Torto arado

Torto arado Itamar Vieira Junior




Resenhas - Torto arado


11 encontrados | exibindo 1 a 11


leandro_sa 06/09/2019

Um romance necessário
Torto Arado fala sobre um Brasil real e profundo e também sobre as mazelas que ele precisa resolver. Desigualdade, racismo, reforma agrária e patrimonialismo são assuntos que aparecem no romance de @itamarvieirajr . Ao focar na relação de dependência que se estabelece entre as irmãs Bibiana e Belonísia, além das relações familiares em uma comunidade quilombola, o autor aprofunda as emoções pelas quais as personagens são atravessadas e consegue fugir de uma narrativa panfletária. Torto Arado é de uma inquestionável qualidade literária.

Durante a leitura do romance percebi várias vezes os motivos que me levam a estar sempre em contato com a literatura contemporânea. É sempre uma experiência empolgante ler uma obra de nível tão alto e perceber que o autor vive ao mesmo tempo que você e reflete sobre as mesmas questões que te angustiam.
comentários(0)comente



Paulinho 22/10/2019

Torto Arado um novo clássico da literatura brasileira.
Na FLIPELÔ (Festa Literária Internacional do Pelourinho) em Salvador, deste ano (2019), fui a uma mesa incrível com Ana Maria Gonçalves autora de um defeito de cor e o até então desconhecido Itamar Vieira Júnior chamada “(in) visibilidades sociais: a literatura como espaço de vozes historicamente silenciadas”. Gostei muito das falas do Itamar, das suas referências literárias e fiquei empolgado para ler seu mais novo livro, Torto Arado. Dia 24 de agosto foi o lançamento do livro, mas não pude ir, pois estava a comemorar meu aniversário, porém os deuses da literatura me deram mais uma oportunidade, Itamar Vieira Júnior estará na FLICA, Festa Literária Internacional de Cachoeira, cidade do Recôncavo baiano, na quinta-feira, 19:00. Então tratei de comprar meu exemplar de Torto Arado e acabei de lê-lo hoje (22 de outubro). Quando o primeiro capítulo findou eu estava horrorizado e fascinado. Ao longo da leitura tive acessos de choro. A história narra uma realidade muito próxima da que eu vivi de perto. Minha infância foi na roça, interior da Bahia, numa localidade rural, Terra Seca, de um município chamado Laje, minha avó morava na terra alheia, e podia morar lá para cuidar da terra, na colheita do cacau eu e meu irmão de 5 e 4 anos ajudávamos a pegar o cacau. Em nossas aventuras com facão quase tive meu dedo arrancado por ele.

Quando chagamos a Terra Seca não havia eletricidade na maioria das casa, fogão a gás, ou água encanada e isso foi início da década de 90, tenho apenas 31 anos, por isso a realidade narrada em Torto Arado me foi familiar e arrebatadora. Sai da roça aos 10 fui morar na cidade, e aos 18 vim estudar em Salvador, sou um leitor voraz, mas pouquíssimos livros se aproximaram em narrar vidas como a da minha infância, como de pessoas como minha avó. Zeca Chapéu Grande personagem de Torto Arado me remetia as história que minha avó contava sobre seu pai, Lídio, que também era curador. Por essas outras esse livro me tocou profundamente, porém seu mérito como em qualquer grande clássico está em um texto belo, lírico, melancólico, violento.

As construções das narradoras, os ecos entre os capítulos, dá a uma realidade tão triste também beleza, vida, exuberância, amores, desejos. Uma prosa lapidada, uma história de grande força e com personagens que se tornaram parte do meu imaginário, Bibiana e Belonísia, assim como Ivan Karamázov, Blimunda, Úrsula de Cem anos de Solidão, André de Lavoura Arcaica e tantos outros, faz dessa obra um retrato artístico de grande beleza e importância. Senti depois de findar a leitura, que nem eu, nem minha avó, nem meu bisavô, morreremos, estamos eternizados nos reflexos desses personagens de papel e tinta.
Julia.Castro 01/01/2020minha estante
Adorei a resenha! Torna o livro mais real ainda! Obg por compartilhar sua história! Acho q vou gostar mto!


Paulinho 02/01/2020minha estante
Fico feliz em compartilhar as impressões dessa obra maravilhosa, Júlia. Leia-o!!!




Alexandre Kovacs / Mundo de K 07/09/2019

Itamar Vieira Junior - Torto arado
Editora Todavia - 264 Páginas - Capa de Elisa v. Randow - Ilustração de capa de Linoca Souza - Lançamento: 07/08/2019

O romance de estreia de Itamar Vieira Junior já nasce com a força das obras clássicas, tanto na beleza e originalidade do texto quanto no caráter universal e humanista do tema, a história de gerações de uma mesma família de descendentes de escravos, vivendo em uma fazenda chamada Água Negra, na Chapada Diamantina, interior da Bahia, onde são mantidos outros trabalhadores rurais em regime de servidão, uma prática que, infelizmente, ainda permanece em muitas regiões formadas por latifúndios em nosso país. O livro vem preencher, portanto, uma lacuna de obras na literatura brasileira sobre essa ferida social que ainda não conseguimos curar.

