A coletânea organizada por Alberto Manguel contempla uma gama de autores clássicos do gênero, alguns desconhecidos pelo grande público e outros que surpreendentemente escreveram textos de terror mas que são notórios por outros gêneros e até por poesia. Lendo em média 2 contos por dia no mês do Halloween, foi uma ótima experiência. Dos 32 contos posso dizer que não gostei apenas de um, a maioria me agradou muito. Sou do tipo de pessoa calejada com filmes e séries de terror, não me assusto fácil ou sinto medo, porém na literatura o jogo vira e eu costumo me entregar mais as histórias macabras e nessa coletânea encontrei diversos exemplos de arrepiar a espinha, sentir aquele medo gostoso. Cada história conta com uma introdução contextualizando a época e a biografia do autor, ajudando bastante na compreensão dos textos. Os destaques da coletânea são: A janela vedada, Morte na sala de aula, O travesseiro de penas, O Tarn e O cirurgião de Gaster Fell.
Abaixo seguem breves comentários de quase todos os contos:
• A mão do macaco:
A sugestão do horror muitas vezes é tão poderosa quanto à explicitude. Nesse conto há claramente algo de maligno no amuleto que dá título à história, mas o porquê do poder e as consequências do uso dele são misteriosas assim como o final da história, que deixa uma sugestão no ar de arrepiar. 5/5☆
• A família do Vurdalak:
Sombria como toda história de vampiros deve ser. Misteriosa e hipnotizante como o esgar de uma criatura da noite, o leitor é fisgado também. Um conto muito atmosférico e infelizmente pouco conhecido, nunca o vi listado em outras coletâneas do gênero. 5/5☆
• O cone:
HG Wells tece um suspense sobre infidelidade conjugal que, apesar de instigante, é pouco empolgante. 3/5☆
• Os lábios:
Aqui o horror social, tão em voga atualmente no cinema de Peele e outras mídias já dá as caras na literatura do século XIX. Com uma crítica contumaz sobre questão racial, o medo é provocado pelo terror real e palpável do racismo. Guardada as devidas proporções, pode-se considerar esse conto bastante visionário. 4/5☆
• A última visita do Cavalheiro Doente:
O maior mérito desse conto é seu caráter onírico. É como se estivéssemos assistindo ao pesadelo de alguém. Ou quando sonhamos um sonho ruim e temos consciência de que estamos dormindo, mas ainda assim causa muito desconforto. 5/5☆
• A larva:
Curto e aterrorizante! Lembra aquelas histórias que contamos uns aos outros ao redor de uma fogueira num lugar ermo, ou uma história contada por um parente mais velho que jura de pés juntos que é verdade. 5/5☆
• A fera:
Christine encontra Coração das Trevas! A personificação ou a breve sugestão de características vivas em coisas inanimadas sempre me pega de jeito. Aqui sob a ótica lenta mas muito bem contada, a realidade não é confiável. Uma embarcação demoníaca ou surto coletivo? Ambos são assustadores. 5/5☆
• A mulher alta:
Outro conto que mexeu muito com a imaginação e me transportou para uma época em que ouvir histórias macabras dos outros era muito mais assustador do que assistir a um filme na tv. A descrição da mulher do título e o relato de suas aparições são de arrepiar a espinha! 5/5☆
• A janela vedada:
Com uma escrita rebuscada, Bierce conduz com maestria o leitor ora para o sobrenatural ora para o real em doses equivalentes de medo e dúvida. E às vezes apenas o que uma boa história de terror exige é isso, não explicar muita coisa e criar um clima lúgubre, uma ambientação num casebre em que apenas citar que uma janela está vedada há anos já pode causar medo suficiente para você interromper a leitura e olhar para a sua janela, rezando para não ver o que está prestes a se revelar.
