na decoração brasileira no anos 60? Também. Mas o melhor do livro, sem dúvida, são os comentários de dona Gabriella, hoje com 90 anos, reunidos pelo jornalista Sérgio Ribas em 256 páginas. Gabriella nasceu na região do Piemonte, na Itália, de uma família aristocrática, os Pallavicini. Seu pai, Alfredo, aos 13 anos, passou uma temporada em Buenos Aires, onde ganhou um índio para brincar com ele (isso nos anos 1800). A mãe, Clotilde Quaglia, comprava roupas em paris e foi cliente de Chanel. 'Eu estudava minha própria família na escola. Era uma família importante, os Quaglia', explica. Viviam numa fazenda italiana outrora freqüentada por ilustres como Napoleão Bonaparte. No andar de cima, 'tinha móveis maravilhosos sem utilidade alguma'. Eram oito empregados na casa, 'por pura necessidade' – 'O jardineiro e o ajudante de jardineiro. (...). A mulher dele, (jardineiro) ficava na entrada da fazenda, e eles controlavam os visitantes. Deviam ou não abrir os portões? 'Esse era o drama dos dois.' Aos 8 anos, recebeu seu maior atestado de independência – livrou-se, da franja. Ela não gostava da franja, mas a mãe dizia que ela tinha que usar porque sua testa era muito grande. 'Quieta e descontente, sempre achei que aquela franja estava torta', lembra. A partir de então, Gabriella fez o que quis. Foi estudar em Florença, no colégio interno Poggio Imperiale e mais tarde conheceu Salvatore Ferragamo, que, na época, com 38 anos, tinha acabado de voltar dos Estados Unidos e aberto um ateliê na Via Tornabuoni. Ficaram amigos. Depois fez faculdade de línguas em Veneza. Lá encontrou seu marido, Michele Pascolato, morto em 1988, de uma família tradicional de intelectuais e políticos. Miki, como era chamado, era vizinho de Cole Porter e anfitrião dos convidados do Festival de Veneza. Casaram-se e freqüentaram o grand monde. Sempre curiosa, chegou a conhecer não só Mussolini como a casa da amante do duce. Pediu ao engenheiro que a construíra que a levasse para visitar o lugar. Conheceu a casa, a amante Clara Petacci, a mãe da amante e o irmão. 'O mais divertido foi ver que havia um espelho no teto do quarto dela. Nunca tinha visto aquilo.' Nasceram seus filhos, mudaram-se para Roma (Costanza era amiguinha de Juanito, o rei Juan Carlos da Espanha), começou a Segunda Guerra Mundial e tiveram que fugir para o Brasil, em uma saga de filme. Ficaram praticamente dois meses em um campo de refugiados na Suíça; Constanza pegou piolho. Vieram de navio e, finalmente, chegaram ao Rio, em 1946. Em seguida, Ciccillo Matarazzo se ofereceu para ajuda-los, em São Paulo – os amigos patrícios, os namorados da filha, o progresso da indústria, a alta-sociedade, os netos, os bisnetos... A matriarca conta tudo como se fossem casos corriqueiros, com a elegância e o sotaque italiano característicos. Quando dizem que ela é uma rainha da moda, uma condessa, acha graça. Escreve – 'Nunca me dei conta de como os outros me viam. Talvez por causa disso tenha me dado bem com a maioria das pessoas, mesmo aquela que gostam de ser as tais. Aliás, o fato de eu ser uma pessoa que não se dá muita importância, para os outros - os que se dão -, é ótimo.' E ainda fica surpresa de ter chegado aos 90. Sempre pensou que fosse morrer com exatos 63 anos. Não sabe explicar por quê. O Rio de Janeiro, escreve no livro, ela adora – 'Com os cariocas sempre me dei bem, porque eles me lembravam os romanos. Achavam-se importantes só por viverem naquela cidade.' Fazer sucesso aqui foi fundamental – - O Rio era uma cidade maravilhosa. Eu andava à beira-mar sozinha, aos 28 anos – conta, lembrando que, quando Getúlio Vargas foi encontrado morto no Palácio do Catete, estava sentado sobre uma cadeira forrada com tecido Santa Constância. Planos para o futuro? Continuar produzindo. Para onde vai a moda? - Não sei, ela está confusa.

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