A partir de um núcleo de personages formado pelas irmãs Bibiana e Belonísia, filhas de Salustiana Nicolau e Zeca Chapéu Grande, assim como de sua misteriosa avó paterna Donana, o autor apresenta um painel mais amplo sobre os negros que não foram efetivamente libertados após a abolição e sua adaptação social e cultural. A manutenção de crenças religiosas como o jarê, típica dessa região, que incorpora elementos do catolicismo oficial às culturas negras e indígenas é um exemplo. Zeca Chapéu Grande é um "curador de jarê", indivíduo que tem a capacidade de curar o corpo e o espírito, atendendo às demandas da comunidade carente local, sem outras opções de ajuda. As festas de jarê são eventos onde ocorre a prática do Encantado que consiste na incorporação de entidades pelos praticantes.

O romance é dividido em três partes, cada uma narrada na voz de uma protagonista feminina diferente. Na primeira, o ponto de vista é de Bibiana, a irmã mais velha, que dá início ao romance a partir de um acidente doméstico que provocou a mudez de Belonísia, quando as irmãs, então com seis e sete anos, descobriram o brilho de uma faca com cabo de marfim, escondida na mala de roupas da avó. O fio de corte dessa faca, ao amputar acidentalmente a lingua da pequena Belonísia, unirá para sempre a vida das duas irmãs, apesar de deixar uma delas isolada das outras pessoas e do mundo, na solidão do silêncio. Com o passar do tempo, Bibiana se envolverá politicamente com a luta dos trabalhadores pela posse da terra e contra as desigualdades sociais, casando-se com o primo Severo e fugindo da fazenda.

"Nos primeiros meses após perder a língua fomos tomadas de um sentimento de união que estava embotado com aquele passado de brigas e disputas infantis. No início se instalou uma grande tristeza em nossa casa. Os vizinhos e compadres vinham nos visitar, fazer votos de melhoras. Minha mãe se revezava com as vizinhas, que olhavam os filhos menores enquanto ela cozinhava papas, mingau de cachorro para ajudar na cicatrização, purês de inhame, batata-doce ou aipim. Nosso pai seguia para a roça ao nascer do dia. Rumava com seus instrumentos depois de passar a mão nas nossas cabeças com suas preces sussurradas aos encantados. Quando retomamos as brincadeiras, havíamos esquecido as disputas, agora uma teria que falar pela outra. Uma seria a voz da outra. Deveria se aprimorar a sensibilidade que cercaria aquela convivência a partir de então. Ter a capacidade de ler com mais atenção os olhos e os gestos da irmã. Seríamos as iguais. A que emprestaria a voz teria que percorrer com a visão os sinais do corpo da que emudeceu. A que emudeceu teria que ter a capacidade de transmitir com gestos largos e também vibrações mínimas as expressões que gostaria de comunicar." Trecho da Parte I - Fio de corte (p. 23)

Na segunda parte, ficamos conhecendo o ponto de vista de Belonísia que se identifica mais do que Bibiana com o trabalho no campo e as crenças religiosas dos pais. Ela permaneceu na fazenda Água Negra, aprendendo a conviver com a natureza e a escapar de um destino de submissão imposto por uma sociedade controlada por homens, ainda mais no caso de uma mulher negra. Nessa luta desigual pelos direitos mais elementares, ela herdará a coragem e determinação da avó Donana, simbolizada pelo seu punhal de cabo de marfim. Bibiana e Belonísia, por meio de caminhos muito diferentes não aceitaram a escravidão como destino.

"Passado muito tempo, resolvi tentar falar, porque estava sozinha me embrenhando na mesma vereda que Donana costumava entrar. Ainda recordo da palavra que escolhi: arado. Me deleitava vendo meu pai conduzindo o arado velho da fazenda carregado pelo boi, rasgando a terra para depois lançar grãos de arroz em torrões marrons e vermelhos revolvidos. Gostava do som redondo, fácil e ruidoso que tinha ao ser enunciado. 'Vou trabalhar no arado.' 'Vou arar a terra.' 'Seria bom ter um arado novo, esse arado está troncho e velho.' O som que deixou minha boca era uma aberração, uma desordem, como se no lugar do pedaço perdido da língua tivesse um ovo quente. Era um arado torto, deformado, que penetrava a terra de tal forma a deixá-la infértil, destruída, dilacerada. Tentei outras vezes, sozinha, dizer a mesma palavra, e depois outras, tentar restituir a fala ao meu corpo para ser a Belonísia de antes, mas logo me vi impelida a desistir. Nem mesmo quando o edema se desfez consegui reproduzir uma palavra que pudesse ser entendida por mim mesma. Não iria reproduzir os sons que me provocavam desgosto e repulsa e ser alvo de zombaria para as crianças na casa de Firmina, ou para as filhas de Tonha." Trecho da parte II - Torto arado (p. 127)

Na última parte, uma nova entidade encantada, Santa Rita Pescadeira, assume o controle da narrativa e de alguns personagens também. Uma solução original que permite ao autor a adoção de um narrador onisciente, altenando as vozes em primeira, segunda e terceira pessoas, e conduzindo a trama para o seu final com uma visão geral e independente. A beleza do texto contrasta com uma ficção que tem o gosto amargo da realidade, herança de um passado colonial que precisamos transformar, e para isso também serve a literatura.

