Repito coisas que não lembro -

    Débora Gil Pantaleão

    Escaleras
    2019
    63 páginas
    2h 6m
    ISBN-13: 9788594213266
    Português Brasileiro

    Num quarto de pousada, no ano caótico de 2018, uma mulher negra vive uma experiência de nominação e de significação de traumas, desejos e frustrações. Grandes temas como a política, o amor, o desejo, a morte, são revisados e renomeados, no microcosmo do quarto, com seus objetos anódinos, como um ventilador, um lençol, uma lâmpada. Como uma escrita na cabeça, a personagem expele uma enxurrada de palavras e frases cortadas, desconcertadas, quase impedidas, enquanto modo possível de expressão. Talvez porque nomear o que está por trás da angústia seja, quando possível, uma operação atravancada. Nesse sentido, repito coisas que não lembro tenta exprimir, ou melhor, espremer, do tecido da linguagem algo que não está convidado a receber, digerir e elaborar as várias camadas de sentido e de não-sentido que puder negociar com o texto e consigo mesmo.

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    Berttoni Licarião03/11/2020Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    repito coisas que não lembro [2019] Débora Gil Pantaleão (PB, 1989-) Escaleras, 2019, 64 p. . Tive a honra de contribuir com um posfácio para este novo livro-projeto literário-fotográfico da Débora Gil e da Bruna Dias. A título de comentário, deixo um gostinho das palavras que escrevi com muito gosto para a obra: . “É preciso ler, verdadeiramente ler, cada momento de repito coisas que não lembro, ‘com menos altivez, e mais atento’. Parar diante das fotografias de Bruna Dias, absorver a citação bíblica, as palavras de Hilst, de Poe, de Evaristo, de Peixoto. E reabsorvê-las, agora transformadas pelo corpo textual, quando retornam amarfanhadas e mais presas às palavras de Débora Gil do que quando entraram no livro, palimpsestos de si mesmas. [...] Brincando com esse conceito, a narrativa de Pantaleão faz da fotografia palimpsesto da prosa que é, por sua vez, palimpsesto das poesias, que são, também, palimpsestos do corpo que é, em última instância, palimpsesto de palavras. Cada uma dessas esferas traduz gestos políticos que nos marcam, aprisionam, libertam—sobretudo (mas nunca apenas) quando o corpo negrofeminino desvia dos caminhos acachapantes da heteronormatividade. . Convém, talvez, neste último esforço antes da leitora ou leitor fechar o livro, seguir o exemplo de Alejandra Pizarnik e pousar no umbral do olhar tanto o você-que-é quanto o você-que-foi. É isso, afinal, o que faz a voz protagonista de repito coisas que não lembro: presa à sintaxe de um quarto que é sempre agora/memória, sempre eu/outros, inventa sua própria cosmologia para escapar ao mito fundador dos desesperos. Nessa revolução telúrica, carrega objetos afetos violências mulheres insultos desejos que ‘mordem o corpo da alma’ – o mais puro gesto de poesia.”

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