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    Oito visões da América Latina -

    Adauto Novaes

    Senac São Paulo
    2006
    267 páginas
    8h 54m
    ISBN-10: 8573594888
    Português Brasileiro
    4.5
    2 avaliações
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    São oito artigos desenvolvidos por historiadores, sociólogos e antropólogos, que propõem rever as imagens que temos de nós mesmos, buscando perceber as razões do sentimento de perda de identidade ou de inferioridade diante das culturas estrangeiras.

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    Marcos Queiroz picture
    Marcos Queiroz01/09/2025Resenhou um livro
    4.5 (Muito bom)

    Um resenha nada breve, assim como a história da América Latina

    A frase de impacto que abre o livro — "pode-se dizer tudo da América Latina em três palavras: colonialismo, modernidade e capitalismo" — sugere uma lente para entender a região. Embora não abranja todas as nuances, ela aponta para um processo de transformação contínuo, marcado por figuras rudes que levaram os países da colônia à república "através da espada, da cruz e do culto à mercadoria." A relação entre os países vizinhos não se deu por meio de seus povos, mas sim por meio de políticas de homens autoritários e arrogantes. Isso nos leva a uma pergunta essencial presente no livro: "Que visão cada país tem da América Latina?" Enquanto outros países tinham heróis que inspiravam poder cultural e lutas políticas, o Brasil sequer possuía indígenas com relevância no cenário político, algo diferente da situação atual. Nossos heróis eram, em sua maioria, os próprios colonizadores portugueses, o que nos diferencia como o único país de língua portuguesa na América Latina. Culturalmente, a literatura de "realismo fantástico" foi importada pelas classes letradas, deixando de lado a nossa própria produção literária, com poucas exceções, talvez como a de Jorge Amado. Para os nossos vizinhos, a nossa principal referência cultural foi o cinema brasileiro, que, no entanto, é pouco aclamado fora da região. A cultura, por si só, não é uma marca forte que possa ser usada, por exemplo, como símbolo de união do Mercosul. A verdadeira união entre os países da região se deu, de fato, com a criação do Mercosul na década de 1990. Apesar dos entraves e de nem todos os países terem aderido de imediato, como o Chile e a Bolívia, o bloco se tornou um dos maiores programas de parceria comercial isolada do mundo. Contudo, isso não significa que a região deixou de ser vulnerável às políticas norte-americanas. Nossa identidade como continente não foi forjada por uma guerra de controle em larga escala. O Brasil, devido ao seu tamanho, muitas vezes assume a liderança, mas não com um plano de dominação como o da Europa ou dos Estados Unidos. É essencial combater nossos fantasmas históricos, mas para isso, é preciso primeiro identificá-los, convocá-los e lidar com eles. Isso inclui guerras, colonialismo e imperialismo. Devemos remover a lente eurocêntrica e reconhecer nossa própria história. O sistema de dominação em toda a América Latina foi fundado no conceito de raça. É notável como civilizações como os maias, astecas e incas foram generalizadas como "índios", da mesma forma que ocorreu no Brasil, sendo ensinados a se ver sob a perspectiva do dominador. Os negros africanos, antes apenas uma cor, tornaram-se uma "raça sem cultura" na América, a partir do século XVI. O conceito de raça é uma construção mental, um produto da forte influência militar, política, religiosa e cultural que ainda assombra a América Latina. Os argentinos, por exemplo, ainda vivem sob essa lente eurocêntrica ao se considerarem um país europeu. A história da América Latina é bem retratada na literatura de autores como Guimarães Rosa, Juan Rulfo, Gabriel García Márquez e Augusto Roa Bastos, que abordam as realidades do autoritarismo, genocídios, exílios e perseguições. É notável que a América Latina conseguiu se libertar de suas condições colonizadoras por meio de suas próprias iniciativas e feitos nacionais. A percepção do povo latino-americano era intermediada por imagens que vinham de fora, geralmente da Europa e, mais tarde, dos Estados Unidos. Esse colonialismo sem fim dissolve a essência do ser latino-americano. Assim, existiam diversas Américas Latinas simultaneamente, dependendo de quem as observava. Somos múltiplos em nossa cultura, mas não aos olhos dos colonizadores, que sempre tiveram um olhar uniforme. Por isso, é fundamental entender de onde a América Latina é vista. O imperialismo e a colonização norte-americana, em particular, buscam intervir em nossas políticas, leis e governos, sempre nos vendo como simples força de trabalho, uma das piores formas de dominação. O livro termina abordando mitos ameríndios e o princípio da diferença através desses mitos com base nas ideias de Lévi-Strauss, como estas diferenças nos constituem como povo e nação e como não estamos reduzidos ao “um”, sendo um ótimo livro para se pensar nosso país, nosso continente e nossa existência.

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    Adauto Novaes

    Adauto Novaes foi jornalista e professor. Estudou filosofia na França. Foi diretor, durante 20 anos, do Centro de Estudos e Pesquisas da Fundação Nacional de Arte/Ministério da Cultura. Organizou – entre outros – os seguintes ciclos de conferência, que depois viraram livros, a maioria editada pela Companhia das Letras, nos quais publicou ensaios: Os sentidos da paixão, O olhar, O desejo, Ética, Tempo e História (Prêmio Jabuti), Rede imaginária – televisão e democracia, Artepensamento, A crise da razão, Libertinos/libertários, A descoberta do homem e do mundo, A outra margem do Ocidente, A crise do Estado-nação (Record), O avesso da liberdade, O homem máquina, Civilização e barbárie e Muito Além do Espetáculo (Editora Senac São Paulo).

    29 Livros
    12 Seguidores

    Adauto Novaes