É quase uma surpresa saber que Woman Warrior foi o Winner of the National Book Critics Circle Award for Nonfiction. Digo isso porque a escrita de Maxine Hong Kingston e como ela molda a matéria de sua própria vida e de sua família de ascendência chinesa em histórias tão ricas e imaginativas nos legam um livro de contos que parecem pura ficção. Mas o título, ou prêmio de "nonfiction", tem sua razão de ser: Maxine é uma mulher sino-americana, nascida em solo estadunidense, cujos pais chegaram ao país como migrantes fugindo da guerra. Essa identidade em trânsito, ou esse terceiro espaço de uma cidadã que não é uma coisa nem outra completamente, se configura como um grande fardo que deverá ser esmiuçado através da escrita. O livro começa com o pé na porta com um história de uma de suas tias cujo nome nunca lhe foi revelado, o nome do conto é representativo nesse sentido "No name woman". A primeira missão a que se propõe a autora é traçar um perfil, dentre tantos possíveis, do peso dos costumes e das tradições sobre a maneira de agir e de ser das mulheres chinesas para daí buscar entender em que lugar ela mesma, a autora, se situa: deve abandonar completamente sua "origem" já que nascida em um país distante? Deve alguma lealdade a esses costumes e a imagem de mulher que moldam? A mulher de "No name womam" ou a mulher sem nome, assim se manteve pelos acontecimentos trágicos que se abateram sobre sua vida os quais a família prefere esquecer, fingindo que ela nunca existiu. Maxine escreve contra esse esquecimento e contra uma tradição que lega a mulher ao lugar de desonra na sociedade, nesse sentido a própria escrita já é um posicionamento em relação à tradição, já é seu anuncio de rebeldia, uma reconfiguração das expectativas em torno do seu "ser chinesa". Em seguida, com "White tigers", Maxine resgata o mito de Fa Mu Lan, tão conhecido e popularizado no ocidente, para mostrar como a lenda da mulher guerreira é uma faca de dois gumes: primeiro porque revela as condições de aceitação da mulher na sociedade chinesa - deve ser perfeita e batalhadora, exímia em tudo que faz, caso contrário, será considerada apenas um peso na família; segundo porque em tudo excedendo expectativas e alcançando grandes atos em batalhas lendárias Mu Lan jamais é reconhecida como mulher, seus feitos devem ser entendidos como feitos de um homem para que sejam legitimados. Maxine reconta a lenda e a amarra à sua própria realidade, novamente, para buscar compreender em que terreno se move enquanto uma mulher que se constitui a partir de duas identidades: a chinesa e a americana. As três histórias seguintes "Shaman", "At the western palace" e "A song for a barberian reed pipe" buscam mostrar como modelos específicos de mulheres vivendo o mesmo conflito identitário da autora desenvolveram respostas tão díspares: sua mãe, sua tia, e as mulheres de sua vizinhança. Cada uma à sua maneira obedecendo e se rebelando, em suma, guerreando contra a tradição e vivendo a partir dela em um local de deslocamento que é para elas (e os chineses) como se configura a "América". Maxine adiciona camadas de complexidade quando mistura o relato biográfico com o pano de fundo histórico da transição da China miserável à China da revolução comunista e não reserva aos revolucionários um lugar idealizado, pelo contrário: falando da situação da mulher diante dessa tradição ela insere detalhes dessa transição tendo como ponto de referência as famílias de seu pai e sua mãe que por muito tempo continuaram residindo na China, e nesse desvelamento vamos descobrindo atitudes vis e comportamentos reprováveis do partido comunista sob a tutelo de Mao. O subtítulo talvez seja tão representativo quanto o título: "Memoirs of a girlhood among ghosts". Girlhood diz da experiência de crescimento e aprendizado de uma menina, uma garota. O livro é o conjunto de vivências e demandas experienciadas pela autora durante sua vida na "Gold mountain", a terra dourada, ou ainda "a terra dos fantasmas", como são chamados os Estados Unidos pelos imigrantes. Um livro brilhante, uma autora consciente da complexidade daquilo que trata através da escrita, mas que jamais perde o brilho de uma prosa irônica, que condensa situações ora trágicas, ora cômicas, e que é capaz de emocionar e causar revolta na mesma medida, e tudo isso lançando mão da própria vida como matéria prima para sua escrita. Uma pena o fato de a autora não ter sido traduzida para o português ainda, talvez pela menor representação da comunidade chinesa em nosso meio em comparação aos EUA? Talvez. De qualquer forma vale conferir a obra da autora!