O Petróleo

O Petróleo Daniel Yergin


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O Petróleo


: uma história de ganância, dinheiro e poder




Daniel Yergin transforma o petróleo em ator principal da sua obra. Das muralhas de Jericó à Guerra do Golfo, o petróleo aparece como um dos pilares da economia global ocupando papel central em inúmeros conflitos internacionais. Entre o momento atual e a antigüidade, o autor destaca desde episódios históricos conhecidos, como as duas grandes guerras mundiais, a inúmeros pequenos acontecimentos desconhecidos da maioria de nós. Todos relacionados direta ou indiretamente ao petróleo, e anuncia que: "A tela é global. A história, uma crônica de acontecimentos épicos que dizem respeito à vida de todos nós". A obra rendeu a Yergin o prêmio Pulitzer, um dos mais importantes da literatura.



O livro tem sido amplamente usado em cursos de graduação e pós-graduação das mais diversas áreas, desde história e geografia, à economia e engenharia. A obra, além de acessível, desperta a atenção de qualquer leitor, em especial porque o autor abusa de uma linguagem cotidiana, transformando o petróleo em um tema envolvente, com tons de aventura, romance e ficção. Absorvendo matérias de qualquer procedência, sem preconceito em relação à linguagem ou estilo, o autor serve-se de fontes das mais variadas, incluindo não só fontes escritas e nem só fontes teóricas. Sua narrativa surge de conversas em reuniões secretas, trechos de discursos políticos, filmes, cartazes, propagandas, matérias de jornal, livros de história, fotografias entre outros. Introduz, desta forma, múltiplos personagens - políticos, industriais, frentistas, magnatas, donas-de-casa, artistas, xeiques, sindicalistas, reis, atores, lideres religiosos, empresários, cientistas... - criando uma obra marcada por passeios entre ciência, literatura, política, história, economia, cinema e fotografia.



O livro é dividido em seis partes. Em Os fundadores, episódios de guerras na antigüidade, quando o petróleo torna-se uma arma utilizada para incendiar navios e, depois, como combustível para os navios de guerra, bem como a produção e usos de outros derivados do petróleo em uma íntima relação com a lógica de mercado. Em O conflito global, o autor enfoca os conflitos internacionais de antes, durante e após a primeira guerra mundial e suas relações com o petróleo, e com a consolidação da gasolina como o principal derivado do petróleo, dando início a um período chamado pelo autor de "era da gasolina". Na Guerra estratégica, mostra as relações entre Estados Unidos e Japão, configurando parte da segunda guerra mundial, bem como o uso dos derivados de petróleo pela Alemanha e outros envolvidos no conflito. A era do hidrocarboneto traz características do cenário internacional pós-guerra como a escassez do produto; a conseqüente incerteza energética que também influenciou no início da guerra fria; o estabelecimento de cartéis na indústria petrolífera na década de 60, em parte devido ao aumento da produção; e a formação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) que, entre outros aspectos, foi motivada pela corrida entre países exportadores de petróleo e pela redução de preços por parte de algumas companhias. A Batalha pela hegemonia mundial é a última parte do livro na qual é focalizado o império da OPEP e como o preço do petróleo tornou-se, em meados da década de 80, a principal variante e a maior fonte de incerteza com relação ao futuro do setor no mundo.



O uso do petróleo teve uma história longa e variada no Oriente Médio e de modo misterioso o conhecimento de sua aplicação perdeu-se para o ocidente por vários séculos. Segundo o autor, mesmo "com a moderna história do petróleo tendo começado na segunda metade do século XIX, foi no século XX que a humanidade passou por uma transformação com o seu advento". Três grandes temas relacionados com esta história são destacados: a ascensão e desenvolvimento do capitalismo e dos negócios modernos; o petróleo como um produto intimamente imbricado nas estratégias nacionais e nas políticas globais; e a transformação da nossa sociedade na "sociedade do hidrocarboneto". Em razão de ser um recurso natural geograficamente mal distribuído, e de se tornar a principal fonte de energia da sociedade moderna, o petróleo aparece na obra como um objeto de disputa não só econômica, mas também política.



Desde o querosene como combustível de lamparina, passando por medicamentos, asfalto, fontes de energia para a indústria até a gasolina, "antes um subproduto jogado nos rios", Yergin mostra como o petróleo está entranhado na vida de todos nós, tornando possível o nosso local de moradia, nosso modo de vida e meio de transporte nos deslocamentos. Apesar de ser considerado uma condição sine qua non para o modo de vida atual, o autor não deixa de contar como a "sociedade foi sendo convencida" aos poucos da sua vital importância. Relata vários acontecimentos que mostram como o rei carvão perdeu seu trono para o petróleo, até as políticas que inviabilizaram a ascensão de outros possíveis concorrentes que pudessem substituí-lo no cenário mundial. No final da obra, o petróleo ganha um papel fundamental nos problemas ambientais, em especial relacionado às conseqüências da combustão do hidrocarboneto: fuligem e poluição atmosférica, chuva ácida, aquecimento do globo e a deterioração da camada de ozônio. Com a possibilidade da entrada de novos atores em cena, que possam minimizar esses problemas, a estrela-petróleo poderá ganhar um papel coadjuvante no futuro.



Yergin destaca como o petróleo, ao tornar-se a principal fonte de energia para o processo de industrialização, transforma-se também em mercadoria, gradativamente mais valiosa com aprimoramento das técnicas de extração e novos usos de seus derivados. Nas palavras de um magnata Yergin diz que "petróleo é quase dinheiro" e traz à tona as relações de poder entre grandes empresários, industriais, cientistas e governantes que envolveram a primeira e a segunda guerras mundiais, colocando o petróleo ora como pano de fundo, ora como motivo principal dos conflitos desencadeados. O "poder do petróleo", para o autor, aumentou muito na década de 70, e fez com que países até então periféricos à política internacional passassem a ocupar posição de influência. Considera-o, também, como centro da primeira crise pós-guerra fria, na década de 90, durante a invasão do Kuait pelo Iraque.



A maneira como Yergin escreve sobre a participação dos Estados Unidos nesse acontecimento, como em vários outros, parece nos contar também sobre quem é o autor, e de que lugar conta à história, seja pelas posições que assume ou pelo silenciamento de certas nuances da história. Daniel Yergin é considerado como uma das principais autoridades mundiais em negócios petrolíferos. É presidente da Cambridge Energy Research Associates, professor de administração em Harvard e atua também na instituição governamental John F. Kennedy School. Sem dúvida, a história narrada por Yergin é atravessada pela sua própria história, que contamina os acontecimentos produzindo "Uma história sobre o petróleo", e não "A história do petróleo".



(Resenha de Susana Dias em http://www.comciencia.br/resenhas/petroleo/petroleo.htm)

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on 2/2/11


Economia e história tudo junto, contada de forma deliciosa e interessantíssima. O ponto fraco é a tradução, principalmente a pontuação. Chega a atrapalhar a leitura. Piora quando o livro vai se aproximando do final. A qualidade da impressão, para um livro de 1200 páginas, é sofrível (editora Paz e Terra. O livro tem 900 páginas úteis, ou seja, fora gráficos, referências bibliográficas, agradecimentos, etc.). Mas não desanime, vale muito a pena, principalmente depois da Primavera Árabe ... leia mais

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Eduardo
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27/10/2009 10:06:23