"Meu povo seguiu rumando de um canto para outro, procurando trabalho. Buscando terra e morada. Um lugar onde pudesse plantar e colher. Onde tivesse uma tapera para chamar de casa. Os donos já não podiam ter mais escravos, por causa da lei, mas precisavam deles. Então, foi assim que passaram a chamar os escravos de trabalhadores e moradores. Não poderiam arriscar, fingindo que nada mudou, porque os homens da lei poderiam criar caso. Passaram a lembrar para seus trabalhadores como eram bons, porque davam abrigo aos pretos sem casa, que andavam de terra em terra procurando onde morar. Como eram bons, porque não havia mais chicote para castigar o povo. Como eram bons, por permitirem que plantassem seu próprio arroz e feijão, o quiabo e a abóbora. A batata-doce do café da manhã. 'Mas vocês precisam pagar esse pedaço de chão onde plantam seu sustento, o prato que comem, porque saco vazio não fica em pé. Então, vocês trabalham nas minhas roças e, com o tempo que sobrar, cuidam do que é de vocês. Ah, mas não pode construir casa de tijolo, nem colocar telha de cerâmica. Vocês são trabalhadores, não podem ter casa igual a dono. Podem ir embora quando quiserem, mas pensem bem, está difícil morada em outro canto.'" Trecho da parte III - Rio de sangue (p. 204)

O romance foi o vencedor em 2018 do tradicional prêmio literário português LeYa que resumiu da seguinte forma a justificativa pela escolha: “pela solidez da construção, o equilíbrio da narrativa e a forma como aborda o universo rural do Brasil, colocando ênfase nas figuras femininas, na sua liberdade e na violência exercida sobre o corpo num contexto dominado pela sociedade patriarcal”. Não deixa de ser surpreendente que um livro inspirado em um universo tão regionalista do nosso sertão baiano tenha sido escolhido por uma premiação portuguesa, o que só se justifica, como citei na abertura, pelo caráter universal e humanista da obra. Algo me diz que ainda vamos ouvir falar muito de Itamar Vieira Junior.
comentários(0)comente



leila.goncalves 07/08/2019

Vencedor Do Prêmio Leya
2018 foi um ano de conquistas para o escritor Itamar Vieira Júnior. Seu livro de contos, ?Oração de Um Carrasco, foi finalista do Prêmio Jabuti e ?Torto Arado?, seu segundo romance, venceu o Prêmio Leya concorrendo com 348 inscritos.

Durante a cerimônia que anunciou o resultado, o júri atribuiu esta vitória ?a solidez da construção, o equilíbrio da narrativa e a forma como ela aborda o universo rural do Brasil, colocando ênfase nas figuras femininas, na sua liberdade e na violência exercida sobre o corpo num contexto dominado pela sociedade patriarcal?.

Indiscutivelmente, ?Torto Arado? é um livro de cunho político, pois reporta a uma população miserável, de pouca visibilidade e à margem dos direitos essenciais à dignidade humana. Em paralelo, ele também se distingue pela elegância poética e marcante religiosidade, aspectos que já estão presentes nos trabalhos anteriores do autor que se atreve a seguir no sentido oposto de uma literatura contemporânea urbana, de prosa enxuta e direta.

O romance é protagonizado por duas irmãs: Bibiana, a mais velha, e Belonísia, vítima de um acidente na infância que lhe roubou a fala. Assim como o título, seu mutismo é um interessante tropo para a Fazenda Água Negra, na Chapada da Diamantina, onde nasceram e foram criadas. Em linhas gerais, um lugar onde ainda há ?trabalhadores que vivem em regime de servidão e escravidão.? São descendentes de negros e para eles, a Abolição nunca passou de uma data marcada no calendário?, conforme afirma Itamar.

?Torto Arado? também se distingue pela polifonia. Bibiana, decidida a melhorar de vida, e Belonísia, satisfeita com o trabalho na fazenda, alternam as vozes narrativas nas duas primeiras partes do livro, expondo um relacionamento ora próximo ora distante, marcado pelo afeto, mal entendidos e o ciúme. Já na último terço da história, quem assume o comando é Santa Rita Pesqueira, uma ?encantada? ou ?entidade? do Jarê: religião de matriz africana, mais especificamente um candomblé de caboclo, que existe exclusivamente na região e suas origens remontam ao século XIX, durante o período do garimpo.

