Ontem li esta peça da Rachel de Queiroz, indicada por um amigo. Confesso para minha vergonha que foi a primeira obra que li da escritora. É curtinha: li numa sentada. Tem apenas quatro personagens, um cenário e três atos, o segundo com três cenas, os outros com uma só.
O livro se passa em meados da década de 1910 numa cidadezinha do interior do Ceará, durante a revolta real que aconteceu em Juazeiro do Norte, liderada pelo popular Padre Cícero, para depor o governador Marcos Franco Rabelo. Aqui não há espaço suficiente para explicar em detalhes quem foi Padre Cícero, então basta dizer que ele foi uma das figuras mais influentes do nordeste no começo do século passado, um líder religioso e político muito popular, que contava com uma irmandade de mulheres leigas para realizar sua obra social e sua pregação. Essa irmandade foi fundamental durante a referida revolta, pois andavam nas redondezas alistando combatentes e pedindo víveres e armas e munição.
Pois bem. A protagonista desta peça é uma dessas beatas, personagem ficcional que, assim como o padre, tinha fama de santa e de milagreira. Ela é presa quando estava a caminho de Juazeiro, liderando um grupo de romeiros que iam se juntar ao Padre Cícero para combater os "hereges" do governo. O delegado responsável por prendê-la acaba se apaixonando por ela; ela cede aos avanços dele como preço para que ele a ponha em liberdade, para que ela possa continuar sua missão; ele se ilude, achando que ela retribui seus sentimentos, e fica alucinado quando descobre que se enganou, recusando-se a deixá-la ir embora mesmo quando os romeiros companheiros dela e o povo da cidade cercam a delegacia para libertar a santa.
A peça é magistral. A autora conseguiu juntar numa mesma obra a complexa questão da mistura entre religião e política no Brasil, que sempre existiu em nossa cultura nas mais diferentes situações e com nuances tão intrincadas, e o drama pessoal das mulheres que correm risco quando um homem não aceita o fim da relação. Enquanto lia, lembrei do caso da menina Eloah, que chocou o país há alguns anos. Salta aos olhos que estamos lendo uma mulher — e que diferença de abordagem!
Recomendo.
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