A História -

    Elsa Morante

    Relógio D'Água
    2018
    585 páginas
    19h 30m
    ISBN-13: 9789896418663
    Português

    A História foi publicada em 1974 e tem como cenário a cidade de Roma durante a Segunda Guerra Mundial. Num dia de janeiro de 1941, um soldado alemão caminha pelo bairro operário de San Lorenzo. Àquela hora pouca gente se vê nas ruas. No seu deambular sem rumo, o soldado, alto, louro e um pouco embriagado, encontra Ida, uma professora viúva, que regressa a casa depois do trabalho.

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    mpettrus20/11/2020Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A Maternidade Dolorosa de Ida Ramundo na 2ª Guerra Mundial

    “A História” é um romance popular carregado de denúncias e reflexões sobre questões sociais e políticas que envolveram a guerra e as relações humanas, o individualismo e a desinformação, além de, do ponto de vista sociológico abordar o problema da desigualdade social e de gênero. É um romance ambientado nos bairros populares de Roma, permeado por um espírito de protesto, exaltando personagens humildes e valorizando-os em detrimentos dos personagens poderosos, oferecendo a nós leitores, uma opinião clara e definida, a partir do ponto de vista dos excluídos, sobre os fatos históricos. O argumento utilizado pela autora de usar como papel central a maternidade para defender o papel feminino na determinação do percurso intelectual e cultural dos indivíduos foi assertivo e pontual, porque a crueza da realidade que nos é exposta nessa história se depara com o lirismo das suas palavras e a construção de imagens fortes nos oferece ao mesmo tempo desenhos delicados de personagens frágeis. Por isso é tão essencial nesse aspecto a identidade feminina da protagonista do romance assim como a criança enfraquecida pelas crueldades da história como ocorreu ao pequeno Useppe. Eu fiquei maravilhado em constatar depois de cem páginas lidas o porquê de a autora escolher a "mater dolorosa" como protagonista para estabelecer um diálogo, mesmo em silêncio, o que Elsa faz recorrentemente com maestria e perfeição, com tantas outras mães sofredoras e piedosas. A personagem Ida Ramundo me pareceu a proposta de representação da maternidade, a partir de diversos personagens que encarnam o “ser mãe” como um processo de construção da individualidade e de expressão de si mesmo perante o outro. Nós, leitores, somos convidados a ver essas mães. E nos apaixonamos pelas suas jornadas e trajetórias até o fim de suas vidas. O mutismo de Ida, a fraqueza intelectual de Nino, o infantilismo da linguagem de Useppe, as dores psicológicas de Davide Segre, a fábula da Cachorra-Lobo Bella, e tantos outros personagens que passearam pela jornada desse romance demonstraram as suas limitações na luta pela sobrevivência e por um lugar na história. Um lugar nessa história italiana marcada por longos períodos de guerras, miséria, fome e um forte senso de individualismo. E de maneira brilhante e perspicaz, levando um certo lirismo e poesia na obscuridade humana, Elsa Morante, conseguiu narrar em tom de fábula fatos culturais e históricos de um século permeado de um extremo ao outro pela violência em suas mais variadas formas que a mente humana pode inventar e concretizar. Sem dúvidas, foi o melhor livro das minhas leituras de 2020.

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