Itamar manteve contato com o culto do Jarê durante seu doutorado em Antropologia e Estudos Étnicos pela Universidade Federal da Bahia e a personagem em questão é quem revela os segredos da família de Donana do Chapéu Grande, ?curadora? ou ?feiticeira? que é avó paterna das irmãs e inaugura uma saga familiar envolvendo varias gerações.

Fascinante é um adjetivo adequado para ?Torto Arado?. Aliás, um romance que li aprisionada pelos caminhos tortuosos de uma trama que conduz a uma instigante constatação: ?Sobre a terra há de viver sempre o mais forte?.
comentários(0)comente



Dulce.Cerqueira 09/01/2020

Amei
Estou encantada com a beleza, a profundidade e a sensibilidade da linguagem e da história de Itamar Vieira Junior!
Me arrepiei diversas vezes com a poesia de sua narrativa.
Lindo!
comentários(0)comente



Krishnamurti 03/09/2019

Romance “Torto arado” vencedor do Prêmio Leya 2018 mostra um país imerso em conformismo e incapaz de transformar seu destino
O grupo editorial português LeYa, foi apresentado oficialmente em 7 de janeiro de 2008 como uma empresa holding, com o objetivo de se firmar como maior grupo editorial de toda a lusofonia. Em Portugal, o Grupo é líder na área dos livros de edições gerais e o número dois na área dos livros escolares. No mesmo ano de sua inauguração, foi instituído o Prémio LeYa, que visa premiar anualmente um romance inédito, escrito em português, com um montante de 100 000 euros e a publicação da obra, constituindo-se assim, atualmente, como o maior prêmio literário da língua portuguesa. O Prêmio LeYa de Romance para autores lusófonos foi concedido em 2018 ao escritor baiano Itamar Vieira Junior com “Torto arado”.

Essa obra do senhor Itamar Vieira Júnior constitui-se como uma espécie de microcosmo da formação e desenvolvimento de nosso país. Vejamos por quê. Sua bem urdida trama situa-se nas profundezas dos sertões baianos em um tempo que transcorre entre a libertação dos escravos (1888), até mais ou menos por volta dos anos 60/70 do século XX. Não há datações precisas no texto exceto alguns pequenos detalhes que nos permitem situá-la nesse período.

A ficção gira em torno da história da família de duas irmãs, Bibiana e Belonísia que vivem na Fazenda Água Negra localizada em algum ponto da confluência dos rios Santo Antônio e Utinga na Chapada Diamantina, interior da Bahia. As irmãs, que são filhas de humildes trabalhadores rurais, numa dessas brincadeiras tão comuns às crianças, resolvem bisbilhotar a mala da avó que é guardada embaixo de uma cama. E é então que essa brincadeira revela uma faca afiada oculta na mala e, o contato com a faca termina causando um grave acidente. O acidente resulta em que uma das irmãs tem parte da língua amputada. Está criado o conflito. Mas ninguém se iluda de que um enredo dessa natureza envolva casualidades simplistas. O romance é uma grande metáfora desse nosso Brasil onde estão envolvidos os elementos que nos fizeram chegar até aqui da forma como chegamos, a começar pelo que representa socialmente a existência de uma região como a Chapada Diamantina.

No capítulo 19 da segunda parte, o leitor encontrará maiores esclarecimentos acerca da formação social daquela localidade na qual a fazenda foi instalada. A notícias da descoberta de minas de diamantes na região, em fins do século XIX e inícios do XX, levou à região um contingente populacional de ex-escravos de todas as procedências, caboclos e até um consulado estrangeiro foi instalado nas cercanias. Uma verdadeira corrida desordenada se estabeleceu. Foi o faroeste brasileiro, com direito à peripécias do coronel Horácio De Matos (esse homem foi um verdadeiro rei dos sertões baianos) e etc. “Esta terra viveu em guerra de coronéis por muitos e muitos anos. Para trabalhar no garimpo vieram muitos homens escravos das vizinhanças da capital, dos engenhos que já não tinham mais a importância de antes, e das minas de ouro das Gerais”.(p.177/178).

Tudo que ficou dito no parágrafo acima nada tem de fictício. O senhor Itamar Vieira Junior logrou acertar em cheio numa época e num local de nossa história que traduzem perfeitamente o tom e o ritmo de como o Brasil se desenvolveu. E esses, foram ao sabor da improvisação dos interesses imediatistas, da exclusão social, do salve-se quem puder, da baderna geral, da falta de qualquer planejamento que culminou nessa guerra completa entre Deus e o Diabo na Terra do Sol que AINDA HOJE é o Brasil. O autor, publicou há exatos dois anos, um belo livro de contos que li e resenhei. Chama-se “A oração do carrasco”. Naquela obra estes reunidos sete contos, a maior parte deles tocando na questão da escravidão. Em 2017 escrevi na resenha daquele livro:

“Os estudos referentes às características da escravidão (sobretudo quanto às relações entre senhores e escravos) foram analisados até aqui sob duas óticas bastante distintas. De um lado Gilberto Freyre (com o seu trabalho de fôlego - Casa Grande & Senzala), ofereceu-nos o estereótipo do cativo submisso, conformado, acomodado ao sistema escravista. Concebeu a efígie do que, muitos anos depois, Eduardo Silva chamaria do escravo Pai João, ou seja, a imagem da acomodação por excelência. Freyre no conjunto de sua obra, retrata uma escravidão idílica, romântica, na qual os protagonistas foram os escravos que gozaram o cativeiro, acomodando-se a este da melhor forma que puderam. Outros historiadores, como Gorender, deram relevância ao escravo rebelde, aquele que viveria sob o signo da negação. Portanto, concedeu-nos a representação do escravo Zumbi, isto é, o cativo heroificado pela sede de liberdade e coragem de negar o sistema por completo. O escravismo, nesta interpretação, teria sido um sistema de extremo rigor que esmagaria toda e qualquer possibilidade de autonomia dos sujeitos históricos oprimidos, dentro do regime escravista. Estes não teriam a possibilidade de formular projetos, de constituir famílias, de vislumbrar a liberdade sem quebrar com os grilhões da sujeição.”

E o resultado do embate entre o “escravo Pai João” e a figura emblemática de “Zumbi”, a luta entre a ideia do “cativo submisso, conformado, acomodado ao sistema escravista” e os que têm “sede de liberdade e coragem de negar o sistema por completo”, acabou resultando em uma realidade concreta que se espalhou, guardadas as proporções e especificidades regionais, claro, pelo país inteiro. Querem ver como os poderosos procederam e fizeram a maioria do povo, viver sob a égide do discurso de “Se conformando com os desígnios de Deus”(p.69), que é o discurso eterno no Brasil?

Na fazenda Água Negra, os seres humanos que trabalhavam para a família Peixoto proprietária do feudo, vivia em taperas de barro a lidar eternamente com mosquitos e moscas. Gente que carrega as marcas do abandono: “crianças de barrigas grandes, corpo frágil e principalmente tristeza e medo”. Mas vamos às estratégias daqueles que mesmo com a abolição ainda eram “Os donos da terra conhecidos desde a lei de terras do Império, não havia o que contestar”: Trecho da página 41:

“O gerente queria trazer gente que ‘trabalhe muito’ e ‘que não tenha medo de trabalho’, nas palavras de meu pai, ‘para dar seu suor na plantação’. Podia construir casa de barro, nada de alvenaria, nada que demarcasse o tempo de presença das famílias na terra. Podia colocar roça pequena para ter abóbora, feijão, quiabo, nada que desviasse da necessidade de trabalhar para o dono da fazenda, afinal, era para isso que se permitia a morada. Podia trazer mulher e filhos, melhor assim, porque quando eles crescessem substituiriam os mais velhos. Seria gente de estima, conhecida, afilhados do fazendeiro. Dinheiro não tinha, mas tinha comida no prato. Poderia ficar naquelas paragens, sossegado, sem ser importunado, bastava obedecer às ordens que lhe eram dadas. Vi meu pai dizer para meu tio que no tempo de seus avós era pior, não podia ter roça, não havia casa, todos se amontoavam no mesmo espaço, no mesmo barracão.”

Numa coletividade como aquela, desenvolveu-se também, e não podemos deixar de referir, aquilo que entre os homens sempre entra no capítulo do imponderável – porque se assim não o fosse seria insuportável viver sob tais condições. Um culto religioso conhecido como Jarê. Religião de matriz africana, mais especificamente um candomblé de caboclo, que existe em cidades do Parque Nacional da Chapada Diamantina, notadamente em Iraquara, Lençóis, Mucugê e Palmeiras. Uma de suas principais particularidades é o grande sincretismo religioso, um amálgama das nações bantu e nagô, as quais se uniram o culto aos caboclos. Prática religiosa agraciada inclusive, no fim de 2013, com o prêmio Culturas Populares, do Ministério da Cultura, o jarê está ligado à história do lugar. Foi criado por escravos e libertos, vindos principalmente das cidades de Cachoeira e São Félix, e levadas àquela área de garimpo de diamantes. Muitos se fixaram nas cidades de Lençóis e Andaraí, onde deram início ao culto do chamado jarê de nagô – aquele que só cultuava as divindades africanas, os orixás. Mas a convivência com os descendentes de indígenas na região foi fazendo com que aos poucos suas entidades fossem sendo incluídas no jarê, dando surgimento à forma contemporânea dessa religião. Diferentemente do que ocorre no candomblé, liderado majoritariamente por mães de santo, no Jarê predominam pais de santo na iniciação de novos adeptos.