O clímax desse conto é de roer as unhas e o plot twist é um dos mais inesperados que já li ou vi. 5/5☆♡
• A volta do parafuso:
Uma clássica história gótica de assombração, com alguns momentos assustadores de verdade. O poder da sugestão aqui é mais forte, estamos diante de acontecimentos sobrenaturais ou o relato inicial de uma história apenas ficcional para assustar um grupo de amigos ou ainda uma pessoa sofrendo de alucinações por um surto psicótico por febre da cabana? A tradução de Marcelo Pen peca no rebuscamento linguístico, o que me afastou do clima proposto. A adaptação de 1961 Os Inocentes é bem mais eficaz no quesito imersão e suspense psicológico. 4/5☆
• O chinago:
O conto não mostra nada de sobrenatural, mas nem por isso não deixa de ser aterrorizante. No contexto histórico da escravidão e colonialismo, o sofrimento e a injustiça que esse período exibia em farta monta, somos apresentados aos chinagos. Seus dramas e sonhos, suas vidas degradantes; o horror, o horror! 4/5☆
• A falsa Esther:
Uma grata surpresa nesse conto trazer uma das temáticas que mais me interessa, o duplo. Esther se vê confrontada por seu duplo e diametralmente oposta, com características que ela abomina. Sua doppelgänger é prostituta, golpista e assassina e existe apenas em livros de Honoré de Balzac. Será? Seria a falsa Esther apenas uma mulher que perdeu a razão ou estamos diante de um caso assombroso... ao final do diário da falsa Esther, temo que a balança pese mais para o lado obscuro! 4/5☆
• A tortura pela esperança:
Um conto breve com um enredo extremamente agoniante. Se passa no contexto da Inquisição medieval. O protagonista está preso e prestes a ser torturado e depois executado. Mas o caminho até seu destino final se prova bem pior do que o aguarda. É sombrio e deixa dúvidas quanto a natureza do personagem principal, sua lucidez ou a presença de algo metafísico. O medo aqui é substituído pela agonia. 4/5☆
• Frumm-flapp:
Aqui o sobrenatural se apoia no mistério dos duplos e no tipo de narrativa fechada em um ciclo, algo de surrealista. O inusitado é o seu autor, Jules Verne, famoso por suas obras de aventura e ficção científica. Aqui ele mostra que o horror também é um de seus fortes, a narrativa é tensa e enervante. 4/5☆
• Melück Maria Blainville, a profetisa particular da Arábia:
História maçante sobre uma mulher misteriosa que não instiga em nenhum momento. A narrativa é confusa e pouco empolgante apenas nas últimas páginas (aliás é um conto excessivamente longo) ocorre situações mais interessantes e dúbias no bom sentido. Não releria nem ao menos para ver se entenderia melhor. 3/5☆
• Morte na sala de aula:
Curiosamente um conto de horror de Walt Whitman, faceta do autor que eu desconhecia. Na introdução de Hélio Guimarães, ele diz que Walt Whitman além do grande poeta que todos conhecem, foi desde professor, tipógrafo, construtor até mesmo enfermeiro. E é de um desses Walts que surge a inspiração para esse conto, o Walt professor. Também de conhecimento geral suas características disruptivas e visionárias na poesia, aqui no conto ele critica o sistema educacional vigente no século XIX e até meados do XX, um sistema opressor e violento, punitivo para o aluno. O professor era um algoz e chegava a causar castigos físicos nos seus alunos. A história explicitamente critica isso e causa muito assombro com um final aterrador e também melancólico. Genial, curto e eficiente! 5/5☆♡
• A casa de Bulemann:
Um conto muito bem escrito, com uma narrativa agradável, se é que se pode dizer isso de uma obra de horror. Horror esse que envolve uma casa sinistra, um personagem a lá Scrooge, fantasia sombria e uma lição de moral ao final da história. A novela ainda proporciona trechos emocionantes, em outros terror físico e animalesco. Aqueles com ailurofobia terão seus medos levandos ao limite nesse conto. 5/5☆
• Halá branco:
