Respiração artificial -

    Ricardo Piglia

    Companhia das Letras
    2010
    200 páginas
    6h 40m
    ISBN-13: 9788535915945
    Português Brasileiro

    Publicado em 1980, quatro anos depois do golpe militar na Argentina, este é o primeiro romance de Ricardo Piglia. Escrito em plena vigência da censura, num estilo narrativo que mais disfarça do que mostra, o livro é uma vitória luminosa sobre a repressão ao pensamento. "Dá uma história?", pergunta-se o narrador ao abrir o texto de Respiração artificial. "Se dá, começa há três anos." Em 1976. Não por acaso, o ano em que os militares tomaram o poder na Argentina e instauraram uma ditadura que duraria sete anos, com entre 9 e 30 mil pessoas mortas ou desaparecidas. Com sua ficção, Piglia busca mais do que a verdade: está determinado a dizê-la. Para isso constrói uma trama em que várias histórias e tempos se cruzam, cumprindo a função de camuflar o que o livro realiza: a exposição do arbítrio e da violência em todo o seu horror. Respiração artificial gira em torno dos "papéis de Ossorio": um conjunto de antigas cartas guardadas entre os segredos de uma família poderosa. Regidos pela figura central do narrador Emilio Renzi - o desvendador da verdadeira história do país -, os personagens desse livro polifônico conversam uns com os outros, inclusive em diferentes tempos de ação, utilizando pontes como cartas, jornais, literatura e filosofia. Apontado por cinquenta escritores argentinos como um dos dez melhores romances da história da literatura do país, Respiração artificial recebeu o prêmio Boris Vian de romance em 1981. No Brasil, foi publicado originalmente pela Iluminuras em 1987.

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    Izabel Santa Cruz Fontes15/03/2010Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    É um livro feito de digressões, de grandes parênteses. Discursos que se engolem, se misturam, se confundem. Pequenas narrativas que parecem não chegar a lugar nenhum. E talvez não cheguem mesmo. Simplesmente porque não precisam chegar. O interesse dos pequenos relatos, dos fragmentos de cartas, está totalmente dissociado do conceito de utilidade narrativa, de construção de uma história convencional, onde os fatos se entrelaçam e constroem um quadro maior. Piglia exerce com maestria a polifonia. Aqui a digressão é também formal e é preciso uma leitura atenta aos pequenos detalhes que separam uma voz de outra, já que os limites não são definidos. Aqui o ponto convergente é a Argentina: Literatura, costumes, herois nacionais, eventos históricos. A ditadura e as suas consequências. É justamente ela quem preenche as entrelinhas e parece motivar as lacunas dos relatos, a aparente falta de propósito da vida dos personagens, a confusão de memórias, as pequenas obsessões sem nenhum propósito. No fundo, me parece um livro sobre pensamentos soltos. Sobre gente que não sabe muito bem por onde ir, tampouco onde quer chegar, e por isso se apega a qualquer caminho.

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