Assim, encontramos no romance, a figura de Zeca Chapéu Grande, (pai das duas meninas), que se constitui o esteio espiritual da comunidade. Mas não há como uma religião, ou entidade, modificar as circunstâncias. É questão exclusiva de nosso livre arbítrio. Essa e outras questões periféricas, constituem a outra grande metáfora do livro. Enquanto Belonísia, que ficou muda, em razão daquele acidente na infância, era muito adaptada a uma vida de semi-escravidão, sua irmã Bibiana toma consciência do estigma da servidão imposto à família, e decide lutar pelo direito à terra e pela emancipação dos trabalhadores rurais. Aí temos o simbolismo maior da obra. A divisão. Falta-nos um espírito coeso de união no sentido de mudar, de modificar positivamente as circunstâncias sociais em que nos acomodamos, por medo, ou por achar que, (e vejam que estreiteza de pensamento): “no tempo de seus avós era pior, não podia ter roça, não havia casa, todos se amontoavam no mesmo espaço, no mesmo barracão”. E que trabalhar sob quaisquer condições, ainda assim, é melhor do que ser escravo!

Muito bem, sigamos só mais um pouquinho com a trama. Um dos personagens do romance, Severo, depois que a Fazenda mudou de dono, porque a família Peixoto se acabou com o tempo, tentou se insurgir contra a situação que perdurava. Ele tentava convencer os habitantes da fazenda: “Que nossos antepassados migraram para as terras de Água Negra porque só restou aquela peregrinação permanente a muitos negros depois da abolição. Que havíamos trabalhado para os antigos fazendeiros sem nunca termos recebido nada, sem direito a uma casa decente, que não fosse de barro, e precisasse ser refeita a cada chuva. Que se não nos uníssemos, se não levantássemos nossa voz, em breve estaríamos sem ter onde morar. A cada movimento de Severo e dos irmãos contra as exigências impostas pelo proprietário, as tiranias surgiam com mais força. No começo o dono quis nos dividir, dizendo que aquele ‘bando de vagabundos’ queria a fazenda dele, comprada com o seu trabalho. Aquele sentimento de desamparo que o povo havia sentido com a morte de meu pai foi sendo substituído pela liderança de Severo, para alguns. Outros não viam com bons olhos o movimento e se opuseram abertamente a meu primo, divergindo, entrando no jogo do fazendeiro para minar nossas forças. Guiavam seus animais na calada da noite para destruir nossas roças na vazante. Derrubavam cercas, e meses de trabalho viraram pasto na boca do gado”. (p.197). E o resultado da liderança de Severo, foi que ele acabou morto a tiros sem que jamais se soubesse quem foram os assassinos...

O imenso armazém que os portugueses fundaram nos trópicos, e a que deram o nome de Brasil teve seus ciclos econômicos muito bem referidos no romance do senhor Itamar Vieira Júnior. Do ciclo da cana de açúcar já decadente, voamos amalucadamente para a exploração de diamantes, depois (já quase ao final do livro), aparece um novo dono das terras casado com uma mulher histérica que é crente (aqui a religião que se impõe não é mais a católica), e vamos nós no embrulho, no samba do crioulo doido. E o imbecil, resolve criar Porcos! Talvez porque o agro é Tech, o agro é top, o agro é tudo, e o povão (ia escrever aqui negrada, mas a essa altura ninguém é mais preto, ou branco, ou preto misturado com branco ou sei lá o quê) dessa Bruzundanga que se entulhe nos infernos que se transformaram as nossas capitais. Uma coisa assim tem a menor condição de dar certo? Nunquinha!

Poderíamos ser uma grande Nação? Poderíamos ter um país próspero com excelentes condições para os cidadãos? Claro que poderíamos. Mas como, se não temos a menor noção de como desenvolver o país, se uma boa parte de nós quer viver como os senhores reis de Portugal viveram no passado às custas do Brasil? Mesmo que à custa de muita dívida. Queremos gozar a vida enquanto há tempo, mesmo que para isso penhoremos o futuro dos nossos filhos e netos por décadas. Somos egoístas, interesseiros mamando nos subsídios governamentais que queremos eternizar e negociatas que queremos multiplicar. Somos um povo preocupado com nossos umbigos sem qualquer sentido de nação. Somos pobres de espírito. Para nossa desgraça.

E estamos muito empenhados em viver à sombra de facilidades, encostados ao Estado. Como, se a maior parte da população, a que ganha menos, sustenta o país, e a outra parte composta de privilegiados, o país sustenta? Esta degradação tão expressiva abriu lugar à indiferença. Para quê votar se os resultados nas urnas podem ser revertidos por meras trocas políticas tão comuns entre nós? Para quê votar se a política que se vem praticando no país só serve clientelas em vez de servir os cidadãos? Para quê votar se não há candidatos fortes e capazes de orientar mudanças em uma sociedade que se torna cada vez mais parasitária?

E não é para menos. São muitos anos de roubalheira profissional que começa num Estado que há décadas não é exemplo, porque rouba descaradamente aos olhos de todos, comete ilegalidades, mantém corruptos, irresponsáveis e mentirosos no poder e acaba nas empresas e particulares, que seguem o mesmo exemplo. Como diriam os nossos colonizadores portugueses: “Todos a fazerem-se à vida. Todos a safarem-se como podem”. As empresas por outro lado, completamente afogadas em impostos e mais impostos que não se sabe a quem servem. Um Estado ao sabor de eternas reformas disto e daquilo que não leva à parte alguma (e que, pelo amor de Deus não quebrem nossos privilégios!).

