Caminho não tão suave p/leitura-escrita de textos complexos
“Leitura e Escrita de Textos Argumentativos” – Marcus Sacrini Apesar do autor sugerir nos desarmarmos numa leitura, ficarmos abertos a novos conhecimentos, sem enviesamentos ou prejulgamentos, cito Darcy Ribeiro: “sou homem de fé e de partido (...) movido por razões éticas e um fundo patriotismo. Não procure, aqui, análises isentas” [in prefácio de O Povo Brasileiro]. Isto posto, vamos adelante! Leigo no tema e com a vida distante das ‘humanidades’, o impulso de comprar este livro e “lê-lo” (com aspas) resultou para mim em abertura (quem dera! – melhor dizer: Vislumbre) de horizontes nunca dantes navegados ou sequer imaginados... Usando uma metáfora meio mequetrefe, eu procurava só um curso de mergulho para aprender a usar o snorkel, talvez para chegar a profundidades de três ou quatro metros e olhar as conchinhas perto da praia e daí vem o professor aventando com a possibilidade de mergulhar na Fossa das Marianas ... e mostrando as ferramentas para tal com maestria! Por conta de não pertencer, nem de longe, ao principal público previsto para o texto, acabei topando com partes onde encontrei um admirável mundo novo (para mim) e velho (dado que as citações remetem a autores de outros séculos), com um palavrório N vezes abstruso, para pegar leve. No entanto, tudo parece se encaixar e ter bom fundamento, embora eu não o alcance com facilidade. É certo que minha dificuldade em ‘humanas’ não é muito menor do que todas as pessoas normais têm em microbiologia, sistemas de informação, teoria de cordas, astrologia, física quântica, religiões, bóson de Higgs, estatística bayseana, contabilidade, tokenização, teologia, direito empresarial, química orgânica, matemática pura, engenharia nuclear ... Reconhecer isso não é mais do que chover no molhado – e parece natural, normal, aceitável. Há cada vez mais especialização e especialistas, com cada ramo do conhecimento (do comércio, da indústria etc.) povoado com seus experts, falando sua própria língua. Me incomoda, no entanto, o incômodo que percebo no livro (e em particular em certos textos) quando os filósofos (humanidadescos?) parecem se achar aquela very special bolacha do pacote, posto que somente eles se ocupam disso e daquilo – questões veramente transcendentais – enquanto os outros afegãos estão pouco se lixando. Percebo fumos de menosprezo (nos textos) pelos que não se importam com tão relevantes temas (talvez não seja estranho ao autor). É de se apostar que o menosprezo não tenha sentido unívoco. Textos dos exercícios do livro mostraram-me que em vários assuntos sou um anarfabeto de pai e mãe! Mais lamentável é que não haja tempo hábil para mim e praticamente ninguém, para o mergulho em tantas áreas do conhecimento, ainda mais com as técnicas de leitura mínimas ensinadas pelo autor. Afinal alguém tem que plantar feijão, produzir adubo, aplicar defensivo, fabricar trator, nivelar a cultura (do feijão, milho e trigo de fazer pão) de acordo com a hidrologia e topografia, cuidar da logística, fazer hedge, otimizar resultados, pedir empréstimos, construir loja, tratar esgoto e pagar imposto para sobrar algum dinheiro para certos (e até errados) centros do conhecimento formarem filósofos que ... dentre outras coisas produzirão conhecimento como deste livro. Daí não tem como as pessoas não mostrarem grandes deficiências de entendimento, conhecimento. Mas nem por isso vamos aplicar a solução de Deuteronômio 21, 18-21! Percebi um novo sabor na leitura apenas usando superficialmente os conceitos indicados – o autor fala tanto em fichamento que até parece TOC! Ele indica que o método pode dar controle do leitor sobre o texto (pg 135). Quem dera! Um pouco mais que pálida compreensão já é boa recompensa. O sistema de fichamentos proposto tornaria de improváveis a impossíveis as leituras de textos complexos pelo capiau médio e pelos não aliciados, tais como trabalhadores sem estabilidade no emprego e mesmo médicos em fase de pós-doutorado com cirurgias todo dia, família e hobbies. Sem dúvida um uso mais light é possível e proveitoso. Na parte da escrita, quisera ter aprendido mais o sistema proposto, e essa resenha seria melhor. Dado o sistema pesado de fichamento e a cristalina intenção de mostrar que somente uma posição política é a certa, pego uma citação de dentro do próprio livro: “... eu também desconfio dos sistematizadores” (Nietzche).

