A passagem tensa dos corpos

A passagem tensa dos corpos Carlos de Brito e Mello




Resenhas - A passagem tensa dos corpos


7 encontrados | exibindo 1 a 7


ElisaCazorla 30/04/2019

Quais são as fronteiras entre Vida e Morte?
Mais um livro fácil de ler e difícil de entender. O ritmo é bom, embora o autor tenha se preocupado muito com a forma e, talvez, pouco com a história. Pode ser também que eu não tenha vivido experiências intelectuais suficientes para entender a mensagem ou a crítica do autor.
Algumas ideias são interessantes, mas inacabadas, como o luto que é negado, a morte que é negada e ignorada. A morte que participa do mundo dos vivos sem causar qualquer estranhamento. Essa ideia é muito interessante, pois vivemos em uma sociedade que teme a morte, que esconde a morte e cria rituais para dar significado à morte e, rapidamente, escondê-la novamente. Sabemos que convivemos com a morte ininterruptamente mas, e se a morte fizesse parte de nossas vidas cotidianas na prática? Afinal, o que significa a morte? Qual é a nossa relação com a morte e sua consequência, ou seja, o apodrecer dos corpos que não mais estão vivos?
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Lilly 30/06/2018

A passagem tensa dos corpos
Dividido em 156 capítulos em 256 páginas, esse romance é narrado em primeira pessoa, e seu tema principal é a morte. Seu interlocutor, sem identidade e incorpóreo, passa de cidade em cidade, contabilizando, averiguando e catalogando mortes, suas condições e causas. Segundo ele, um sujeito só pode ser considerado morto, quando assim é reconhecido, ou seja, velado e enterrado, propriamente dito. A cada um ou dois capítulos, o enredo é intercalado com o que parecem recortes de notícias de jornais, retiradas ao acaso e sem fazer questão de nomear os indivíduos, com os relatos dessas mortes. Em tal cidade, uma jovem morreu disso. Em outra, um senhor de idade morreu daquilo. E assim, de forma fria se dá a construção da narrativa.
Mesmo sabendo que são apenas dados e mais dados, através dessas interrupções entre os capítulos, a economia de descrição e o relato dessas mortes, o leitor é levado, penso que propositalmente, a uma situação de incômodo e tensão.
A estrutura do texto também é diferente do que jamais li. De forma bastante interessante, o autor mescla prosa e poesia, às vezes
interrompendo frases,
outras vezes seguindo a prosa em um novo parágrafo em letras minúsculas, sem perder o sentido da frase.


Apesar dos capítulos serem bem curtos, o emprego de palavras pomposas demais dentro do contexto e a construção de frases deixa o ritmo do livro um pouco mais lento.

Ao negar possuir uma experiência espiritual e se mostrar obcecado pela morte do personagem C., o narrador ganha pontos com o intenso suspense em torno do falecido que acompanha de perto.
Existe um estranho tratamento de mãe e filha ? que não vivem o luto e planejam às pressas o casamento desta segunda, que nem mesmo noivo possui. O filho, permanece recluso em seu quarto, e o narrador tenta adivinhar o que faz. Se foge do luto, se vive-o com intensidade, ou sequer sabe que sua irmã e sua mãe se recusam a sepultar seu patriarca e, ainda por cima, o deixam amarrado à uma cadeira na sala de jantar, convivendo diariamente, inclusive fazendo refeições juntos.
Enquanto o narrador mescla essa cena com sua história pessoal, o romance parece engrenar em um grande suspense mórbido e fantástico.
A passagem tensa dos corpos é recheada de ironia e humor negro, o que contrasta muito bem com o clima de suspense do enredo.