Sem uma mudança cultural profunda para adquirir valores fundamentais e redirecionar completamente nossos objetivos, jamais sairemos deste lodo em que o país mergulhou. E equivoca-se profundamente quem pensa que não temos um enorme passado a solucionar. Sem uma reeducação da sociedade que vai se tornando parasitária, e dividida também por isto, seremos eternamente um povo pobre de espírito, a viver num país eternamente miserável sem a capacidade de transformar seus destinos. É a mensagem final que nos fica de um livro como “Torto arado”.

Livro: “Torto Arado” – Romance de Itamar Vieira Junior – Editora Todavia - São Paulo - SP , 2019, 264 p.
ISBN 978-65-80309-31-3
Link para compra e pronta entrega: https://todavialivros.com.br/livros/torto-arado
comentários(0)comente



Nathalie.Murcia 17/01/2020

Excelente obra
É muito gratificante ler uma obra nacional desse quilate, na qual, por intermédio de uma prosa lírica e ao mesmo tempo lancinante, com pitadas de realismo mágico que me recordou o estilo do colombiano Gabriel Garcia Marquez, conhecemos a história nem sempre contada dos escaninhos do Brasil.

Ambientada no sertão da Bahia, as vidas das irmãs Belonisia e Bibiana estará para sempre enredada após um acidente doméstico. Descendentes de escravos, vivendo às margens de um rio, sofrendo nas estiagens e com a falta de recursos, labutando de sol a sol dia após dia, sem salário, apenas em troca de uma casa de barro em pedaço de terra alheia e parca alimentação, além da sujeição ao ciclo de violência de gênero, exploração e marginalização. Essa é a realidade dos moradores de Chapada Velha, que encontram consolo na sabedoria dos mais velhos e dos guias espirituais do jarê. Sonhar mais alto pode ser perigoso e fatal.

A obra foi recomendada na Revista 451, onde tomei conhecimento. Excelente aquisição. Imperdível. Livro rico em escrita, cultura e história.

"Sobre a terra há de viver sempre o mais forte."

Mais resenhas no meu Instagram.

site: http://.instagram.com/nathaliemurcia/?hl=pt-br
comentários(0)comente



Mariana Rocha 17/10/2019

Fortes mulheres.
Um livro sobre mulheres fortes, poderosas, guerreiras. A melhor leitura nacional do ano... Importantíssimo e necessário.
comentários(0)comente



Rodrigo Brasil 01/01/2020

Luta, amor e terra.
Torto arado é aquele livro que nasce clássico. É essencial para entendermos nosso povo e as relações entre patrões e empregados que vigora até hoje.
Uma história com protagonistas mulheres, histórias de luta, amor e pertencimento a terra.
Quem é o dono da terra? O senhor que tem seu nome no papel da escritura da propriedade, ou o trabalhador que semeia aquele chão, cuida do espaço e trata como se fosse sua vida?
São essas relações e histórias que Itamar nos conta. Onde o mais forte sempre há de viver.
comentários(0)comente



Ricardo Santos 06/01/2020

A escravidão no Brasil não acabou
Itamar Vieira Júnior é o mais importante autor baiano da atualidade. Vencedor da última edição do Prêmio Leya, seu romance Torto Arado teve extensa cobertura da mídia portuguesa. Lançado no Brasil pela editora Todavia, a carreira de sucesso do livro continua. Com certeza, em 2020, será um forte concorrente aos principais prêmios literários do país.
Seguindo a tradição de grandes autores baianos, Itamar alia inquietação política e filosófica com apuro literário. Em Torto Arado, o foco é a gente sofrida, os desassistidos, as minorias, os invisíveis sociais. Mas o autor descarta naturalismos fáceis.
Numa prosa fluida e ritmada, cheia de uma poesia dura e contundente, acompanhamos a história de duas irmãs, Bibiana e Belonísia, mulheres negras, da zona rural, ao longo do século 20.
A fazenda Àgua Negra, na Chapada Diamantina, é uma espécie de Macondo às avessas. A fazenda é um lugar de desencanto pelo histórico de explorações e humilhações de trabalhadores negros, mesmo com o fim da escravidão. Contudo, assim como a vida, Àgua Negra não significa apenas sofrimento. Também é palco de poucas alegrias e resistência cultural, por meio de festas, práticas e ritos de matrizes africanas.
O triunfo literário do romance é a construção da visão de mundo das protagonistas. Ambas são pessoas de carne e osso, conscientes de suas limitações e possibilidades. Essa atmosfera lembra muito o cinema e a literatura italiana dos anos 1960 e 1970, que representava a tomada de consciência política do proletariado.
Torto Arado é dividido em três partes. Na primeira, acompanhamos a narrativa pelo ponto de vista de Bibiana, a irmã mais inquieta, a que não se conforma com as injustiças de Água Negra e que sonha com uma vida além dos limites da fazenda. Na segunda parte, é Belonísia quem assume a narração, a irmã mais ligada à terra e aos costumes do lugar, mas nem por isso mais conformada com a violência física e simbólica dos patrões e dos homens. Finalmente, na terceira parte, acompanhamos o desfecho do romance pela voz de uma entidade, Santa Rita Pescadeira.
Em termos formais, de elaboração literária, o leitor não encontrará em Torto Arado uma imitação de fala da roça, numa perspectiva naturalista. Geralmente, a prosa é poética e o português é corretíssimo. O que pode causar um estranhamento. É gente simples falando com um amplo repertório. Mas, sem dúvida, esse contraste é uma decisão política do autor. Uma maneira de afirmar que a trajetória daquelas pessoas vai além de suas palavras. Há a tradição de um povo e a vida interior de cada personagem que superam o contato superficial de quem olha de fora.
A ressalva ao romance fica para a condução do discurso de Santa Rita Pescadeira. Justamente ela por ser uma entidade sem corpo era quem deveria ter uma linguagem mais livre e desafiadora, conhecedora da natureza e da história maior. Mas, infelizmente, algumas passagens perdem o caráter ficcional e ganham ares de panfleto sobre vários temas levantados ao longo do livro. O que obriga o leitor a sair e a retornar àquele universo repetidamente, quando voltamos a acompanhar os momentos finais dos personagens.
Em Torto Arado, vemos uma perspectiva de dentro, o protagonismo do povo negro rural. Fruto de primorosa pesquisa, e mais do que isso, fruto da sensibilidade do autor, que faz um resgate de parte das origens do Brasil, ligando passado e presente.
comentários(0)comente