O horror da guerra, o sofrimento dos soldados no front, as consequências do conflito na saúde mental dos envolvidos e o antissemitismo são explorados no conto de Lamed Schapiro. O terror aqui é real, palpável e infelizmente se mostrou profético, haja visto que foi escrito no século XIX antes do holocausto na 2ª guerra mundial e todos seus desdobramentos na história recente. Até os últimos parágrafos somos aterrorizados por essa questão bélica, mas eis que no final uma supresa nos faz questionar tudo até então lido, será mesmo que Vassili, o protagonista é o que diz ser? A dúvida paira até as últimas palavras. 4/5☆
• Esperidião (episódio):
A narrativa dantesca desse conto lembra muito a escrita de Clive Barker. Aquele terror profano, envolvendo religião, Demônios e tortura física. A história visceral com ares oníricos, cria um pesadelo daqueles em que o acordar é sempre o objetivo, o sonhador tem consciência que está sonhando, mas não consegue se desprender do pesadelo labiríntico. As descrições são ricas em detalhes, tortura, monstros demoníacos, crianças deformadas e todo tipo de absurdo. Que no fim não deixa de ser apenas um mote religioso, no qual a autora era fortemente inspirada. 5/5☆
• O travesseiro de penas:
Um dos contos de horror bem curtos (2 páginas) mais assustadores que já li. Sua narrativa é misteriosa, uma doença intrigante toma a personagem e vai culminando num final aterrador. O grande horror aqui se mostra apenas nos dois últimos parágrafos com uma revelação totalmente inesperada e arrepiante. Até mesmo aqueles que não tem fobia ou medo do motivo que aflinge a personagem vai sentir um arrepio ao terminar essa história. Kafka deve ter adorado, se ele tiver lido! 5/5☆♡
• Uma vendeta:
Guy de Maupassant escreveu o conto de horror mais aterrorizante que já li até hoje, O horla (não entendi o motivo de não estar presente nessa coletânea). Outros contos dele também são muito bons, atmosféricos e sombrios. Uma vendeta não é tão diferente de outras obras dele, mas nele não há nada sobrenatural. Aqui há uma história de vingança como o título sugere e até o seu final surpreendente, ele não empolga tanto. É bem curto e o seu final salvou de ser uma história pouco empolgante, diferente do restante da obra de Maupassant. 4/5☆
• A fava:
Também um conto bastante curto, sua história é intrigante e, ao contrário dos dois anteriores, merecia ser um pouco maior para explorar o tema bizarro em que ele se apoia, um ciúme doentio e infidelidade conjugal. Com um final literalmente de partir o coração! 4/5☆
• O tarn:
Um conto sobre um vampiro de almas, ou de energias. Não, não se trata daquele clássico ser sedento por sangue, diabólico e charmoso ao mesmo tempo. Aqui temos aquele vampiro que todos conhecemos um espécime pelo menos uma vez na vida. Aquela pessoa que é negativa e suga toda sua energia, cheia de rancor e inveja e que trama todo tipo de desculpas para justificar suas falhas culpando os outros. Sim esse é um horror bem realista e palpável. Os dois personagens da história travam uma batalha fria, regada a muita falsidade, até que no final, há uma guinada para o sobrenatural que deixa o conto melhor ainda. Tem um suspense ótimo e deixa aquele final para refletir. 5/5☆♡
• A selvagem:
Mais um conto que poderia muito bem dar origem a um filme trash dos anos 80 e isso é um baita elogio. Outra história que se apoia na ailurofobia, é eficaz em causar suspense e agonia até nos gateiros. Dá para sentir uma certa vibe de Dracula, vindo do mesmo autor, um castelo medieval, uma besta a espreita. É bem divertido. 4/5☆
• O amigo dos espelhos:
O autor elabora uma crítica social sobre a futilidade e superficialidade material numa intrincada alegoria valendo-se de espelhos para isso. Ainda sobre o adoecimento mental, é um conto simples e direto, seu horror é palpável pois quem de nós está livre de algum problema psiquiátrico no decorrer de nossas vidas? Será que sempre ao olhar num espelhos veremos nós mesmos ou nos reconheceremos? O espelho é frágil, independente de quão caro ou ornado ele for. Essa é a beleza e o terror da pequena história de Georges Rodenbach. 5/5☆