O narrador se diz incorpóreo e não dotado de um corpo físico, mas diz possuir língua. Através dela, lambendo apenas restos de comidas e bebidas deixadas pelas pessoas, é que se alimenta. Até o ato sexual para ele é resto, sua maior fantasia é lamber os fluidos da esposa de C.
Um dos fatores que mais me chamaram a atenção no livro, foi o emprego do duplo sentido da palavra língua. Não só usada para descrever a condição aparentemente física do narrador, mas esse vocábulo também expressa sua única forma de enunciação na história: o uso da palavra. ?O trabalho da língua é o que me mantém na passagem tensa de um corpo entre a morte, recolhendo dela o aspecto horrível, mas necessário e uma vida, sustentada pela palavra que com esforço produzi até aqui. Essa tem sido minha maneira de subsistir ainda que nenhum dos dizeres, até agora, tenha sido ouvido. Pelo movimento da língua engrossada e pela debilidade da voz assim se reconhece a enunciação do enforcado.?
?Terminado meu compromisso com C., do modo como me convém terminá-lo, esgotar-se-ão minha fala febril, minha existência em forma de língua e a narrativa que me sustenta.?


Ao mesmo tempo em que narra as mortes com indiferença, quando é confrontado com a situação estranha da família que não quer enterrar seu morto, o narrador começa a julgá-los com severidade, especialmente o filho, que teima em não sair do quarto.
A ansiedade do narrador se dá ao fato de que C. deveria ser seu último relato de mortes. No entanto, como a família ignora seu cadáver e não o reconhece como morto envenenado, o narrador se vê obrigado a conviver naquela casa, aguardando provas de que essa morte seja reconhecida. ?Até o momento, não consegui abandonar este estado
entre desaparecer completamente ou tornar-me um homem inteiro e visível
lugar intermediário onde estou, próximo dos vivos e dos mortos, a marcar com a língua a passagem tensa dos corpos. Talvez eu venha a concluir, um dia, que me acostumei a habitar entre, e que o sofrimento que disso decorre é apenas uma forma incomum de prazer.?

Por fim, A passagem tensa dos corpos é um romance curto, mas de forma alguma raso, que com certeza prende a atenção de seu leitor, tratando de um tema tão grandioso como a morte. O final é surpreendente, e deixa espaço para que seu leitor preencha também parte da história, o que penso ser essencial para o exercício da imaginação.
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Rodrigo 26/01/2018

A PASSAGEM TENSA DOS CORPOS
Um narrador não identificado, incorpóreo, tem a missão de acompanhar e registrar as mortes ao longo de seu caminho, até que se depara com um morto cuja família se recusa a enterrar, e passa a conviver com o corpo no seu dia a dia. Uma das abordagens mais originais que eu já li sobre a morte, poética, com uma ambientação muito peculiar, fazem deste um livro extremamente interessante, e excelente.
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Tati 27/05/2017

Reli para fazer uma relação do livro com Totem e Tabu e, acredito que tenha aproveitado mais a leitura que da primeira vez. Primeiro, porque é evidente como os dois textos estão interligados, dá para perceber logo nas primeiras páginas: qualquer comunidade no mundo será fundada a partir de uma morte e é ao redor de um cemitério que se desenvolvem as cidades. Assim como no texto freudiano, em que a ideia de civilização nasce a partir do assassinato do pai de uma horda, em 'A passagem tensa dos corpos' também um pai é morto, com duas diferenças que penso serem importantes: não se sabe ao certo se foi um assassinato e, se tiver sido, parece que são duas mulheres que o cometeram.

Os nomes das comunidades prestam uma homenagem aos seus mortos de origem mas no texto do livro os nomes dos personagens só aparecem através de uma inicial, porque só se pode dar um nome a alguém depois que essa pessoa morre. Essas informações são contadas por um narrador que não tem corpo, é "só" palavra. Aliás, um narrador que desafia nosso exercício de imaginação, porque ele não tem órgãos mas a descrição me fez pensar em decrepitude. É possível imaginar o vazio decrépito? É possível imaginar o vazio constituído de linguagem? Segundo Lacan, não, a linguagem é o que rodeia o vazio que nunca poderá ser colocado em palavras porque fazer isso seria morrer. Mas, ele também diz que, mesmo sabendo ser impossível nós seguimos tentando e é esse constante dar voltas em torno desse vazio que constitui a nossa experiência. O livro 'A passagem tensa dos corpos' seria então essa experiência de escrever o que não pode ser escrito através de um narrador que é, ele mesmo, pura letra.

