Não é fácil ler os livros de Celine, o autor tem opiniões fortes sobre quase tudo. Tudo o que li dele é autobiográfico, então é preciso remeter às leituras anteriores para tentar entender o que ele quer transmitir. Norte é a segunda parte da trilogia que ainda inclui De Castelo em Castelo e Rigodon (ou Rigodão, tipo de dança típica europeia, livro sem tradução em português). Conta a fuga do autor para a Alemanha após expulsão da França por colaborar com o regime nazista e publicar panfletos antissionistas.
Sou leitor de Céline apesar de tudo isso e por causa de tudo isso. A sua personalidade ao mesmo tempo que causa asco é fascinante porque em seus livros sabe se defender atacando seus detratores por tudo o que fizeram ele passar. Se em Morte a crédito seu alter ego Ferdinand Destouches vive peripécias infanto-juvenis, experiências homoeróticas da adolescência, seus primeiros contatos com a medicina, Viagem ao fim da Noite descreve as viagens pelo mundo, os erros das guerras e da sociedade, a trilogia da fuga mostra um autor amargurado com a França e com as pessoas, descontando nos imigrantes e nas minorias étnicas e sexuais as frustrações próprias. Se colaborou com o fascismo ele tinha que pagar mesmo, o preço foi caro, o exílio, a perda da casa e dos bens, mas isso foi terrível para ele e para sua família. Na Alemanha com a esposa, o gato e um colega ator fogem de ataques de bombas em Berlim e vão se abrigar em hotéis literalmente decadentes bombardeados, com pouco dinheiro, pouca alimentação, saúde lastimável, Destouches trabalha como médico e vai parar numa propriedade rural se juntando a um grupo bastante heterogêneo que inclui oficiais da SS, presos políticos, ciganos, gente da antiga aristocracia alemã, pastores, russos. A atmosfera é de história de detetive, mas o que menos importa é o desfecho e quem matou quem, todos sabem quem matou e porque: a guerra deixa todos sonhando, vivendo um pesadelo. Céline foge, evita pessoas - ao seu modo de ver nocivas - na França e encontra na Alemanha gente tão ruim quanto. Ou pior.
O melhor do livro não é a história em si, que ele pode ter vivido ou não (é literatura, é ficção), mas as opiniões acidas do autor sobre as pessoas, as escolhas que fazemos em relação à política, o erro da direita, da esquerda, do centro, dos poderosos que decidem guerras sentados tranquilos enquanto pessoas se massacram lá fora. Não confunda, Celine não é pacifista como Tolstói, tem pensamentos muito perigosos, que só um leitor ou uma leitora consciente(s) precisa(m) entender antes de iniciar a jornada ao mundo cinza desse médico cirurgião das palavras cuja vida permitiu extrair tantas histórias complexas. Ótima leitura