• A aia:
Fui esperando um conto de horror do Eça de Queiroz e recebi um conto dramático e emotivo. Não sei bem o porquê de Alberto Manguel tê-lo selecionado, mas felizmente o foi, pois é uma das histórias mais emocionantes e bonitas que já li. 5/5☆
• A flor vermelha:
Contos de terror que envolvem o tema lucidez versus loucura são bons porque para o são, viver em uma instituição deve ser um dos maiores horrores que pode existir e para os loucos, seus delírios por si só os submergem num terror. Geralmente essas histórias caminham para um final ambíguo que questiona toda a realidade dos personagens loucos ou então a lucidez do leitor ou a capacidade de crer que tudo que acontece no conto é de fato uma ilusão. Aqui nesse exemplo, essa dúvida é levada até a última frase e o leitor é quem decide. 4/5☆
• O que foi aquilo? Um mistério:
Esse conto me causou genuínos arrepios enquanto eu lia. A história contada é sobre dois amigos que enfrentam um ser maligno que é invisível. As descrições das investidas da criatura são aterrorizantes e mesmo não sendo descrita sua forma física, vamos moldando uma ideia sobre seu aspecto através de pequenos detalhes na narrativa. E como um bom conto de terror, o final é envolto em mistério. 5/5☆
• Bárbara, da Casa de Grebe:
Foi com surpresa que me deparei também com um trabalho de horror de um escritor cuja obra principal não é conhecida por esse gênero. Sempre quis ler algo de Thomas Hardy, como Jude, o obscuro; A volta do nativo; entre outros. Após ler um conto dele, tive a certeza que vou ler um romance dele em breve. Sua escrita é hipnótica e nesse conto, apesar de não haver nada sobrenatural, temos o terror tão palpável das relações humanas e suas atrocidades. Casamentos por interesse, amor doentio, rejeição, fetichismo, crueldade, gas lightning e relacionamentos abusivos, sim isso tudo o leitor encontra nesse texto magnífico de Hardy. 5/5☆
• A Casa Mal-Assombrada:
Com apenas duas representantes femininas na coletânea, sendo Edith Nesbit a segunda, ela "brinca" com o leitor levando ora para o sobrenatural, ora para o real. Há um plot twist interessante, além da temática levemente apoiada na ficção científica, muito em voga na época, já que foi nesse período em que muitas descobertas da ciência e do corpo humano foram trazidas a luz. E isso sempre mexeu com o imaginário dos autores e leitores. Aqui também temos um bom exemplo de como criar uma aura de casa mal assombrada, mesmo que isso não seja o principal foco da narrativa. 5/5☆
• O cirurgião de Gaster Fell:
Ninguém mais ninguém menos que o criador de Sherlock Holmes nos brinda com um conto misterioso, cheio de suspense, como era de se esperar do autor. Aos poucos, a narrativa vai dando contornos que também nos faz crer em algo sobrenatural em alguns momentos e em algo real em outros. Como nas narrativas detetivescas que o tornou célebre, no conto ao final temos a revelação impactante do mistério e duvido que alguém posso ao menos suspeitar da solução final. Brilhante! 5/5☆♡
• O rapa-carniça:
Outro conto de um escritor muito famoso por outra obra, um dos pilares da tríade do horror clássico O médico e o monstro, R L Stevenson também explora o meio médico nessa história, porém com um lado mais grotesco ainda. Narrado em formato de moldura, em que a história principal é contada dentro de outra história, somos apresentados a seres inescrupulosos que fornecem cadáveres para aulas de anatomia de forma pouco ortodoxa por assim dizer. O clímax é de gelar a espinha, fazendo você duvidar do que acabou de ler e dá vontade quase que instantânea de ler novamente, é incrivelmente bem narrado e fecha a coletânea de forma amedrontadora! 5/5☆