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    Uma solidão ruidosa -

    Bohumil Hrabal

    Companhia das Letras
    2010
    106 páginas
    3h 32m
    ISBN-10: 8535916350
    Português Brasileiro
    3.9
    95 avaliações
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    Uma solidão ruidosa põe em cena um personagem-narrador, chamado Hant'a, um homem de mente simples, mas que se põe a meditar com lirismo, melancolia e humor sobre os 35 anos que passou operando uma prensa hidráulica instalada em um sombrio porão no centro de Praga. Em meio a doses maciças de cerveja, Hant'a tem que compactar todo tipo de papel descartado, inclusive livros clássicos. Acontece que alguns desses livros são salvos da destruição e devorados pela mente perturbada de Hant'a, que, a certa altura, já não sabe mais dizer que ideias são suas e quais foram importadas dos livros que ele deveria destruir. Quando chega a hora de ele ser substituído por trabalhadores mais jovens que irão operar uma máquina muito mais poderosa e produtiva, o velho operário se vê às voltas com um pesadelo recorrente envolvendo uma prensa gigantesca que irá destruir toda a cidade de Praga, com suas tradições e sua cultura milenar, e a ele mesmo.

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    Antônio Carlos Tórtoro17/09/2010Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    UMA SOLIDÃO RUIDOSA: UM PORRE DE REALISMO MÁGICO

    “Quando meu olho pousa em um livro real e olha a palavra impressa, o que ele vê são pensamentos descarnados voando pelos ares, deslizando no ar, vivendo do ar, voltando para o ar, pois, no fim, tudo é ar”. Bohumil Hrabal Pela primeira vez em minha sexagenária existência, terminei de ler um livro e, imediatamente, voltei à sua primeira página para recomeçar a leitura: e faria isso mais vezes com enorme satisfação. Essa foi a reação causada em mim por um dos últimos trabalhos de um dos mais importantes autores tchecos contemporâneos, Uma solidão ruidosa, publicado em 1976, que parece, à primeira vista, produto clandestino de um país sob um regime repressivo, como o que vigorava na então Tchecoslováquia soviética. No entanto, passados mais de trinta anos do fim do comunismo no país que acabou se dividindo em duas nações distintas, o relato de Bohumil Hrabal pode ser lido como um dos momentos altos de um tipo de realismo mágico típico dos países da Europa central e do leste. O narrador, Hanta, passou os últimos 35 anos de sua vida compactando papel usado em uma velha prensa hidráulica, num porão de Praga, infestado de ratos: “ser compactador é um serviços que requer não apenas uma educação clássica, de preferência em nível universitário, mas também um diploma de teologia, porque na minha profissão a espiral e o círculo se juntam, o progressus ad futurum encontra o regressus ad originem”. Durante esse período, Hanta aproveitou para salvar da destruição mais de 3 toneladas de livros raros, possivelmente banidos pelo regime, que ele acabou sorvendo junto com os milhares de litros de cerveja que faziam a alegria de sua alma atormentada. Parte desses livros — Aristóteles, Nietzsche e Goethe são apenas alguns dos autores — Hanta vende para um professor, outra parte é doada a um amigo. O resto permanece estocado precária e ameaçadoramente acima de sua cama, no minúsculo apartamento onde mora. As mulheres de sua vida — uma anônima garota cigana e a infeliz Mancinka — junto com seu chefe e ele mesmo, entre outros personagens — o cigano fotógrafo com óculos de armação dourada, as ciganas azul-turquesa e violeta aveludada, o professor de Filosofia, as presenças etéreas de Jesus e Laozi ao lado da prensa — formam uma galeria humana bizarra e variada que garante a Uma solidão ruidosa o status de genuína pérola literária, concisa e muito poderosa. Seus temas de fundo, vastos e evocativos para o leitor de qualquer época, vão da persistência da memória à evanescência de todo texto literário, das inconsistências do desejo à implacabilidade de uma tecnologia dominada por burocratas insensíveis — a prensa de Bunny sustituindo trabalho de 20 prensas comuns, nas mãos dos jovens da Brigada de Trabalho Socialista — , que acabam ameaçando a própria vida do fabuloso Hanta. Ler essa obra de Hanta: “É como jogar lindas frase na boca e chupá-las como balas de fruta, ou sorvê-las como licor, até o pensamento se dissolver em nós feito álcool, infundindo-se no cérebro e no coração e atravessando as veias até a raiz de cada vaso sanguíneo”. Enfim, Hanta pode ser um idiota encharcado de cerveja, como diz seu chefe, — um idiota diferente, capaz de citar o Talmude, Hegel e Kant com sua cultura bizarra e desorganizada, subproduto do trabalho braçal que desempenha — mas deixará marcas indeléveis na alma e no coração daqueles que amam os livros. ANTÔNIO CARLOS TÓRTORO ancartor@yahoo.com www.tortoro.com.br

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    • 1 estrelas1%
    Bohumil Hrabal profile picture

    Bohumil Hrabal

    Bohumil Hrabal (1914-1997) é um dos maiores escritores checos do século XX, a par de Jaroslav Hašek, Karel Capek e Milan Kundera. Eterno compincha de caneca erguida nas tabernas de Praga, amigo da boa cerveja e de gatos (a ordem é aleatória), cedo se deixou seduzir pelos encantos da capital checa. Cursou Direito, que nunca exerceu, viveu a ocupação nazi e o estalinismo do pós-guerra, e teve um sem-fim de ofícios, nos quais beberia a inspiração para os seus livros: de ferroviário durante a guerra (Comboios Rigorosamente Vigiados, 1965, adaptado ao cinema em 1967) e prensador de papel (Uma Solidão Demasiado Ruidosa, 1976) a contraregra e telegrafista. As suas obras circularam clandestinamente após a Primavera de Praga, foram banidas e queimadas, e, a par de outros intelectuais, Bohumil Hrabal foi acossado pelo regime comunista e pelos censores do Estado. Distinguiu-se pela publicação de obras como Eu que Servi o Rei de Inglaterra (1971), A Terra Onde o Tempo Parou (1973) e Terno Bárbaro (1973), pelo humor grotesco e irreverente e pela obsessão com o discurso autêntico e pitoresco do seu povo. No seu último dia neste mundo, caiu da janela do quinto andar num hospital de Praga, ao dar de comer aos pombos.

    19 Livros
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    Bohumil Hrabal