O homem Moisés e a religião monoteísta

O homem Moisés e a religião monoteísta Sigmund Freud




Resenhas - O homem Moisés e a religião monoteísta


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Paulo Silas 04/06/2019

Reunindo três ensaios em que toma como ponto de partida a figura de Moisés e todo o fascínio envolto em seu nome e na religião da qual foi fundador, Sigmund Freud estabelece uma interessante análise histórica para chegar numa curiosa e provocante proposta: Moisés era egípcio, tendo dado ao povo hebreu sua religião monoteísta a partir de um basilar dual, de modo que a identidade que fundacionou o judaísmo seria fragmentada, tendo sido erigida a partir de diversos fatores que, para que sejam efetivamente compreendidos, deveria levar todo o contexto situacional que culminou na saída do povo hebreu do Egito e no firmamento de uma religião própria. As afirmativas e as releituras de Freud, além de tomarem como base textos bíblicos e históricos, socorrem-se na psicanálise para dar amparo àquilo que propõe, tendo-se assim um escrito que, por mais perturbador ou controvertido possa ser, torna-se cada vez mais interessante a cada linha lida, resultando num excelente livro.

No primeiro ensaio, "Moisés, um egípcio", Freud fornece os primeiros elementos para sustentar a origem egípcia de Moisés - a começa pelo próprio nome, "Moisés", que provém do vocabulário egípcio. As bases nesse ensaio inicial são mínimas, reconhecendo o autor nesse mesmo sentido, mas já servem para compreender a proposta da ideia do autor.
No segundo ensaio, "Se Moisés era um egípcio...", Freud prossegue questionando a atacada origem judaica de Moisés, questionando e enfrentando suas próprias afirmações, pois "não é fácil descobrir o que pode ter levado um egípcio nobre [...] a se colocar à frente de um grupo de estrangeiros imigrados, cultulramente atrasados, e abandonar com eles o país". Aqui surge a possibilidade de que a religião dada por Moisés ao povo judeu teria sido uma religião egípcia em específico - que teria sido a religião de Aton. O costume da circuncisão é apontado por Freud como elemento que dá guarida para a sua proposta, pois para o autor esse costume teria vindo do Egito. Nesta segunda parte também surge a ideia de que teriam existido dois Moisés - os quais teriam ido fundidos numa mesma pessoa posteriormente para dar firmamento ao judaísmo, estabelecendo Freud as possibilidades de como teria sido dada essa "troca" e posterior união também a partir da psicanálise.
No terceiro ensaio, "Moisés, seu povo e a religião monoteísta", Freud reafirma o pressuposto histórico que dá base para a sua proposta para então tratar da ideia pelo viés psicanalítico, fazendo aqui uma espécie de abordagem com o "paciente" que se trata da própria ideia em si: estabelece um período de latência e tradição para o desenvolvimento da ideia judaica, faz analogias com traumas e neuroses e as aplica na ideia da religião monoteísta ora em análise. Nesse ponto, surge dentre as explicações a ideia da horda primitiva e do assassinato do pai desenvolvida por Freud em "Totem e Tabu" - o mito apareceria no assassinato do primeiro Moisés.

Reexaminando teses historiográficas do judaísmo a partir de um aporte psicanalítico, Freud constrói todo um aparato para buscar dar suporte à sua afirmativa de que Moisés teria sido um sacerdote ou príncipe egípcio, explanando ainda de que modo a religião judaica teria sido consolidada a partir de um aspecto não único, mas fragmentário. O desenvolvimento da proposta e do raciocínio do autor é característico, cujas peculiaridades inerentes do seu pensar e da sua escrita estão consequentemente presentes em "O Homem Moisés e a Religião Monoteísta" - um livro polêmico que comporta diversas possibilidades de críticas e reflexões: fazendo-as, cabe ao leitor acatá-las, refutá-las ou ao menos buscar compreende-las.
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Ph 14/03/2015

Um dos últimos escritos...
Freud dedicou muitos de seus escritos à temática da religiosidade, porém por esse ser um dos últimos deles contém a ponta de seus conceitos e prognósticos a respeito do tema, além de ser um olhar único sobre o povo judeu (do qual o autor era parte) e das religiões (não só as mosaicas). Um dos meus Freudismos favoritos, definitivamente!
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