Lançado em 2022, Mickey7 é um livro escrito por Edward Ashton que parece ter nascido com sorte acima da média: imediatamente após o seu lançamento já teve seu direitos de adaptação adquiridos e no presente ano o filme chegou aos cinemas tendo o aclamado Bong Joon-Hoo como diretor. Infelizmente eu cometi uma falha aqui e ainda não vi o filme, então vou tratar somente da obra original nesta resenha.
A premissa de Mickey7 é bem interessante: em um futuro que parece muito distante, a Terra já espalhou sua raça por todo o Cosmos, através de diversas colônias. Nilfhein é uma delas, um planeta frio e inóspito e sua missão de colonização está recrutando pessoas de diversas áreas. Mas, em um mundo onde historiadores são desvalorizados, nosso personagem principal, Mickey Barnes, especialista em história, não tem nenhuma grande utilidade. Mas Mickey precisa urgentemente sair do planeta onde vive e acaba aceitando a posição que ninguém quer: a de PRESCINDÍVEL, o trabalhador não qualificado que faz as piores tarefas, desde instalar equipamentos em meio à radiação até testar patógenos e vacinas em seu próprio corpo. E sempre que o prescindível morre, sua mente já está gravada em um banco de dados e é transferida a um clone feito sob demanda, com a reserva de proteínas da colônia.
A vida de Mickey não é facil, ele já passou por 6 ciclos de morte/ renascimento (daí o título Mickey7) e ele quase precisa da sétima: em uma das missões, ele cai em um poço profundo e é dado como morto. A colônia recebe esta informação e já manda fabricar o oitavo, mas Mickey7 não morreu e tem que lidar com o problema de ter um duplo seu perambulando por aí quando volta para as instalações da colônia. Faz-se necessário salientar que nesta sociedade, à ninguém é dado o direito de possuir um duplo, por conta de um contexto relatado ao longo da trama. Então, boa parte do livro trata desta interação entre os clones e dilemas sobre quem tem mais direito à vida e etc etc.
O livro é escrito em um tom mais descompromissado e diria que é indicado até para aqueles que não estão tão familiarizados com a ficção científica por conta disso, até para que estas pessoas tenham contato com as pitadas de Hard Sci-fi que o livro possui e irem para um Arthur C Clarke ou Cixin Liu depois. Outro motivo pelo qual este livro tende a agradar os "não-iniciados" é que ele contém alguns conceitos interessantes e filosóficos diversos, mas não se aprofunda em nenhum deles. Então, já que muitos acusam o Sci-fi de ser prolixo, isso pode explicar em parte o sucesso tão imediato. Eu particularmente não gostei tanto desta falta de aprofundamento, as partes das quais eu mais gostei foram justamente as que mais sofreram críticas nas poucas resenhas que li aqui no Skoob: era quando o autor falava sobre as histórias de outras colônias, expandindo aquele universo, que eu mais me divertia com a leitura. Quem gosta de ficção científica sabe que uma das coisas mais legais do estilo é a criação de mundos, quanto mais verossímil, melhor.
Ainda sobre essa expansão da história, que "corria" paralelamente à trama principal, tenho que destacar aqui a história de Alan Manikova: um vilão excelente, muito bem argumentado e desenvolvido em pouquíssimas páginas. Quem leu o livro sabe que o autor contou a história desse personagem para justificar o motivo de não terem clones de forma indiscriminada em um universo onde a tecnologia para isso está plenamente estabelecida. Mas eu acho até meio pueril o autor não ter pensado nos mais poderosos simplesmente quebrando esta regra e criando clones por baixo dos panos; acho inocente também uma sociedade que criou a tecnologia de motores de espaçonaves movidos por matéria escura e que já tem colônias em diversos planetas ainda precisar empregar seres humanos pra testar bactérias no corpo e fazer trabalhos manuais de reparo em locais inóspitos. Poxa, na cena inicial do livro, onde Mickey7 é dado como morto, ele estava fazendo um trabalho de reconhecimento de perímetro ou coisa parecida... Você tem espaçonaves e máquinas de clonagem, mas precisa de um imprescindível pra fazer reconhecimento de área e não tem um simples drone pra fazer isso? É neste tipo de detalhe que um autor do gênero precisa pensar, entendem ? Caso contrário, tudo fica muito infantojuvenil e bobo, pouco crivel. Ah!, fora o fato de Mickey ter 6 mortes TERRÍVEIS e não ter nenhuma sequela psicológica por isso. O autor aparentemente nunca leu nada sobre stress pós-traumático. No mundo real, a pessoa sofre uma tentativa de assalto e já fica totalmente traumatizada, mas Mickey já foi devorado vivo, já cuspiu sangue até a morte - que foi lenta, aliás - mas para ele está tudo bem.
O caso é que eu gostei do livro sim, me diverti - eu sei que não dei essa impressão - mas a verdade é que preferia ler um livro sobre Alan Manikova ao invés de ficar vendo a interação sem graça entre Mickey7 e Mickey8, ver eles fazendo ménage com a namorada do 7 e etc etc etc., enquanto que conceitos realmente legais são tratados de forma mais superficial.
Parece que há uma continuação deste livro, mas se sair por aqui eu não vou ler não, tem obras com muito mais potencial na minha atual pilha de leitura pra ler !!
"AGORA, É SEGUIR PARA O PRÓXIMO, CERTO?"
TS: Mdou Moctar - Funeral For Justice (2024)