Memórias póstumas de Brás Cubas (Acervo #10) -

    Machado de Assis

    Carambaia
    2019
    336 páginas
    11h 12m
    ISBN-13: 9788569002703
    Português Brasileiro

    “Uma sondagem da alma, uma subjetividade expandida e maluca, como se a mente volúvel e delirante não pudesse sair de um redemoinho.” Assim se refere o escritor Milton Hatoum a "Memórias póstumas de Brás Cubas" no posfácio escrito especialmente para a edição da obra-prima de Machado de Assis (1839-1908) preparada pela CARAMBAIA. Com essas palavras, Hatoum traduz o impacto desconcertante que o romance mantém desde que foi publicado, em 1881. A literatura brasileira nunca produzira nada semelhante, e com "Memórias póstumas" o autor passou de escritor acima da média a gênio – e maior nome da literatura brasileira – reconhecido em seu próprio tempo. Em seu posfácio, Milton Hatoum revisita a inesgotável riqueza dessa obra que Machado publicou – de início em forma de folhetim na imprensa – com pouco mais de 40 anos de idade e que, vista em retrospecto, irradia influência por toda a história da literatura brasileira. Como é praticamente consensual entre os historiadores e críticos, em "Memórias póstumas de Brás Cubas" se encontra a pedra inaugural do romance realista no Brasil. Para alguns especialistas, seria também a primeira narrativa fantástica da literatura nacional. E não há como negar, além disso, os vestígios de romantismo da obra anterior de Machado e principalmente as antecipações do modernismo em sua estrutura fragmentária, ao mesmo tempo calculada e heterogênea, onde cabe até um capítulo feito apenas de nomes e sinais de pontuação. A ruptura da linearidade temporal é operada por um narrador irreverente que lança mão de todo tipo de recurso: citações, jogos de palavras, associações de ideias, diálogos consigo mesmo e diretamente com o leitor. Essa estrutura dinâmica e impregnada de humor, escrita “com a pena da galhofa e a tinta da melancolia”, serve com perfeição a um implacável retrato da elite brasileira escravista do Segundo Império, da qual Brás Cubas é um genuíno representante em seus esforços para viver de renda, herança e um mandato na política e, ao fim da vida, concluir satisfeito que “não pagou o pão com o suor do rosto”. Em torno das aventuras do narrador arrogante e mordaz, que incluem casos amorosos fugazes e mais ou menos descompromissados, orbitam personagens de classe média baixa, figurões do Império, escravos cativos e alforriados e um mendigo filósofo, "Quincas Borba", que nos apresenta um pastiche de ideias de seu tempo e serve a Machado para zombar ceticamente do cientificismo de sua época. Escrito com rara concisão e ressonância universal, "Memórias póstumas" vem sendo, com atraso, incluído em listas internacionais das grandes obras literárias de todos os tempos. Para a ensaísta norte-americana Susan Sontag, é “um dos livros mais divertidamente não provincianos já escritos” e Machado é o “maior autor já produzido na América Latina”. O crítico Harold Bloom considera-o “o supremo artista literário negro”. E Woody Allen coloca o romance entre seus favoritos. Com "Memórias póstumas de Brás Cubas", a CARAMBAIA relança a edição de outra obra-prima de Machado, "Dom Casmurro", que estava esgotada. Agora, o livro sai na coleção Acervo, a preços mais acessíveis e novo formato. Diferentemente dos livros do catálogo tradicional da CARAMBAIA, que saem com apenas 1.000 cópias, todas numeradas a mão, os títulos da coleção Acervo têm tiragens iniciais de 3.000 exemplares cada.

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    Mariana Dal Chico19/02/2025Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    “Memórias póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis, foi publicado pela primeira vez em 1881. Li pela primeira vez em 1999, quando me preparava para o vestibular, em 2016 comprei essa edição belíssima da Carambaia e no primeiro mês de 2025 achei que tinha chegado a hora de uma (re)leitura. O narrador é um defunto autor, sarcástico, irônico, que traz o leitor para dentro da história, que tem uma linha do tempo fragmentada e personagens incrivelmente reais. Brás Cubas foi uma criança mimada, que humilhava com palavras os escravos da casa - sim, aqui a escravidão é explícita - um adolescente apaixonado que usou o dinheiro do pai para “conquistar” a atenção de uma mulher, um jovem adulto mediano - “ (…) era um acadêmico estroina, superficial, tumultuado e petulante, dado às aventuras fazendo romantismo prático e liberalismo teórico (…)” - e um adulto medíocre - “(…) Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento (…)”. Eu ri alto em vários momentos, fiquei entediada em outros, confusa com a constante troca de assunto, ou seja, fui completamente manipulada pela escrita do Machado, bem como ele desejava. “Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...” No geral gostei bastante, mas não me diverti tanto quanto na (re)leitura de “Dom Casmurro” que continua sendo meu favorito do autor.

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