O narrador tem mais uma peculiaridade: ele só se alimenta de restos. Migalhas de pão, pingos de bebida que caem no chão, tudo aquilo que o corpo humano tocou e não quis, ele come. Até o ato sexual para ele é resto, sua maior fantasia é lamber os fluidos da esposa do marido que morreu. E por isso vive cheio de fome. Ah, esqueci de falar: esse narrador está esperando numa casa que o pai morto seja enterrado porque é só a partir da nomeação da morte que ele pode viver mais um pouco. Mas a família se recusa a fazer isso e o morto fica na mesa apodrecendo enquanto o narrador ronda a vida da família esperando que algo aconteça. Há aí também a imagem simbólica de um luto que não é realizado e ao mesmo tempo, não, porque fiquei com a sensação que, na verdade, o pai era meio desnecessário para a família e se ele não é enterrado é porque ninguém percebeu que ele está morto.

Por fim, mas não menos importante, a narrativa é entremeada pelo que acredito serem casos reais de mortes. Parecem notícias recortadas de jornais que aparecem depois de um capítulo ou dois lembrando o que o livro diz no começo: a morte é o que funda a palavra e a civilização, ela está aí o tempo todo, negar a sua existência ou higienizá-la para que fique longe dos nossos olhos - prática muito comum hoje em dia - é aumentar consideravelmente a dose de angústia em nossa vida.
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Leonardo 22/04/2014

Uma história (?) singular de um autor muito interessante
“Toda palavra proferida ao redor da morte comporta, pelo menos, um fonema enlutado, e as perturbações de fala são formas pelas quais

morrer obseda a língua”

Carlos de Brito e Mello é um escritor meio louco e muito estranho. Já havia comentado algo similar quando resenhei A Cidade, o Inquisidor e os Ordinários (aqui), um livro mais ambicioso que este aqui. O que não significa, deixo claro, que A passagem tensa dos corpos seja menos estranho.

O que conta o livro?

Notícias de morte pelo interior de Minas Gerais. Na cidade tal, fulano se envenenou, na outra, beltrano morreu afogado, e assim vai. O narrador visita cada cidade em busca de notícias sobre a passagem tensa dos corpos, registrando-as oralmente.

Qual o “problema” que move a narrativa?

Numa determinada cidade, um homem é envenenado. Ele presencia a cena. Aquele deveria ser seu último relato. Ocorre que a esposa e os dois filhos do morto/assassinado agem de forma estranhíssima. Amarram-no à cadeira na sala de jantar e continuam sua rotina como se ele não tivesse morrido. A mãe e a filha planejam um casamento urgente, antes que haja noivo. E o narrador fica inquieto, já que sua missão só é considerada cumprida quando oficialmente o morto é considerado morto, ou seja, quando ele é enterrado.

Quem conta o livro?

O narrador é uma espécie de morto/fantasma. Ele não tem corpo, só uma língua, com a qual narra as mortes e lambe restos de alimentos (É assim que ele sobrevive! Não pode comer nada, apenas lambe o que os outros deixaram, incluindo até mesmo uma cachacinha no chão de um boteco jogada para o santo!). Sua fixação oral é justificável (afinal, enquanto corpo, ele é uma língua) e rende momentos impagáveis.

Ao mesmo tempo em ele narra as mortes com indiferença, quando é confrontado com a situação estranha da família que não quer enterrar seu morto, ele começa a julgá-los com severidade, especialmente o filho que teima em não sair do quarto. Neste momento, sua voz torna-se bastante parecida com a do Decoroso, de A Cidade, o Inquisidor e os Ordinários.