Conça 01/01/2020

Minhas impressões, opniões e sentimentos...
4.7

Meu curador foi Heider! Entramos em sintonia desde primeiro momento. Uma impressão que consegui registar logo ao conhecer-lo, era que se tratava de uma pessoa bastante aguçada pela leitura e aberta para questionamentos em diversas esferas. Uma simpatia em pessoa, determinado e muito, muito humilde em suas colocações em discussões de livros lido em coletivo, mesmo tendo uma grandeza de conhecimento e fortemente armado para defender aquilo em que acredita, sempre se mostra atento para ouvir e calar diante de outras possibilidades.
Além disso tudo, e pela indicação do livro, já posso dizer que te amo.


Sobre o autor Itamar Vieira Junior, é um escritor brasileiro de Salvador. Formou-se em Geografia na Universidade Federal da Bahia, onde também concluiu mestrado. É doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia com estudo sobre a formação de comunidades quilombolas no interior do Nordeste brasileiro. Em 2018, venceu o Prémio LeYa, com o romance: ?Torto Arado?.

O livro define bem as origens e crenças do povo quilombolas, as mulheres são as protagonistas dessa trama cheia de segredos. Além da indicação, o enredo do livro me causou uma curiosidade tamanha, deixando uma impressão que algo muito além estava a minha espera.

O enredo que traz essas mulheres como protagonistas, mais a sombra de desigualdade social existente até hoje no Brasil e mundo afora, Torto Arado é um romance belo e comovente que conta uma história de vida e morte, combate e redenção, de personagens que atravessaram o tempo sem nunca conseguirem sair do anonimato.

Durante toda narrativa, tive a sensação que estava dentro de uma sala de aula, reaprendendo história, a verdadeira história que nunca foi contada em meu tempo de escola. Mas, com o amadurecimento e assim como Heider, sempre tive curiosidade em querer recuperar essa aula, e com acesso a essa oportunidade, obtive resposta muito parecida com a leitura desse romance.

?Chegou um homem branco colonizador e recebeu a dádiva do reino. Chegou outro homem branco com nome e sobrenome é foram dividindo tudo entre eles. Os índios foram afastados, mortos, ou obrigados a trabalhar para esses donos da terra. Depois chegaram os negros, de muito longe, para trabalhar no lugar dos índios. Nosso povo, que não sabia o caminho de volta para sua terra, foi ficando... (capítulo 19 - páginas 176 a 180).?

Personagens marcantes, de personalidades fortes e sofridas pela suas lutas, elas se dividem durante a narrativa, dando voz e conduzindo o leitor em não torcer por uma em particular, mais-que-tudo pelo coletivo.

Quanto as minhas impressões, opniões e sentimentos, digo que essas mulheres foram projetas para serem senhoras do seu próprio destino, mesmo atravessando tantas provações e privações não desistiram da luta. Quando tentaram algo de melhor para o futuro, vidas foram ceifadas no intuito que ninguém mais ouvisse uma voz. Esse romance me comoveu, me atormentou e me fez chorar durante a alternância dos capítulos, ocasionando uma ressaca literária e histórica.

Recomendo a obra desse autor extraordinário para quem quer relembrar um tema há muito esquecido, e que tem um valor grandioso em nossa história.
comentários(0)comente



11 encontrados | exibindo 1 a 11