“Até o momento, não conseguir abandonar este estado

entre desaparecer completamente ou tornar-me um homem inteiro e visível

lugar intermediário onde estou, próximo dos vivos e dos mortos, a marcar com a língua a passagem tensa dos corpos. Talvez eu venha a concluir, um dia, que me acostumei a habitar

entre, e que o sofrimento que disso decorre é apenas uma forma incomum de prazer.”

Enquanto tenta resolver a situação do morto, o narrador vai nos contando sobre outras mortes. É sua profissão, sua obsessão. Vamos aos poucos aprendendo mais sobre ele e sobre o que o motiva – o que não reduz a estranheza da narrativa.

Ao final do livro – é curto, a leitura é rápida –, mais do que “Que livro bom!”, o que me vinha era “Que livro estranho!”. O livro é ruim? Não, longe disso. É bem escrito, o ritmo é excelente, a história é divertida, sem ser rasa (afinal, é um livro sobre a morte), o narrador é uma figura interessante. Faltou algo para que funcionasse melhor comigo, só isso.

“Não tenho glande, mas

verbos para o intumescimento e para a ejaculação. Caminho porque afirmo caminhar. Corro porque enuncio que corro. Vejo porque digo que vejo. Sou aquilo que anuncio ser, conquanto me falte consistência e certeza. Se tenho dúvida ou se me equivoco é porque a dúvida e o equívoco são também acontecimentos da linguagem.”

Um livro cujo narrador diz isso não pode ser ruim, pode?

Minha Avaliação:

3 estrelas em 5.

site: http://catalisecritica.wordpress.com
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Erica 28/03/2012

Os homens estão sempre a faltar
O narrador é a personagem principal deste livro. Ele é cercado pela transição inevitável dos vivos para a morte. Ele só pode narrar, enunciar, os mortos que são velados. Para seu último trabalho, ele escolhe um morto por envenenamento. Mas esse é diferente. Sua morte não é velada, passada por um velório, mas sim velada, de ignorada, escondida. A família, em vez de considerar o morto, morto, decidem por ignorá-lo, deixando-o amarrado na sala. As famílias escondem e ignoram tantos segredos e detalhes mórbidos da vida, por que não ignorar também um cadáver?
Bem, o narrador decide continuar sua vigília, aguardando ansioso pelo desfecho.
O narrador também conta sua própria história, e ele não é o que nos parece ser no início. E, aí, acho que há uma idiossincrasia. Ele parece ter amadurecido no estado de passagem, mas não caberia a ele ser tão versado em assuntos sexuais. Só há esse porém, o livro é espetacular.

Trechos:
"A morte faz restos, e os restos concernem a mim" (p.15)

"Talvez du venho a concluir, um dia, que me acostumei a habitar entre, e que o sofrimento que disso decorre é apenas uma forma incomum de prazer" (p.108)

"O adjetivo submete, o adjetivo constrange. O adjetivo serve como uma baia estreita" (p.123)

"Sobre os homens, entretanto, nesta narrativa, não há muito a dizer. Eles estão sempre a faltar. Falta C. porque está morto. Falta o filho, que está recluso. Falta o noivo da filha, inexistente. Falto eu, incorpóreo." (p.159)

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MarieMatos 26/05/2010

Mais forma menos história
Primeiro tenho que dizer que o livro vale a pena ser lido. Mas a preocupação com a forma é muito maior do que com a história. Acho que forma é fundamental, ela desenha a história, cria clima. Mas para mim uma boa história é fundamental. E essa história é apenas boazinha...
Alécio Faria 07/11/2014minha estante
Estou com a mesma sensação, depois de ler este livro. Muita retórica, e pouco conteúdo.


Lugmara 06/12/2014minha estante
Sua resenha me fez desistir de ler!
rsrs
E pela sua avaliação, ele não deve ser muito bom mesmo não.


Gentil 23/04/2020minha estante
Para um romance de estréia, é brilhante.




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